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Ana Carolina Garcia

Ana Carolina Garcia

CINEMA. Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

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29/02/2016 04h14

Oscar 2016: 'Spotlight: Segredos Revelados' derrota 'O Regresso'
Ana Carolina Garcia

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences - AMPAS) realizou na noite do último domingo, dia 28, no Dolby Theatre em Los Angeles, a 88a cerimônia de entrega do Oscar. E o filme vencedor foi "Spotlight: Segredos Revelados" (Spotlight - 2015).

Foto: Divulgação

Baseado na história real da equipe de jornalistas investigativos do "The Boston Globe" que esmiuçou as acusações de abusos sexuais a crianças e adolescentes, denunciando parte do clérigo católico em 2002, o longa venceu duas das seis estatuetas a que concorria: a de melhor filme, citada anteriormente, e a de roteiro original, concedida a Josh Singer e Tom McCarthy, indicado como diretor.

"Spotlight: Segredos Revelados" era um dos favoritos ao prêmio máximo da Academia e derrotou dois fortes oponentes: o vencedor do PGA Awards, "A Grande Aposta" (The Big Short - 2015), e o do Globo de Ouro e do DGA Awards, "O Regresso" (The Revenant - 2015). "Esse filme deu voz aos sobreviventes e este Oscar amplificou esta voz, que esperamos que se torne um coro que vai ressoar até o Vaticano. Papa Francisco, está na hora de proteger nossas crianças e restaurar a fé", disse Michael Sugar, um dos produtores do longa, ao lado de todo o elenco, diretor e de Mike Rezendes, um dos jornalistas da Spotlight, interpretado por Mark Ruffalo.

Foto: Divulgação (Aaron Poole / ©A.M.P.A.S.)

Líder com 12 indicações, "O Regresso" (The Revenant - 2015) colocou o nome de seu diretor, Alejandro González Iñárritu, de vez entre os maiores da história da AMPAS, vencendo por dois anos consecutivos o Oscar de melhor direção - recebeu no ano passado por "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance - 2014). Algo que apenas John Ford e Joseph L. Mankiewicz haviam conseguido.

Foto: Divulgação (Mark Suban / ©A.M.P.A.S.)

"Não acredito que isso esteja acontecendo", disse o bicampeão ao subir ao palco. O cineasta mexicano que sacudiu a indústria, relembrando-a em como realizar bons filmes, agradeceu a todos os envolvidos em "O Regresso" para, então, assumir um tom politizado em seu discurso de agradecimento: "Tenho muita sorte de estar aqui esta noite, mas infelizmente outros não têm. Tem uma frase no filme em que Glass (personagem de DiCaprio) diz ao filho mestiço: 'eles não te escutam, eles só veem a cor da sua pele'. Então, esta é uma grande oportunidade para a nossa geração se libertar de todo o preconceito e deste pensamento tribal, e ter a certeza de uma vez por todas de que a cor da pele é tão irrelevante quanto o comprimento do nosso cabelo".

Foto: Divulgação (Mark Suban / ©A.M.P.A.S.)Consagrando ainda Emmanuel Lubezki como melhor diretor de fotografia, pelo terceiro ano consecutivo, "O Regresso" teve como grande feito garantir a estatueta de melhor ator a Leonardo DiCaprio, que, assim como Iñárritu, agradeceu a todos os envolvidos, especialmente o diretor e Tom Hardy, para em seguida assumir um discurso de viés político: "A mudança climática é real. Isso está acontecendo agora. É a ameaça mais urgente para toda a nossa espécie e precisamos trabalhar juntos e parar de procrastinar. Precisamos apoiar os líderes ao redor do mundo que falam pela humanidade e não pelos grandes grupos industriais", disse o ator, lembrando os povos indígenas e em como bilhões de pessoas, sobretudo carentes, serão afetadas pelas mudanças climáticas.

