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Cláudio Francioni

Cláudio Francioni

MÚSICA. Carioca, apaixonado por música. Em relação ao assunto, estuda, pesquisa e bisbilhota tudo que está ao seu alcance. Foi professor da Oficina de Ritmos do Núcleo de Cultura Popular da UERJ, diretor de bateria e é músico amador, já tendo participado de diversas bandas tocando contrabaixo, percussão ou cantando.

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23/02/2016 15h00

'Revolver' : a Revolução, meio século depois
Pedro de Freitas

Caros leitores. Eis a nossa nova série, onde relembraremos álbuns clássicos que completam décadas redondas de lançamento. E não haveria melhor forma de começarmos a não ser Beatles.

 

Há uns anos atrás, conheci Liverpool. 

Estava de passagem por Londres, e lá fiz amizade com outro brasileiro, um recifense completamente fissurado pelos Beatles. Ele insistiu para que fôssemos a Liverpool no fim de semana e concordei. Não me arrependi: Liverpool é uma grande cidade. Mesmo assim não passou incólume ao fato de ser a terra natal da maior banda de rock de todos os tempos. Os Beatles estão devidamente incorporados à cultura e até à economia local.

Algumas atrações da cidade são do tipo "não deixe de ir", como o mitológico Cavern, a casa de espetáculos situada em um antigo abrigo antiaéreo onde os Beatles tocavam no início de carreira. Outras não são tão óbvias assim. Um simpático motorista de taxi nos levou à igrejinha de St Peter. Nos fundos do templo há um pequeno cemitério. Parei na frente de um dos túmulos e li na lápide: "Eleanor Rigby". Cinco passos adiante, estava enterrado um homem de sobrenome Mackenzie. "Father Mackenzie", pensei eu, me lembrando da letra da música. Liverpool faz parte do rol de cidades que têm um cemitério como atração turística.

Foto: ReproduçãoGraças ao magnífico e espetacular "Revolver" o disco que representou uma guinada na carreira do "Fab Four", e que mudou a cara da música e cultura pop para sempre. No álbum "Rubber Soul", os Beatles já davam sinais de que queriam mudar e iriam deixar para trás o passado de "boy band", de grandes turnês e perseguições por hordas de adolescentes histéricas.

Um primeiro passo foi, em 1966, declararem a intenção de não mais se apresentarem em concertos ao vivo, promessa somente quebrada uma única vez, já no final da carreira, no famoso "concerto do telhado", no topo do edifício da gravadora Apple, em Londres. Mas a ruptura somente se consolidou com o lançamento de "Revolver". Absolutamente revolucionário, foi o primeiro disco dessa segunda fase dos Beatles (ainda viriam "Sargent Pepper's", o Álbum Branco e "Abbey Road"). Os Beatles apontaram esse "Revolver" para toda a cultura e arte pop do século XX. E dele saíram flores coloridas e psicodélicas. 

Tudo em "Revolver" é marcante, da capa do disco feita de colagens (técnica repetida com êxito ainda maior em "Sargent Pepper's") ao repertório matador. A aula de música começa com "Taxman",de George Harrison, que satiriza a voracidade do estado britânico (e poderia servir também para alguns países sul americanos!). George passou a ter influência cada vez maior na segunda fase da carreira dos Beatles. Findo esse cartão de visitas, um coro e um quarteto de cordas anunciam os primeiros acordes da majestosa "Eleanor Rigby". Paul McCartney passou a vida negando a mórbida influência do cemitério na letra da música. Porém, creio mais no que meus olhos já viram: os túmulos de Eleanor, Mackenzie & "all the lonely people"?

Na sequência do disco, John Lennon entoa um saboroso hino à preguiça ("I'm Only Sleeping"), e "Love You To" é a primeira música que mostra de maneira explícita a influência oriental na música dos Beatles. Em seguida, a balada "Here, There And Everywhere", que se tornou um dos maiores sucessos românticos da banda. Falando em sucesso, a música seguinte, "Yellow Submarine", conquistou os corações infantis. A partir daí, ouvir Beatles passou a ser coisa de criança também. Cantada por Ringo Starr, utiliza toda uma sonoplastia que dá uma idéia de movimento em uma embarcação, e transforma a canção em um "cartoon em forma de  música". "She Said, She Said" e "And Your Bird Can Sing", com seus "riffs" de guitarra pegajosos, mostram que os Beatles não se descuidaram de suas raízes roqueiras. Mas o diferencial do disco é o mix de experimentalismo frenético e apuro melódico nas composições.

Foto: Reprodução"For No One"  é uma canção perfeita, que poderia ter sido idealizada por um Cole Porter, um George Gershwin, ou outro compositor que não tenha reconhecido barreiras entre o pop e o clássico. Já "Good Day Sunshine" é a melhor música do mundo para se ouvir em um dia ensolarado. Após se maravilhar ao longo de dez músicas, qualquer mortal diria: é o suficiente. Mas ainda tem uma última música. E, em um disco como esse, não poderia ser uma última música qualquer.

Algum tempo antes das gravações de  "Revolver", os Beatles vinham flertando com a música concreta produzida por compositores eruditos de vanguarda como Varèse e Stockhausen. Creio que a ambição artística ilimitada deles fez com que procurassem um meio de unir aquilo à música pop. O  resultado foi "Tomorrow Never Knows" uma música brilhantemente transgressora, que, segundo se viu depois, estava no mínimo uns trinta anos adiante do seu tempo.

A sensação que se tem é que durante a gravação dos três minutos de "Tomorrow Never Knows" abriu-se um portal em uma nova dimensão onde tudo era permitido. A marcação de bateria de Ringo é hipnótica, e inspirada em ritmos indianos. A gargalhada de Paul foi distorcida para se assemelhar ao som de um pássaro. É dele também o estranho solo de guitarra, que foi gravado e em seguida tocado de trás para frente. George toca cítara, tambura e outros instrumentos orientais exóticos. John Lennon solta a voz, meio entorpecida e comprimida por efeitos de estúdio, recitando versos inspirados nos livros sagrados de monges do Tibete:

"Desligue sua mente, relaxe e flutue com a correnteza,
Isso não é morrer, isso não é morrer,
Abandone todos os pensamentos, renda-se ao vazio,
Isso é brilhar, isso é brilhar,
Você pode ainda ver o significado do seu interior,
Isso é ser, isso é ser,
Amor é tudo e amor são todos,
Isso é saber, isso é saber"

Em volta de tudo isso, uma sinfonia caótica feita de ruídos, loops de gravação, colagens de sons, e o que mais viesse na cabeça dos quatro. Hoje vemos ecos deste experimento revolucionário em toda a música pop atual, do Hip Hop à música eletrônica. Toda essa galera deveria reverenciar os Beatles e "Tomorrow Never Knows".

A última prova da atemporalidade de "Revolver" veio com meu filho. Desde que usava fraldas, ele adorava as músicas deste disco. Hoje ele cantarola música após música de "Revolver" sem pular uma sequer. Um dia nós passaremos, e nossos filhos depois de nós. Mas estou certo que "Revolver" sobreviverá por gerações, como uma contribuição da banda de Liverpool para o patrimônio da humanidade.

Beatles - "Tomorrow Never Knows"


Comentários
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    24/02/2016 17:57:18Jaíse PaesAnônimo

    Excelente iniciativa relembrar dos clássicos!

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