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Cláudio Francioni

Cláudio Francioni

MÚSICA. Carioca, apaixonado por música. Em relação ao assunto, estuda, pesquisa e bisbilhota tudo que está ao seu alcance. Foi professor da Oficina de Ritmos do Núcleo de Cultura Popular da UERJ, diretor de bateria e é músico amador, já tendo participado de diversas bandas tocando contrabaixo, percussão ou cantando.

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03/03/2016 10h47

Mamonas Assassinas e suas divertidas influências
Cláudio Francioni

Resolvi subir este post somente hoje porque, apesar de ser oficialmente o dia 2 de março de 1996 a data do acidente que vitimou a banda, foi na manhã do dia 3 que o país acordou sob estado de choque. Não há maneiras de esquecer aquele domingo chuvoso, uma espécie de déjà-vu do sombrio 1º de maio que entrou para a história dois anos antes.

Porém, não pretendo aqui registrar a fugaz trajetória dos meninos de Guarulhos em forma de homenagem, assunto já exaustivamente explorado. Quero, sim, reviver em forma de texto o meu prazer em ouvir o único disco da banda enquanto vivos, erroneamente colocado na "prateleira" do gênero infantil. De infantil, o trabalho dos Mamonas não tinha nada. Ou alguém nunca parou pra pensar que temáticas como sexo grupal, traição ou uso de palavrões não são exatamente o que um pai deseja que seu pequeno filho ouça? A verdade é que as crianças se identificavam com as fantasias e com as brincadeiras da banda em suas aparições e, quando se percebeu do que se tratava, era tarde demais.

Foto: ReproduçãoNas 14 faixas de um álbum extremamente cuidadoso em sua gravação e mixagem, o que mais me encantava era a infindável lista de influências que a banda desenrolava em suas debochadas composições. Certa vez em uma entrevista, Dinho declarou que todas as citações eram homenagens aos artistas que eles ouviram durante toda a vida. Há coisas escancaradas a quaisquer ouvidos, como 'Crocodile Rock' de Elton John em 'Pelados em Santos', 'Should I Stay or Should I Go' do Clash em 'Chopis Centis' ou 'Tom Sawyer' do Rush em 'Bois Don't Cry' (título que brinca com o sucesso do The Cure). Em outros casos, um pouco mais escondidas, como o final de 'Mundo Animal', onde repetem um trecho de 'Toda Forma de Amor', de Lulu Santos.

Mas a diversão de quem ouvia a bolacha era ir além da obviedade. A banda não se limitava a incluir trechos instrumentais de outras canções. Explorava também toda a versatilidade da boa voz de Dinho com imitações de trejeitos vocais propositais, como Eduardo Dussek em 'Robocop Gay', onde incluíram algumas rimas que citavam quase que ocultamente a canção 'Barrados no Baile' (plástico, elástico, ginástica, bombástica/plástico, cilíndrico, cínico, místico, cirúrgico). Ou em 'Uma Arlinda Mulher', onde o cantor emula Belchior, além de copiar e colar a chamada da guitarra distorcida de 'Creep' do Radiohead, antes do refrão. Em 'Vira-Vira', primeiro sucesso do quinteto, é Roberto Leal quem incorpora no vocalista.

'Lá vem o Alemão' é uma faixa dedicada ao deboche respeitoso com o pagode mauriçola, terrível moda da época. A primeira parte é "cantada" por Luis Carlos do Raça Negra, e o refrão, por Netinho do Negritude Júnior. Em 'Cabeça de Bagre', a clara homenagem aos Titãs está no estilo da letra e na forma falada de cantar ("Loucura/insensatez/estado inevitável/embalagem de iogurte inviolável"), além dos vocais repetidos no fim de algumas palavras  ("Quando repeti a quinta série/tirava E - E, D - DÊ, de vez em quando C - CÊ").  

O peso da guitarra do ótimo Bento Hinoto e o vocal gutural de Dinho, além do título da faixa, não deixam dúvidas da homenagem em 'Débil Metal'. O álbum 'Chaos A.D.', dos mineiros do Sepultura estava estourado pelo mundo e não poderia faltar a homenagem, embora outras bandas também estivessem credenciadas a levar o crédito, como o Metallica, que ainda curtia o sucesso de seu 'Black Album' de 1991. Voltando à já citada 'Bois Don't Cry', Dinho pula do vocal brega melodramático da primeira parte e entra no refrão brincando com as bandas de metal melódico que faziam sucesso na época, acompanhando a fantástica mudança na levada instrumental. Show de bom gosto e inventividade.

Obviamente, há outras citações que não incluí no texto, ou por falha de memória, ou de ouvido. Mas fica aqui a minha homenagem a uma rapaziada criativa e talentosa que o cruel destino nos levou, mas que deixaram uma pequena obra a ser curtida para todo o sempre.

 


Comentários
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    04/03/2016 07:00:18Cláudio FrancioniAnônimo

    Bom dia, Roncatti. Obrigado pelo comentário. Sua discordância é totalmente compreensível, porém, ainda acredito que a banda executava muito bem o que se propunha a fazer. Rock galhofa, deboche, seguindo a onda que o Ultraje à Rigor havia lançado por aqui cerca de dez anos antes. Era isso que suas letras, desprovidas de qualquer compromisso poético, pretendiam. Jamais compararia Mamonas a nomes relevantes da nossa música, mas o que eles deixaram como obra em tão pouco tempo, dificilmente será igualado por alguém que tente fazer algo na mesma linha. Grande abraço.

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    03/03/2016 20:29:51RoncattiAnônimo

    Claudio, todos tem o direito de emitir opinioes, pois vivemos em um país livre, apesar de o PT ter tentado tirar isto de nós também... Li atentamente sua matéria e, por favor, me permita concordar com voce que este grupo não deveria nunca ter sido promovido ou classificado para as crianças brasileiras. Mas também me permita discordar quanto a qualidade musical destes jovens. O vocalista certamente tinha muita desenvoltura para se comunicar e uma veia de humor que fazia o grupo passar uma imagem alegre. Porem com todo o respeito as famílias dos jovens, musicalmente o produto final era muito ruim, com letras horriveis e assim como todo modismo que aparece no país, não tinha embasamento cultural para seguir em frente. Mesmo nao gostando do que eles produziam foi terrivel ver as vidas destes jovens serem interrompidas de maneira tão drástica, mas "obra a ser curtida para o todo o sempre" é completamente fora da realidade!

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