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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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13/02/2016 15h27

Quem fez a cabeça de Squel Jorgea
Rachel Valença

Todo carnaval tem sua imagem-símbolo, a mais forte que passa na Avenida. Carros alegóricos têm sido privilegiados nesse sentido: são grandes, ricos, suntuosos ou originais, e sua visibilidade excessiva acaba "escondendo gente bamba", como dizia o antológico samba do Império Serrano. Quem não se lembra do carro do DNA, de Paulo Barros, na Unidos da Tijuca, imagem-símbolo do carnaval de 2004?

Este ano, apesar de termos tido alegorias marcantes, a imagem que ficou foi a da porta-bandeira da Mangueira, Squel Jorgea, rodopiando com a cabeça lisa típica das iaôs do candomblé. A ideia do figurino e a missão de convencimento foram, certamente, do carnavalesco-marido. Logo, quem fez sua cabeça para encarnar o personagem foi ele.

Aquela perfeição de trabalho técnico que à distância me deu a certeza de que Squel raspara a cabeça me fez pensar imediatamente no número de profissionais de excelência que nossa festa abriga e na quantidade de pequenos detalhes que devem ser planejados e resolvidos para atingir um campeonato.

Foto: Henrique Matos

Ainda não se falava em carnaval quando, há oito meses, o maquiador Kiko Alves foi sondado para a produção de uma careca de látex. Não sabia para quem se destinaria, mas começou a pensar no assunto. Há três meses teve a primeira reunião com o carnavalesco e com a porta-bandeira da Mangueira. Ficou claro para ele que o trabalho envolvia alta responsabilidade, pois deveria garantir à escola 40 pontos.

Kiko não é um estreante. Tem uma longa bagagem de 13 anos de experiência na TV Globo e alguns carnavais na Grande Rio, onde trabalhou efeitos especiais em componentes de carros alegóricos. Mas, diante da responsabilidade da missão, convocou a jovem Débora Saad, formada em cinema pela UFF e especialista em caracterizações para filmes de terror, para sua assistente nesse trabalho. Débora fez curso de especialização na Cinema Make-up School, em Los Angeles, e na Inglaterra consolidou sua formação em efeitos especiais. A equipe estava formada e o desafio aceito.

Foram três meses de pesquisa e testes. Kiko esclarece que foi fundamental para o bom resultado seu envolvimento com as religiões de matriz africana. Seu irmão Edivan de Logunedé, já falecido, era pai de santo e com emoção o maquiador recorda o quanto o irmão foi alvo de preconceito e de discriminação religiosa. Graças a esta ligação anterior com o candomblé, foi numa foto de Pierre Verger, em seu livro clássico sobre orixás, que Kiko foi buscar o modelo para o visual pretendido.

A recomendação era de que o mais absoluto sigilo deveria ser guardado, para garantir o efeito surpresa na Avenida. Isso não era difícil. Difícil mesmo foi decidir o material e a técnica a utilizar. A película de látex foi descartada por causa do longo período de uso: com o tempo cria furinhos e rasga. Como a Mangueira seria a última escola a desfilar, a aplicação deveria durar bem mais do que as quatro horas garantidas pelo fabricante. Daí a opção por uma careca de plástico, importada dos Estados Unidos, por ser mais resistente a suor e chuva.

Débora ressalta as difíceis condições de trabalho durante a aplicação, sem luz adequada. Foram quatro horas de trabalho minucioso, a partir de 17 horas de segunda-feira. Kiko conta ainda que na concentração, quando os últimos retoques deveriam ser feitos, um problema inesperado foi o elástico preto utilizado para prender a tiara. Sem ter como pintá-lo, a solução foi cobri-lo com um esparadrapo da cor da pele.

Tudo isso no chão da concentração, ao lado de banheiros químicos. Queixa? De jeito nenhum. Assim é o carnaval. Quem poderia se queixar, a bela Squel, tudo aguentou com paciência e humildade que surpreenderam a equipe, achando normal passar por este rito de iniciação para chegar ao esperado 10.

Os quatro dez vieram, como coroamento de um trabalho profissional, mas sobretudo como consequência do envolvimento, da emoção, da empatia entre pessoas que amam o que fazem.

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