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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



01/03/2016 08h32

Pra tudo se acabar nos envelopes...
Hélio Ricardo Rainho

Findos os desfiles, todo mundo já sabe: a "justificativa de jurados" vira literatura. Leitura obrigatória para curiosos, entendidos, pesquisadores, jornalistas. A nós, comunicadores e críticos, imediatamente se cobram as análises e opiniões. Abraçamos essa "literatura das justificativas" para entendermos as notas que foram dadas. Vamos a algumas ponderações.

Foto: Reprodução

Antes de mais nada, quero dizer que as justificativas pouco ou nada esclarecem a nenhum de nós. Não quero citar nomes e nem exemplos diretos porque sei que outros textos serão enxertados desses exemplos. Serei mais genérico e abrangente: o carnaval tem muito erro, e não seria eu o ingênuo a acreditar que o erro está só na hora de abrir envelope ou ler justificativa de jurado!

Tem muita coisa que não é entendida. A nota que desqualifica é justificada, mas a nota injusta que acoberta o erro que todo mundo viu "é 10" e não se explica. O samba bom perde décimo e tem justificativa, mas o samba ruim que tira 10 não precisa ser explicado. Naquele 2004 fatídico da Aquarela Brasileira do Império Serrano injustiçada na avenida, as alegorias da escola foram duramente despontuadas frente às outras, mas seu samba único e singular foi igualado aos demais. O critério é burro, afirmo! Às vezes o jurado escreve linhas e mais linhas para apontar um defeito...e só desconta um décimo. Noutras vezes, só vê uma coisinha e tira três décimos. Teve gente reclamando do vermelho e branco do Salgueiro...como se a bandeira e o enredo não justificassem esse uso! As notas de enredo não se atêm ao tema ou ao seu desenvolvimento lógico: avaliam alegorias, fantasias, cores. Alegoria e fantasia não são outro quesito? Algum gênio da lâmpada vai dizer que elas "explicam o enredo". Mas não é nesse quesito que se julgam acabamento ou tamanho delas...será?!

No Grupo Especial, parece pecado tirar mais de dois décimos numa nota. Na Série A, tiram quantos décimos bem entendem. De umas. A outras..."10", "10", "10","10". E já que o 10 não precisa de justificativa...

Sabem por que seguiremos a cada pós-carnaval nessa lenga-lenga de questionar nota e justificativa? Porque esse modelo retrógrado de julgamento favorece a insanidade. É isso! Julgamento de papel e envelope já era! Já disse que estamos no carnaval de Matrix com um sistema de julgamento de Jurassic Park. Até chegarmos a este distante 2016, mudaram tudo na escola de samba. Sacrificaram muitas de nossas ricas tradições. Mas o julgamento é o mesmo de 1935!!! Até escrito a mão essa tralha desse julgamento é! Tudo muito cafona e retrógrado. Quem se beneficia disso?

O jurado talvez não seja o vilão da história. Ele é escolhido, laureado...eleito! É pago pra fazer o que faz. O que o leva a crer que está fazendo bem. Sobretudo quando o patrão não o adverte, não o questiona...e não o demite. Tem jurado aí fazendo a mesma coisa todo ano, de contrato renovado e rindo pra todos nós. A culpa seria mesmo dele? Será que ele ameaça alguém pra estar na função e por isso tem cadeira cativa? Ou será que ele agrada alguém ou a si mesmo - como nas gravações reveladas este ano, onde um deles acabou suspenso por causa da denúncia, mas abriu precedente pra gente perguntar: quantos dos outros poderiam estar no mesmo raciocínio, livres para atuarem equivocadamente, sem serem denunciados?

Considero esse esquema de julgamento, apuração e justificativas falho. Uma baixa literatura, uma matemática equivocada.

E antes que alguém me pergunte: "ô sabichão, e qual seria a melhor forma de julgar, então?"...eu não diria! Primeiro porque não é uma bula de remédio que diagnostica uma doença. Segundo porque ninguém nunca procurou os críticos para saber se podiam ou deveriam ter alterado tantas coisas no carnaval, e mesmo assim alteraram: andamento de samba-enredo, aceleração de bateria, fantasia de destaque em cima de passista, imposição de paradinha em todas as baterias, eliminação da escola que sobe no desfile das campeãs...que mais?!

Independente de ternos ou não termos o novo modelo de julgamento, precisamos admitir que o atual é retrógrado, decadente, falido. As notas de mestre-sala e porta-bandeira, por exemplo, chegam a ser constrangedoras. Nesse quesito eu vou dar exemplo: como pode o casal da Vila Isabel ter arrebatado a avenida e os principais prêmios diante de todo mundo e não ter agradado aos exigentes sábios, que questionaram entrosamento, "sensualidade", um deles advertindo grosseiramente o casal a não dançar individualmente?! Faltou bom senso e até educação. Um outro, julgando o casal da Tijuca, queria que eles dançassem o minueto em vez de quadrilha, na arrogância de querer ensinar ao casal a "origem histórica de sua dança". Totalmente desapropriado o discurso! Dá vergonha ler umas coisas dessas! Eles se orgulham. E têm contrato renovado.

