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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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12/02/2016 08h31

Um viva às campeãs
Rachel Valença

Ao contrário das expectativas pessimistas, as escolas de samba fizeram um bonito carnaval este ano. Bons sambas, muita criatividade e até alguma opulência: quem não se deslumbrou com a entrada estarrecedora da Beija-Flor de Nilópolis, toda banhada em ouro, cintilante e avassaladora? Até o mais empedernido intelectual, daqueles que Joãozinho Trinta afirmava que gostavam era de pobreza, perdeu o fôlego ante tanta suntuosidade.

A vitória da Mangueira, com um belo enredo muito bem trabalhado por seu jovem carnavalesco, Leandro Vieira, foi a vitória do bom gosto, da leveza. E deve ser comemorada, primeiramente porque foi merecida, e todo mundo fica feliz quando isso acontece. Depois, porque pode ser vista como o prenúncio de uma nova era que vai chegando devagar. Novos ventos são animadores quando nos trazem um excelente carnavalesco, sensível, discreto, capaz de fazer da homenagem a uma importante cantora uma ode à diversidade e ao sincretismo neste nosso país de tantas caras.

A aparição da linda porta-bandeira Squel personificando uma iaô, com a cabeça lisa característica das filhas de santo recém-iniciadas, me deixou sem voz. Afinal, os cabelos de Squel eram uma de suas maiores belezas, uma nuvem de cachos definidos, negros, que complementam com perfeição seus traços exóticos. Como tiveram a coragem de lhe raspar a cabeça? E logo o carnavalesco, com quem é casada, que deveria ser o guardião de tanta opulência? Custei a crer que se tratava de uma cabeça de silicone, tal era a perfeição da caracterização. E esta acabou sendo consagrada a imagem símbolo do Carnaval de 2016.

Fotos: Henrique Matos

A vitória do Paraíso do Tuiuti me reporta a muitos anos atrás, à última (e única) passagem da escola pelo Grupo Especial, em 2001. Naquele momento, se completava o trabalho de nove anos de uma diretoria formada por cinco homens jovens, negros, nascidos no morro do Tuiuti e que amavam a escola do lugar. Mas a escola ia muito mal das pernas na década de 90, corria o risco de enrolar a bandeira. Não havia sequer disputa pelo poder. Quem se interessaria por uma escola do Grupo D, sem dinheiro, sem visibilidade, sem instrumentos na bateria, sem autoestima? Nem os moradores do lugar torciam mais por ela... Pois bem, esses jovens foram loucos o suficiente para aceitar o desafio. Em nove anos chegava o Paraíso do Tuiuti ao Grupo Especial.

Muita gente boa ajudou a diretoria nessa época. Até hoje sou parada em quadras e até na rua por pessoas que viveram esse sonho, um momento de beleza e solidariedade que só o samba sabe proporcionar. A comissão de frente era formada por abnegados, que nada recebiam. O barracão, embaixo de um viaduto, era cheio de voluntários, pois Paulo Menezes, o carnavalesco que ficou quatro anos na escola e definiu sua identidade, sabia congregar à sua volta idealistas e sonhadores.

A permanência no Grupo Especial durou um ano apenas. Poderia talvez ter durado mais, se não fosse a luta interna que a ganância pelo poder e pela gorda subvenção suscitou. Os "meninos", como eram carinhosamente conhecidos, deixaram (à força, diga-se de passagem) a escola para os que lá estão agora. Mas o legado que foram capazes de deixar dura até hoje e não acabará nunca, espero. O que de mais importante conseguiram foi tornar o Tuiuti uma grande escola de samba, com estrutura, com torcida, com credibilidade e visibilidade. A gente boa do Tuiuti aprendeu a amar sua escola, a descer para a Avenida para torcer por ela, a se orgulhar dela. Isso não é fácil de destruir.

Amarildo e sua diretoria jamais precisaram de expedientes escusos para chegar à vitória. Nem teriam como recorrer a eles. Não tinham poder nem dinheiro. Não tinham poder para fundir os grupos A e B, aonde os dirigentes atuais levaram a escola, nesta aberração de Série A. Nada disso fizeram. Fizeram carnaval. Chegaram aonde chegaram com muito trabalho e dedicação. A vitória deles não tem data. A cada ano que aquela linda escola entra na Avenida, me enchendo os olhos de lágrimas de emoção, é neles que eu e muita, muita gente pensamos. Parabéns Amarildo, Alexandre, Waltinho, Niltinho e Dudu. O Tuiuti de vocês é campeão de novo.

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