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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



18/02/2016 10h28

Enredos 2017: A armadilha vem aí
Hélio Ricardo Rainho

Ainda nem começaram a anunciar os enredos 2017 e a gente já pressente os equívocos e os caminhos fáceis para um pretenso sucesso. Os erros, além de terem por base a teimosia e o comércio vulgar, encontram apupos em sugestões ocas nas redes sociais. Este ano tivemos algumas "coças" e alguns tropeços nessas escolhas. Mas nem assim as lições parecem ter sido aprendidas.

Há um grande oba-oba para que 2017 tenha enredos exaltando personalidades, muito provavelmente num raciocínio curto de que a Mangueira sagrou-se campeã tão somente por causa da Maria Bethânia. A maioria sugere até nomes de cantoras - viva o "caminho fácil"! - como se fosse a solução dos problemas! Tal qual vinha ocorrendo com os "enredos-entidade", a proposta das escolas deixa de ser o desenvolvimento de um projeto de carnaval e passa a ser um oportunismo, um "carnaval de situação". Querem escolher temas "unânimes", que acreditam serem "infalíveis".

Acomodação e covardia.

Enredos alusivos a personalidade, nos anais do samba, só aconteciam para exaltarem literatos ou personagens históricos.

Foto: Reprodução de InternetA partir dos anos 70, com a irreverência de Fernando Pinto exaltando Carmen Miranda no Império Serrano, enredos sobre artistas passaram a ganhar alguma força, consolidando-se principalmente nos anos 80.

Mas há um fato muito relevante que pouca gente reflete acerca do enredo sobre a Pequena Notável naquele longínquo 1972. Vejam bem: Fernando Pinto não fez uma aposta no populismo nem na apelação midiática. Além de ser uma estrela internacional de verdade, e absolutamente ligada ao samba, Carmen Miranda favoreceu a chamada "estética tropicalista" que Fernando queria desenvolver com esse desfile. Ou seja, o carnavalesco tinha elementos estéticos e artísticos para trabalhar seu enredo. Não era uma carona, nem um bote: era o tema ideal para que o artista pudesse exacerbar sua criatividade e desenhar sua arte autoral. Tanto que, a partir dali, consagrou aquela forma de carnavalizar como sua assinatura.

Hoje, qualquer artista de gravadora vira enredo, pois aposta-se na banalidade populista da televisão e dos programas de auditório para incensar gente pouco ou nada ligada ao samba, às escolas de samba. Ou, ainda que tendo esse vínculo, sendo lembrados apenas por oportunismo e situacionismo. No caso dos artistas e personalidades midiáticas que nada têm a ver com o samba, fica o vazio de propriedade e fundamento, com a grandeza da agremiação subordinada a uma figura que em nada a engrandece, onde a escola acaba virando tela e outdoor pra promover um alienígena. No caso dos que têm a ver com o samba, essa "lembrança pela lembrança" não quer dizer nada mais profundo: parece apenas oportunismo, tentativa de se usar o nome de alguém para alavancar um punhadinho de notas num envelope. Sem estética, sem proposição nenhuma. Depois vêm aquelas sinopses cheias de arremedo e costura pra tentar engrossar o caldo fino de quem não dá samba!

A vitória da Mangueira no carnaval 2016 não teve "só" Bethânia. Tá difícil de entender? Será? A Mangueira 2016 teve um carnavalesco consciente, autor de seu próprio enredo (sim, o enredo era dele!), cuja estética ele já tinha na cabeça, como um planejamento artístico de desfile. Leandro Vieira suou e sofreu muito pra fazer, inclusive, a escola acreditar em sua proposição, pois quebrou alguns tabus e mexeu até com o uso das cores verde e rosa pra definir sua estética de trabalho. Não foi um enredo entubado pela escola nem um golpe populista pra arrebatar jurado. Se a escola não sabe fazer planejamento, se o carnavalesco não tem proposta de carnaval e se o homenageado traz dinheiro mas não traz conteúdo (ou, ainda pior, não traz nem uma coisa nem outra), não adianta nada.