Enfim, eu acredito que é hora de se discutir esse formato de análise de desfiles que hoje vigora na avenida. Caso contrário, a literatura das justificativas só vai comprovar que tem mais Gloria Pires no samba do que na entrega do Oscar.

Tá feio, muito feio. E não combina com a grandeza da festa essa pequeneza de envelope de carta, texto escrito a mão...e justificativa maluca que ninguém mais tem paciência pra engolir!

Chega de envelopes de papel! O de há fumaça, há fogo! É hora de acabar com esse retrocesso!

Facebook: Hélio Ricardo Rainho
Twitter/Instagram @hrainho


Comentários
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    04/03/2016 16:03:53Almir Da Silva LimaMembro SRZD desde 21/11/2014

    Urge ser mudado o sistema de avaliação dos julgadores dos desfiles oficiais das escolas de samba em todos os Grupos e ou/Séries do Carnaval Carioca. É preciso desprivatizar tornando 100% estatal o Carnaval das escolas de samba realizado pelas ligas, LIESA (GE grupo especial) e dos grupos de acesso/Séries A (LIERJ), B (LIESB) e C, D, E (ACSN Associação Cultural Samba é Nosso). A prefeitura carioca através de sua empresa pública (Riotur) tem que assumir a concepção, a organização e a gestão. Às citadas ligas por se tratar de instituições privadas do interesse público/comunitário cabe o papel, conforme se revelam até agora, enxutos, profissionalizados e eficientes órgãos para consulta, apoio principalmente fiscalização dos bilionários gastos. Quanto ao sistema de avaliação dos julgadores, isto é, as notas inclusas as máximas e suas respectivas justificativas têm que passar a ser informatizado e simultâneo. Ou seja, na hora da leitura das notas as justificativas têm que ser passadas à imprensa. Tal exigência de transparência total por parte das ligas, obviamente deve ser precedida pelas escolas de samba em relação às disputas em quadra para definição do samba-enredo oficial. Isto é, a partir da fase eliminatória até a final, na hora do anúncio dos sambas concorrentes eliminados, dos não-vencedores e do que se sagrar ´hino´ oficial, suas justificativas têm que ser entregues à imprensa. As direções das ligas têm que ser mudadas nas respectivas eleições, sendo que a da LIESA ocorrerá em meados de 2018. Já nas eleições municipais em outubro/2016 urge eleger o maior número possível de vereadores afinados com tais ideias, sobretudo o prefeito carioca cuja esperança recairá novamente em um deputado estadual do PSOL. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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    04/03/2016 16:03:50Almir Da Silva LimaMembro SRZD desde 21/11/2014

    Urge ser mudado o sistema de avaliação dos julgadores dos desfiles oficiais das escolas de samba em todos os Grupos e ou/Séries do Carnaval Carioca. É preciso desprivatizar tornando 100% estatal o Carnaval das escolas de samba realizado pelas ligas, LIESA (GE grupo especial) e dos grupos de acesso/Séries A (LIERJ), B (LIESB) e C, D, E (ACSN Associação Cultural Samba é Nosso). A prefeitura carioca através de sua empresa pública (Riotur) tem que assumir a concepção, a organização e a gestão. Às citadas ligas por se tratar de instituições privadas do interesse público/comunitário cabe o papel, conforme se revelam até agora, enxutos, profissionalizados e eficientes órgãos para consulta, apoio principalmente fiscalização dos bilionários gastos. Quanto ao sistema de avaliação dos julgadores, isto é, as notas inclusas as máximas e suas respectivas justificativas têm que passar a ser informatizado e simultâneo. Ou seja, na hora da leitura das notas as justificativas têm que ser passadas à imprensa. Tal exigência de transparência total por parte das ligas, obviamente deve ser precedida pelas escolas de samba em relação às disputas em quadra para definição do samba-enredo oficial. Isto é, a partir da fase eliminatória até a final, na hora do anúncio dos sambas concorrentes eliminados, dos não-vencedores e do que se sagrar ´hino´ oficial, suas justificativas têm que ser entregues à imprensa. As direções das ligas têm que ser mudadas nas respectivas eleições, sendo que a da LIESA ocorrerá em meados de 2018. Já nas eleições municipais em outubro/2016 urge eleger o maior número possível de vereadores afinados com tais ideias, sobretudo o prefeito carioca cuja esperança recairá novamente em um deputado estadual do PSOL. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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    02/03/2016 14:57:32Edivaldo Florentino de OliveiraMembro SRZD desde 02/03/2016

    Muito bem lembrado Hélio! Deveria também ter justificativa para a tal nota 10, que para mim é excelência, já que se justifica as notas subtraídas de 10. A meu ver se assim fosse teríamos muito poucas notas 10 e diminuiria um pouco as reclamações. Então se estava excelente, diga o porquê estava? Abs Hélio e parabéns pela crônica.

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