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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



24/02/2016 08h28

Alienação cultural e enredos: outra reflexão
Hélio Ricardo Rainho

As massas sempre foram e sempre serão o alvo de manipulação e engodo dos poderosos. Para isso, a política criou o populismo assistencialista e os impérios da comunicação criaram o lixo cultural. Fato óbvio, indiscutível. Qualquer análise com objetos de estudo devidamente depurados vai evidenciar isso.

Acho perfeitamente natural que as massas absorvam (elejam e consumam) o que não presta. Não é por acaso: o lixo político e o lixo cultural foram criados (e só existem) porque foram "geneticamente" programados para esse grupo consumir. Tipo droga: é feita para viciar e aumentar o número de já viciados, esvaziando suas mentes a cada uso. É um produto fabricado sob medida para enganar em massa, seduzir em massa. E é feito com a malícia e o entendimento de saber que tem gente que "adora". Gente que eles subestimam e cativam, estudam e conhecem a fundo para saber como enredar. Uma lógica construída de mentiras validadas por repetição: de tanto você ouvir nas propagandas, acaba acreditando que é bom.

Domingo passado, o Fantástico, da TV Globo, fez uma matéria muito longa sobre um certo "MC" que gravou um vídeo de Xmilhões de curtidas, anunciando isso como um feito de rara grandeza. Um espaço dito nobre da televisão ocupado por uma flatulência (vide dicionário), eu diria. De quebra, a produção do programa imediatamente levou um "sertanejo" para justar-se a ele. O mesmo sertanejo que não consegue trocar três palavras numa canção ou numa entrevista, mas foi sindicalizado à força pela emissora para protagonizar um dos piores programas que ela insiste há anos em manter no ar. Reparem: tudo que a emissora faz sempre precisa ter um sertanejo no meio. Ou um "karakamuleke" qualquer desses da vida.

Foto: Divulgação

Não sabemos como anda a produção intelectual dos grandes compositores, nem revisitam o histórico de nomes da música que apontaram caminhos para este país. Silas de Oliveira comemora seu centenário e não "mereceu" matéria no tal "programa". Por que será que o autor de "Heróis da Liberdade" não merece tamanho espaço na TV que nasceu do conluio com a ditadura???

Entendo que as massas nunca reflitam sobre isso. Isso não aborrece a turma que "só quer se divertir". Já dizia o pensador francês Jean Baudrillard: "as massas querem o espetáculo"! Os poderosos sabem disso e alimentam essa "descontração". Eles apostam seus milhões no espetáculo justamente porque conhecem tudo de quem eles manipulam!

Talvez vocês comecem a entender o porquê das escolas de samba, até então bastiões de resistência cultural de nosso país, serem hoje, em sua maioria, idealizadas por gente que desrespeita as raízes culturais, sociais, processuais e ideológicas das agremiações. Gente que, há dois anos ou três, crucificava os enredos que, para 2017, estão trazendo pra avenida e assinando embaixo. Gente que quer uma crítica de encomenda engarrafada, falando o que eles querem do jeitinho que eles querem. Gente que pensa que crítico é matéria paga; que está ali pra falar o que a assessoria deles divulga, o que eles querem ouvir!

Esses enredos aí que estão assustando todo mundo têm origem em todo esse processo que alguns não enxergam e outros (inclusive intelectuais populistas) defendem dizendo que "é legal". O erro repetido vira verdade. O erro mercadológico dá dinheiro a uns e sugere portas abertas a outros. Todo mundo quer dinheiro e poder. Ninguém é simpático nem popular: isso é outra mentira!

O jogador de futebol alienado e distante da realidade do povo, milionário desde os 19 anos e com formação escolar quase nenhuma, vira parâmetro de qualidade nacional: a "dancinha" que ele fizer num campo europeu vai dizer o que você deve ouvir e até o enredo que você vai escolher para sua escola de samba aqui no Brasil da crise, do mosquito e do arrocho!

Pra quem só tá a fim de curtir um porre na balada, isso é "padrão de vida show"! Pra quem quiser raciocinar minimamente com três neurônios a mais que a maioria, vai ficar muito claro que isso não é espontâneo nem popular...é pura e flagrante manipulação! Não é à toa que vira matéria de 15 minutos em horário "nobre" de televisão.

Como em Matrix, questão de escolher a pílula azul do mundo virtual ou a pílula vermelha do mundo real.

Estamos irremediavelmente entregues à nossa própria sorte. Nosso maior consolo e esperança é que ainda somos nós que escolhemos a pílula. Ainda dá tempo de refletir sobre o lado em que queremos estar...

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Comentários
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    24/02/2016 17:12:39LASLO PANAFLEXMembro SRZD desde 13/03/2014

    Conforme meu comentário em seu texto anterior, espero que o Sr. faça parte do quadro cultura da nossa querida Escola e ajude a mudar esse panorama.

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    24/02/2016 14:59:14Eduardo WandermuremMembro SRZD desde 12/04/2009

    Me senti até mais leve, tudo o que penso também, foi a minha voz. Como sou apenas mais um no meio do público, ninguém me ouviria, seu texto está perfeito.

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    24/02/2016 11:40:19Leonardo OliveiraMembro SRZD desde 24/12/2015

    Mais uma vez excelente Hélio. A perpetuação da flatulência na sociedade e na mídia brasileira me assusta. É triste

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