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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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17/02/2016 07h57

Feliz 2016
Rachel Valença

Todo mundo sabe que para nós, sambistas, o ano só começa mesmo depois do carnaval. Hora de pensar nas coisas ditas sérias (sério para nós é o carnaval), fazer planos e seguir em frente. Meio tristinhos, mas seguindo em frente. Hora também de fazer um balanço do carnaval que passou e que daqui a pouco passaremos a chamar de "ano passado". Basta que se anunciem os enredos para que passemos a dizer: "No ano passado, Mangueira homenageou Maria Bethania...".

Achei o carnaval de 2016 magnífico. Havia mais sambas bons do que ruins, havia animação e alegria, havia muita gente nas ruas curtindo os blocos e arquibancadas cheias para ver as escolas de samba. Além do mais, não choveu uma gota sobre a cidade e a chuva é uma costumeira desmancha-prazeres dos foliões. Sem ela há mais conforto e mais animação. Estive na Sapucaí os quatro dias e teria estado na Intendente Magalhães na terça, se um problema de saúde não tivesse impedido. Mas minha família imperiana foi e se encantou com o que viu: o público vibrando, famílias inteiras com crianças se divertindo, idosos, todo mundo se deslocando para ver parentes, vizinhos e amigos desfilando e para torcerem para a gente do "seu lugar". Como é bonita esta identificação entre os protagonistas do desfile e o público! Foi assim que tudo começou, lá atrás, e o sucesso foi transformando tudo. De maneira positiva, claro. Mas não há dúvida de que se paga um preço por isso.

Foto: Henrique Matos

Na Sapucaí há mais organização, menos atrasos (o único este ano foi no domingo, na entrada da Unidos da Tijuca, retardada por algum problema na dispersão da Mocidade Independente), mais conforto, mais luxo. Mas o inimigo nº 1 é o tédio. A maioria das escolas desfila travada pelas apresentações da comissão de frente e do casal de mestre-sala e porta-bandeira em frente às cabines de julgadores. Quando os dois quesitos chegam ao fim do desfile, a "rolha" sai e a escola flui. E em muitos casos, nas de grande contingente, é preciso correr, de olho no cronômetro, porque se perdeu muito tempo parado. Para o componente, lentidão na primeira metade e correria do meio para o fim. Para o público, dependendo de seu lugar, um carro parado à sua frente ou uma mesma ala tentando evoluir sem sair do lugar. Depois, uma correria incitada por diretores de harmonia nem sempre gentis, e não dá nem para apreciar direito fantasias e carros.

A causa disso é simples e já vem sendo apontada por especialistas há bastante tempo: o desfile é hoje concebido para os julgadores, não para o público. Quem, além dos julgadores, viu as coreografias das comissões de frente na Sapucaí? Muito poucos. Só pela TV, no dia seguinte, assisti à apresentação completa dos casais de mestre-sala e porta-bandeira. Poucos são os casais que rodopiam entre um módulo e outro.

A solução seria retomar um desfile linear, ininterrupto, sem paradas para as tais apresentações. Isso colocaria o julgador na posição de um espectador comum, colocado em lugar privilegiado para observação, mas vendo o que todo mundo vê, numa situação menos artificial do que a que hoje se dá. Do meu posto de observação, apenas duas escolas conseguiram evoluir sem o "efeito rolha": Unidos da Tijuca e Portela. Não sei de que expediente lançaram mão para conseguir isso. Não sei se de outros pontos da Avenida a avaliação seria outra.

Foto: Henrique Matos

Gostei de ver as velhas guardas tratadas com respeito tanto na indumentária quanto na colocação. A da Portela, bem no início do desfile, me despertou a sensação das antigas comissões de frente, como se, com seu deslocamento elegante e altivo, dissessem: "Vejam o que temos para mostrar este ano". Lindo demais. Em outras agremiações, finalizavam o desfile, com orgulho e garbo. É sempre bom ver respeitadas as matrizes do samba, pois não se trata aqui de um espetáculo inventado, produzido. Trata-se de uma manifestação cultural que tem profundas raízes em nosso povo. E só por isso permanece.

O respeito a essas matrizes deveria se manifestar também em relação às alas de baianas. Foi em torno delas que se estruturou a própria noção de desfile. Não é à toa que são uma obrigatoriedade, embora não se constituam num quesito. Acho linda a fantasia de baiana e raramente a vejo atualmente no espetáculo da Marquês de Sapucaí. Se não fosse a Estácio de Sá, que nos trouxe uma lindeza de figurino tradicional, com tabuleiro de quitutes na cabeça e abundância de colares, não teríamos uma baiana legítima para comemorar o centenário do samba. O extremo oposto nos ofereceu a Portela, com uma proposta de funcionalidade dentro do enredo, em total desacordo com a tradição. A fantasia só se reconhece como baiana pela armação da saia. Tudo o resto poderia caracterizar qualquer ala. Ora, a ala de baianas não é uma ala qualquer: como fundamento e raiz, merece respeito. Respeito que acho que anda faltando, à vista do pragmatismo da avaliação por quesitos, que privilegia a técnica.

Foto: Henrique Matos

Desse modo, o encanto vai se perdendo e a gente nem nota. Felizmente, neste carnaval, ele esteve presente em muitos momentos: no alegre desfile do Porto da Pedra, na sóbria beleza do samba da Unidos da Tijuca, no carro em que veio Maria Bethania, o circo dos seus sonhos, na comissão de frente do Salgueiro com seu impressionante Tranca-Rua, na coragem de Alex Marcelino e Daniele Nascimento, lindos e elegantes apesar das águas a seus pés, nos passistas mirins da Imperatriz, na emoção do canto de Neguinho da Beija-Flor, no estandarte do amor eterno à escola da Leopoldina carregado por Chiquinho e Maria Helena.

Enquanto houver esses momentos de encantamento, nosso carnaval está salvo. Ainda que transformado em espetáculo para turistas e celebridades, conserva a emoção. Foi a emoção, não o luxo, que o tornou o que é. Nos cativa, nos tira de casa, nos exaure, nos faz chorar, provoca brigas de família e de amigos, nos enche de esperança de que um mundo melhor é possível. Feliz 2016 para todos!

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Comentários
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    18/02/2016 19:24:43Tuninho CabralMembro SRZD desde 11/04/2009

    Parabéns, Rachel, e obrigado por nos proporcionar uma reflexão dos desfiles do grupo dito especial mas que de SAMBA tem muito pouco. Essas escolas que já foram de samba conseguiram tirar a vontade de ficar ligado na tv por sete horas seguidas por duas noites para ver SAMBA (só posso ir na avenida, sexta e sábado). E a tal da "tv dona de tudo no Brasil" só piora a situação. ...Essa sua sugestão de "retomar um desfile linear, ininterrupto, sem paradas para as tais apresentações" poderia ser um recomeço. Sempre com boas idéias, Rachel Valença, da nossa querida "Escola de Samba" Império Serrano. Inclusive da Velha Guarda Show do IS, claro. Que DEUS nos abençoe. Saudações imperianas!

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