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Cláudio Francioni

Cláudio Francioni

MÚSICA. Carioca, apaixonado por música. Em relação ao assunto, estuda, pesquisa e bisbilhota tudo que está ao seu alcance. Foi professor da Oficina de Ritmos do Núcleo de Cultura Popular da UERJ, diretor de bateria e é músico amador, já tendo participado de diversas bandas tocando contrabaixo, percussão ou cantando.

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07/03/2016 09h48

Série 50 anos: Chico Buarque
Ivan Souza

Amanhece no Rio de Janeiro. Um homem se levanta, toma café, lê o jornal e sai para uma caminhada. Ele cumprimenta o porteiro e observa algumas pessoas pelo caminho. Alguns o olham com certa curiosidade, algo que ainda hoje, com 71 anos o incomoda. Outros veem apenas mais um transeunte, desses que se vê todo dia andando pelo Leblon. Assim Chico Buarque leva a vida. Uma pessoa extraordinária tentando ser normal, direito que ele perdeu em 1966 com o lançamento do histórico álbum "Chico Buarque de Hollanda".

                     Foto: ReproduçãoFoto: Reprodução

Chico teve infância, adolescência e juventude com privilégios não só financeiros como também intelectuais. Filho de Sérgio Buarque de Hollanda, grande historiador e jornalista, e Maria Amélia Cesário Alvim, pianista e pintora, Chico morou no Rio de Janeiro, São Paulo e Roma, onde além de italiano, aprendeu a falar inglês. Chegou a cursar Arquitetura na USP e sempre se viu em meio a intelectuais e artistas. Contudo, mesmo com o acesso à nata da sociedade, Chico sempre se interessou pelo cidadão comum, pelo trabalhador brasileiro, o malandro sambista, a dona de casa e quem mais fizesse parte de seu cotidiano.

Passou a produzir, desde textos, passando por poemas até canções. Uma delas o lançou à oportunidade de gravar seu primeiro álbum. "A Banda" foi a campeã (empatada com "Disparada" de Geraldo Vandré) do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record. A gravadora RGE quis aproveitar a popularidade de Chico e o disco homônimo foi então gravado.

O álbum tem 12 faixas, todas compostas por Chico, todas interpretadas por Chico e praticamente todas em ritmo de samba. Alguns poderiam dizer que há apropriação cultural de um estilo que teve origem nas camadas mais pobres da população brasileira, mas Chico é de todos. Consegue falar da realidade com a simplicidade que lhe é peculiar.

"A Rita levou meu sorriso
No Sorriso dela
Meu assunto
Levou junto com ela
O que me é de direito
E arrancou-me do peito
E tem mais
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de São Francisco
E um bom disco de Noel"

Não há como não se identificar com Chico. Ele não usa palavras rebuscadas, usa o diálogo do dia a dia e escreve com a simplicidade que um trabalhador comum se expressaria em uma mesa de bar. Chico não é conhecido pelo talento vocal, mas é o cantor preferido de muitos. Cantor preferido mesmo, diferenciando do compositor extraordinário que é. Como alguém com uma voz tão "pequena" se torna o preferido de tantos? Justamente por ter a voz que tantos teriam ao cantar seus amores e frustrações. Seus olhos azuis não o diferenciam da maioria brasileira castanha quando ele diz que estava à toa na vida vendo a banda passar tocando coisas de amor.

O berço de ouro que Chico nasceu não o impede de jogar futebol toda semana com seus amigos, como faria um malandro sambista qualquer. O povo ama Chico Buarque porque Chico Buarque ama o povo. Este álbum é o início desse casamento tão feliz e duradouro. O Chico Buarque comum, que de maneira tão comum conseguiu descrever o dia a dia do povo, não consegue ser comum. É gênio da genialidade mais complexa, a da simplicidade.

 

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