A vitória de Leonardo DiCaprio era esperada, assim como as de Brie Larson (melhor atriz) e Alicia Vikander (atriz coadjuvante) por "O Quarto de Jack" (Room - 2015) e "A Garota Dinamarquesa" (The Danish Girl - 2015), respectivamente. No entanto, a grande surpresa da noite ficou a cargo da categoria de ator coadjuvante que tinha Sylvester Stallone como favorito absoluto. Vencedor de 10 Framboesas de Ouro e do Troféu Redenção, entregue ontem pela mais temida premiação da indústria, Stallone realizou um belíssimo trabalho em "Creed: Nascido Para Lutar" (Creed - 2015) e esta pode ter sido sua única chance de receber uma estatueta do Oscar, não apenas pela atuação no longa da franquia "Rocky", criada por ele nos anos de 1970, mas por tudo o que fez pela indústria ao longo de seus 46 anos de carreira. Afinal, Sly lhe dá muito lucro, dinheiro importante para manter suas engrenagens funcionando.

O eterno Rocky Balboa perdeu para Mark Rylance, seu principal oponente, que compôs muito bem o espião soviético de "Ponte dos Espiões" (Bridge of Spies - 2015), concedendo-lhe certo carisma e impedindo o tom estereotipado comum a personagens como o dele. Esta foi a única estatueta, das seis a que concorria, que o longa de Steven Spielberg recebeu.

Numericamente falando, o grande vencedor da noite foi "Mad Max: Estrada da Fúria" (Mad Max: Fury Road - 2015), que faturou seis das 10 estatuetas a que foi indicado, todas as estatuetas em departamentos técnicos, ao qual era um dos favoritos, ao lado de "O Regresso".

Vencedora do Oscar de atriz coadjuvante por "Ghost - Do Outro Lado da Vida" (Ghost - 1990), Whoopi Goldberg apresentou o vídeo da cerimônia de entrega dos prêmios honorários, realizada em novembro, que homenageou Gena Rowlands, Spike Lee e Debbie Reynolds (Jean Hersholt Award). A atriz, que já apresentou edições passadas da cerimônia, também participou de piadas sobre a polêmica de falta de diversidade na maior festa do cinema mundial.

Foto: Divulgação (Aaron Poole / ©A.M.P.A.S.)

A cerimônia foi bastante ágil e teve bons momentos, como a participação de personagens da franquia "Star Wars" (R2-D2, C3PO e BB-8), Minions e dos protagonistas de "Toy Story" (Idem - 1995), o caubói Woody e o astronauta Buzz Lightyear, que apresentaram o prêmio de melhor animação para "Divertida Mente" (Inside Out - 2015), o favorito que derrotou o brasileiro "O Menino e o Mundo". Outro momento de descontração foi quando Chris Rock pediu aos presentes que colocassem as mãos nos bolsos para comprar biscoitos de um grupo de escoteiras que, de acordo com a AMPAS, arrecadou US$65.243,00 em vendas. Posteriormente, tais biscoitos foram servidos ao elenco de "Spotlight: Segredos Revelados" no palco, após o anúncio de melhor filme.

A busca dos produtores por agilidade nesta edição teve um destaque negativo: as legendas de agradecimentos dos vencedores. Este ano, foi solicitado a todos os indicados que entregassem seus discursos para, no caso de vitória, serem utilizados nas legendas, objetivando o menor tempo possível no palco. Mas não funcionou bem, pois era impossível para o telespectador ler alguma coisa.

A polêmica do "#OscarsSoWhite"

Apresentada por Chris Rock e envolta numa grande polêmica que resultou em boicote por parte de algumas pessoas em Hollywood, como Spike Lee (homenageado em novembro com uma estatueta honorária) e o casal Jada Pinkett-Smith e Will Smith, a cerimônia deste ano não podia ignorar os acontecimentos das últimas semanas. Com isso, o comediante iniciou seu monólogo colocando o dedo na ferida, equilibrando sarcasmo e bom senso, num tema de difícil digestão para a indústria.

