SRZD



Cláudio Francioni

Cláudio Francioni

MÚSICA. Carioca, apaixonado por música. Em relação ao assunto, estuda, pesquisa e bisbilhota tudo que está ao seu alcance. Foi professor da Oficina de Ritmos do Núcleo de Cultura Popular da UERJ, diretor de bateria e é músico amador, já tendo participado de diversas bandas tocando contrabaixo, percussão ou cantando.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



01/03/2016 13h49

Os 50 anos de 'Os Afro-Sambas'
Cláudio Francioni

Apesar de ter completado 50 anos de seu lançamento há pouco tempo, o clássico disco da dupla Baden/Vinícius começou a nascer bem antes de 1966. Em uma viagem à Bahia no início da década de 60, Baden Powell foi apresentado à cultura local pelo compositor Carlos Coqueijo. Frequentou terreiros, rodas de capoeira e voltou ao Rio encantado com a efervescência cultural baiana. Na mesma época, o violonista estudava canto gregoriano com o maestro Moacyr Santos e, misturando todas estas influências, começou a compor obras baseadas na temática vivenciada em sua viagem.

Vinícius andava encantado com o disco 'Sambas de Roda e Candomblés da Bahia', do mesmo Coqueijo, e entre 1962 e 1965, compôs com Baden as canções que viriam a formar um dos álbuns mais emblemáticos da música nacional. As oito canções misturam a impecável técnica de Baden com as percussões e cantos que transportam a atmosfera do candomblé baiano para o berço da bossa nova. Inicialmente, o projeto não levava o nome de 'Afro Sambas'. O título provavelmente teria sido inspirado em 'Afro-Bossa', álbum que Duke Ellington havia lançado em 1963.

Foto: ReproduçãoFoto: Reprodução

Foi no final de 1965 que Roberto Quartin, dono da gravadora Forma, abraçou a ideia levada por Vinícius. Sob o comando do maestro Guerra Peixe, o álbum foi gravado em apenas quatro dias no início de 1966. A rusticidade sonora das canções foi proposital, seguindo a proposta inicial do maestro para que fosse preservada a espontaneidade das criações da dupla. O objetivo era que o disco soasse como se tivesse sido gravado dentro de um terreiro. "Não nos interessava fazer um disco "bem feito" do ponto de vista artesanal, mas sim espontâneo, buscando uma transmissão simples do queriam nossos sambas dizer", declara o próprio Vinícius em um longo texto na contra-capa do disco.

A verdade é que, para ouvidos acostumados com gravações de épocas posteriores, a sonoridade é bem estranha e chega a incomodar em vários momentos. Dos vocais que ouvimos nas canções, apenas a cantora Dulce Nunes e as meninas do Quarteto em Cy eram profissionais do ramo. O resto das vozes foram gravadas pelo próprio Poetinha e por amigos que pouco tinham a ver com o assunto, incluindo a novata atriz Betty Faria (!!!), que divide os vocais de 'Canto de Ossanha' com Vinícius.

Apesar de ser criticado, inclusive por Baden Powell que declarou na época não ter gostado da qualidade da gravação, o disco se tornou um clássico, gerando uma série de regravações e releituras de suas canções. O violonista se tornou evangélico na década de 80 e passou a não mais executar as suas composições que possuíssem citações diretas às religiões de origem africana. Porém, em 1990, Baden regravou o disco com o Quarteto em Cy, incluindo três faixas ('Abertura', 'Labareda' e 'Variações Sobre Berimbau'), para uma campanha promocional de um banco.

'Canto de Ossanha' - Baden Powell e Vinícius de Moraes


Comentários
Comentar

Isso evita spams e mensagens automáticas.