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Tunico da Vila

Tunico da Vila

CARNAVAL. Cantor, compositor, percussionista, bi-campeão pelo Grupo de Acesso e tri-campeão do Grupo Especial do Carnaval carioca pela Vila Isabel.

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24/02/2016 08h44

Valeu, Trambique!
Tunico da Vila

Foto: Acervo pessoalÔ Zé....

Ainda me lembro no auge da minha infância, você ali no Morro dos Macacos, onde morava e vinha a ser o Mestre de Bateria da escola mirim da Vila. Mestre? Ah não, mestre para você era pouco, porque você era um paizão e quase que um sacerdote para todas aquelas crianças.

Ainda me lembro de você contando quando começou com as latas no lugar dos instrumentos, e de quando seu Miro deu os instrumentos para as suas crianças. Você me disse, com lágrima nos olhos, sobre a festa que foi em frente a sua casa.

E no bloco da Kizomba? Você foi o primeiro mestre do bloco fundado por meu pai e me colocou na frente, lembra?
E quando Martinho da Vila levou a bateria da Vila Isabel pela primeira vez ao Teatro Municipal, e você teve a responsabilidade de escolher seus ritmistas? Claudinho Moreno, Corelha, Julinho, Cabide, Mug, Graxa, Julinho e ainda tinha eu ali olhando para você. Que noite fantástica e histórica para a Vila Isabel!

Ainda me lembro de você vendendo frutas em frente a padaria na Mendes Tavares, esquina com Teodoro da Silva, e me chamou para conversar:

- Tunico, vai ficar nessa de soldado?
- Por que, Zé?
- Você se esqueceu que é da bateria da Vila? Vai ser músico, porque essa é a sua bandeira.

Aí você me fez pensar, pensar e pensar.
Me tornei músico e você sempre a me guiar:
- Tunico, come aqui essa maçã.
- Obrigado, Zé.
- Agora enquanto você come essa maçã você vai pensando em estudar música, não pode ser apenas de escola de samba não, vai escutar de tudo porque sou eu que estou falando.

Aí eu escutei salsas, sembas e muitos outros ritmos, e você disse assim:
- Esqueceu de Maracatú, congada, carimbó, calango, samba de roda? Vai escutar os discos de seu pai porque os discos do mestre têm tudo de bom da música brasileira... Ah muleque, acorda!

Você tentou me levar junto com o Alisson para Vila Lobos, mas por um acaso do destino eu não pude ir.

Mas o Alisson, seu filho, foi e se formou, tornando-se um músico percussionista de primeiro escalão.
Começamos a gravar juntos algumas coisas e eu sempre vendo você tocar magistralmente seu repique de anel.
- Zé, que instrumanto é esse?
- Gostou?
- Sim, eu amei!
- Então procure saber quem foi o falecido Doutor, e outra, vai procurar saber sobre Geraldo Bongô e estude o que eles fizeram. Estão todos nos discos de seu pai.
E assim foi.

E no meio da bateria você me parou e disse:
- Tunico, você está correndo, olha pro diretor e conte compasso.
E eu ali, seguindo os seus conselhos e admirando ele cada vez mais.

Como percussionista, alcancei alguns feitos graças aos seus ensinamentos.
José Belmiro Lima, Zé Trambique ou apenas o Zé... O Trambique.
Quantas crianças você livrou de caminhos errados e hoje são homens de caráter e chefes de família graças ao que você nos ensinou.

Quantos músicos o reverenciavam quando ele chegava com seu doce sorriso e seu alegre batucar.
Zé Trambique agora está no caminho das estrelas, e de lá ele continuará iluminando todas as crianças daquele bom e velho Morro dos Macacos.

Zé, muito obrigado por me ajudar a ser quem eu sou, e digo que se meus olhos hoje choram pela sua morte, o meu coração bate feliz por ter conhecido uma das pessoas mais fantásticas que eu conhecí.

Te amo Zé... Ô Zé.... Vai na paz de Deus porque sua vida será sempre lembrada com os nossos eternos aplausos.
Você agora com certeza é um dos Deuses do samba!

Que os Deuses do samba estejam com a Vila Isabel !
Valeu, Zé!
Valeu, Trambique!

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Comentários
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    24/02/2016 18:58:18Tunicotunico da VilaMembro SRZD desde 08/09/2013

    Almir, você tinha que ter conhecido ele. Eranum verdadeiro herói!

  • Avatar
    24/02/2016 11:28:45Almir Da Silva LimaMembro SRZD desde 21/11/2014

    Presto homenagem póstuma ao sambista & músico-percussionista JOSE BELMIRO LIMA , Mestre Trambique (19/05/1945 a 22/02/2016, PRESENTE) de coautoria dele mais os compositores Ney Silva e Paulinho Correia, a íntegra da letra da obra musical eternizada por Martinho da Vila intitulada Na Aba: ´Na aba do meu chapéu você não pode ficar/Porque, meu chapéu tem aba curta/Você vai cair e vai se machucar/Como vai se machucar/Eu compro cerveja, você pede um copo e bebe logo/Eu compro cigarro, você pede um/Como você pede um/Mando vir um salgado, o senhor come tudo/Parece que nunca comeu/Pede tudo que vê, tu es um 171/Um tremendo 171/Eu não nasci pra coronel/Coronel/Saia da aba do meu chapéu/Você passa por mim e pergunta zombando/Passa zombando e me diz/Uns e outros maneiro como é que é?/Como é que é?/Para o seu bem estar fique logo sacando/Olha seu coisa ruim/É que lá no macaco não tem Zé Mane, não mora mane/Na tendinha do Zé do Caroço/Será que o senhor não se lembra?/Paguei a despesa e ficaste com o troco/Até hoje não me devolveu/Olhe bem que a massa está te sacando/Como está/De repentemente o bicho tá pegando/Como o bicho tá pegando/É que sou do bairro de Noel/Seu nome é Vila Isabel/Vai saindo da aba do meu chapéu´. Descanse em paz no ´andar de cima´ Mestre Trambique! Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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