As escolas que erraram, as que deixaram a desejar em 2016, não deveriam se ocupar de sugestões sem fundamento em rede social, nem tampouco de raciocínios baseados no lugar comum e no caminho fácil. Os presidentes de escola não deveriam impor seu régio poder pra negociar cegamente e escolher enredo nenhum: deveriam empoderar seus diretores de carnaval e carnavalescos e deixar a comissão competente trabalhar o que lhes é de direito, sem ditar ou apitar nada. Quem entende de carnaval é a direção de carnaval. Se a direção entende menos que o presidente, então tem que mudar tudo, porque aí está tudo errado mesmo!

Vencer carnaval não tem receita de bolo. Além da imprevisibilidade dos jurados e de alguns critérios muito estranhos que permeiam suas notas, é preciso enfrentar os erros com correção, não com apelação.

Ter uma aposta artística e temática que manifeste e respeite a escola de samba é o mínimo que se espera dos envolvidos. Porque é doloroso e também ridículo a gente ver um canhão cultural como a escola de samba muitas vezes municiada com balinha de festim, carregando em seus andores gente que nada fez pelo samba, só porque a televisão coloca o dia inteiro chapado na telinha como "celebridade"...

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Twitter/Instagram @hrainho

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Comentários
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    19/02/2016 01:00:41onesio meirellesMembro SRZD desde 27/07/2009

    Betania foi lançada no show opinião juntamente com ele e João do Vale. Paulinho da Viola gravou pela primeira vez como componente do Conjunto A Voz do Morro de Ze Ketti e seu nome artístico foi dado por ele e Sergio Cabral. Paulo Cesar Faria não seria um bom nome artistico

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    19/02/2016 00:46:16onesio meirellesMembro SRZD desde 27/07/2009

    Ze Ketti a voz do morro sou eu mesmo sim senhor. Se alguém por mim diz que fui por aí. Quanto riso ó quanta alegria. Teatro Opinião batizado com o titulo de um samba dele que também deu nome ao show onde foi lançada a lado de Ze ketti e João do Valle.

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    18/02/2016 19:36:53Tuninho CabralMembro SRZD desde 11/04/2009

    Bela lição para casa. Taí a aula para os carnavalescos e diretores de carnaval que tem o respeito dos responsáveis pelas escolas de samba. Viajem na imaginação ouvindo um samba de sucesso e terão boas coisas de samba para apresentar na avenida. Gasta-se uma fábula e não conseguem agradar nem os seus. Fernando Pinto de boa lembrança, com o nosso belo desfile e a vitória em 1972. Era feliz e sabia.

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    18/02/2016 14:28:53LASLO PANAFLEXMembro SRZD desde 13/03/2014

    Perfeito Hélio. Você (se não faz) deveria fazer parte do departamento cultural da nossa querida Escola.

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    18/02/2016 13:45:35Luciano GomesMembro SRZD desde 18/02/2016

    Ivete vai ser a derradeira da granode Rio E creio que a beija flor fez bonito com Roberto Carlos e espero que não venham fazer homenagem a Ronaldo......

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    18/02/2016 12:33:44Fabio BorgesMembro SRZD desde 22/03/2012

    Todos os dirigentes devem ler esse texto antes de tomar qualquer decisão. Esse texto é uma dica que tem que ser levada em consideração por todos os envolvidos nas decisões do próximo enredo. Parabéns, Hélio!

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    18/02/2016 11:50:24AntonioMembro SRZD desde 28/06/2011

    Muito bem esclarecido, estás de parabéns...... parem com isso, homenagem a gente que não fala em samba.... Como Neymar.... Agora querendo Ivete... Essa Grande Rio só dá bola fora......

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    18/02/2016 11:48:20AntonioMembro SRZD desde 28/06/2011

    Muito bem esclarecido, estás de parabéns...... parem com isso, homenagem a gente que não fala em samba.... Como Neymar.... Agora querendo Ivete... Essa Grande Rio só dá bola fora......

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