"Tem pelo menos 15 negros ali fora. Estou aqui no Oscar 2016, conhecido como a premiação para pessoas brancas, mas deixa contar para vocês: este é o Oscar mais louco que já apresentei. Vocês se dão conta de que se eles (os membros da AMPAS) indicassem os apresentadores, eu nem teria este trabalho? Todos vocês estariam assistindo a Neil Patrick Harris neste exato momento. A pergunta é: por que estamos protestando durante este Oscar? É o Oscar número 88, o que significa que este negócio de não indicação para negros já aconteceu outras vezes... e ninguém protestou. Por quê? Porque tínhamos coisas reais para protestar. As pessoas estavam ocupadas sendo estupradas ou linchadas e ninguém se importava com quem ganhou como melhor fotografia... As coisas estão mudando. Nós estamos aqui para homenagear atores e filmes. Os atores negros devem ter as mesmas oportunidades. É isso! Somente isso!", disse Rock que também assumiu o tom de piada para alfinetar Spike Lee e Jada Pinkett-Smith, que boicotaram a cerimônia.

Foto: Divulgação (Aaron Poole / ©A.M.P.A.S.)

A polêmica foi abordada por muitas pessoas durante toda a cerimônia, inclusive pela presidente da AMPAS, Cheryl Boone Isaacs, que destacou o importante papel de toda a comunidade hollywoodiana nesta necessidade de mudanças, não somente na Academia, mas em toda a indústria, pois se não houver oportunidade, não haverá prêmio para ninguém.

Se dentro do Dolby Theatre o clima nem de longe lembrava protestos, do lado de fora a situação era bem diferente, pois um grupo liderado pelo reverendo Al Sharpton protestava próximo ao tapete vermelho, exibindo cartazes contra a falta de representatividade no Oscar, segundo a agência Reuters. "Diversidade, inclusão e justiça em Hollywood", dizia um dos cartazes.

Sem dúvida alguma, com ou sem protestos no auditório, esta edição será um divisor de águas na história da Academia, que busca uma renovação em seus membros para garantir representatividade a todos.

Confira a lista completa dos vencedores do Oscar 2016:

Melhor filme:
- "Spotlight - Segredos Revelados";

Melhor direção:
- Alejandro González Iñárritu - "O Regresso";

Melhor ator:
- Leonardo DiCaprio - "O Regresso";

Melhor atriz:
- Brie Larson - "O Quarto de Jack";

Melhor ator coadjuvante:
- Mark Rylance - "Ponte dos Espiões";

Melhor atriz coadjuvante:
- Alicia Vikander - "A Garota Dinamarquesa";

Melhor roteiro original:
- "Spotlight: Segredos Revelados" - Josh Singer e Tom McCarthy;

Melhor roteiro adaptado:
- "A Grande Aposta" - Charles Randolph e Adam McKay;

Melhor animação:
- "Divertida Mente";

Melhor filme estrangeiro:
- "O Filho de Saul" (Saul Fia - 2015, Hungria);

Melhor fotografia:
- "O Regresso" - Emmanuel Lunezki;

Melhor edição (montagem):
- "Mad Max: Estrada da Fúria" - Margaret Sixel;

Melhor design de produção:
- "Mad Max: Estrada da Fúria" - Colin Gibson e Lisa Thompson;

Melhor figurino:
- "Mad Max: Estrada da Fúria" - Jenny Beavan;

Melhor maquiagem e cabelo:
- "Mad Max: Estrada da Fúria" - Lesley Vanderwalt, Elka Wardega e Damian Martin;

Melhor trilha sonora:
- "Os Oito Odiados" (The Hateful Eight - 2015) - Ennio Morricone;

Melhor canção original:
- "Writing's On The Wall" - "007 Contra Spectre" (Spectre - 2015);

Melhor mixagem de som:
- "Mad Max - Estrada da Fúria" - Chris Jenkins, Gregg Rudloff e Ben Osmo;

Melhor edição de som:
- "Mad Max - Estrada da Fúria" - Mark A. Mangini e David White;

Melhor efeitos visuais:
- "Ex_Machina: Instinto Artificial" (Ex Machina - 2015) - Andrew Whitehurst, Paul Norris, Mark Williams Ardington e Sara Bennett;

Melhor documentário:
- "Amy" (Idem - 2015);

Melhor documentário (curta):
- "A Girl in the River: The Price of Forgiveness" (Idem - 2015);

Melhor animação (curta):
- "Bear Story" (Historia de un oso - 2014);

Melhor curta:
- "Stutterer" (Idem - 2015).


*Logo e fotos - Oscar - crédito: Divulgação (©A.M.P.A.S.®).



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