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Cláudio Francioni

Cláudio Francioni

MÚSICA. Carioca, apaixonado por música. Em relação ao assunto, estuda, pesquisa e bisbilhota tudo que está ao seu alcance. Foi professor da Oficina de Ritmos do Núcleo de Cultura Popular da UERJ, diretor de bateria e é músico amador, já tendo participado de diversas bandas tocando contrabaixo, percussão ou cantando.

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17/03/2016 07h39

Série 50 anos: 'Blonde on Blonde'
Pedro de Freitas

Com Bob Dylan, fhegamos ao fim da série que homenageia meio século de vida de grandes álbuns. Confira os outros posts da série:

Revolver (Beatles)
Os Afro Sambas (Vinícius de Moraes e Baden Powell)
Pet Sounds (Beach Boys)
Chico Buarque (Chico Buarque de Holanda)

 

No início era o folk.

Trovadores existem há séculos. A figura do artista empunhando um instrumento de cordas e desfiando poemas musicados existia já na época de Shakespeare, e mesmo muito antes. Entretanto, nos anos sessenta, com a Segunda Guerra Mundial ainda bem recente, e com a proximidade de um conflito no Vietnam que poderia vir a ser o início de uma terceira guerra mundial, desta vez envolvendo potencias nucleares, o trovador e a folk music ganharam uma nova dimensão. Fortemente politizados, embebidos na cultura beat, nos movimentos pelos direitos civis e no pacifismo, os trovadores modernos tentaram mudar o mundo tendo como arma um violão. Entre eles destacava-se Robert Zimmerman, rebatizado de Bob Dylan, em homenagem ao seu poeta preferido. E Dylan antes de fazer música já fazia poesia, o que evidenciavam as letras caudalosas e extensas que eram embaladas pela música folk em suas composições. Em pouco tempo já havia composto um hino pacifista ("Blowin´ In The Wind"), e conquistado uma legião de fãs, alguns famosos como John Lennon, por exemplo.

Mas seres humanos são complicados, mesmo aqueles que querem amor e paz mundial. Em 1965, Bob Dylan ousou empunhar uma guitarra elétrica para gravar "Like a Rolling Stone", e se fez acompanhar de uma banda de rock tão boa que um tempo depois tomou vida própria com o nome marrento e desafiador de "The Band". Comprou uma briga com seus fãs. Foi o suficiente para ser rotulado de "traidor do folk" e ser sistematicamente vaiado e hostilizado nos shows. Em resposta, Dylan dobrou a aposta com aquele que até hoje é considerado o seu melhor disco: "Blonde On Blonde", um dos trabalhos mais icônicos da história da música pop.

    Foto: ReproduçãoFoto: Reprodução

Na época dos "bolachões" em vinil, "Blonde On Blonde" era um álbum duplo.  A abertura já era um desafio aos puristas: "Rainy Day Women #12 & 35" parece uma música daquelas bandas típicas de Nova Orleans.  Em clima caótico, Dylan canta o polêmico refrão "Everybody must get stoned", uma suposta apologia ao uso de drogas. Após o impacto inicial, Dylan diminui o ritmo com duas baladas, "Pledging My Time" e a belíssima "Visions Of Johanna". Mas "Blonde On Blonde" segue, eclético e inclassificável. Tem doses generosas de rock?n?roll rasgado como em "Leopard-Skin Pill-Box Hat" e "Obviously 5 Believers". Mas tem também pérolas blues, como "Most Likely You Go Your Way And I'll Go Mine" e "Absolutely Sweet Marie"; influências da música country também permeiam todo o disco. A obra prima se encerra com o épico folk "Sad Eyed Lady of the Lowlands", que na época ocupava um lado inteiro do disco de vinil. Por sobre toda a usina de força e criatividade da música de "Blonde On Blonde", entretanto, reina soberana a poesia sem a qual Dylan não seria Dylan. É simplesmente impossível curtir 100% "Blonde On Blonde" sem apreciar a caneta afiada do menestrel.

Os anos sessenta foram marcantes em termos de produção cultural. Em 66, já havíamos tido trabalhos superlativos de Beatles, Beach Boys e Rolling Stones. No ano seguinte, viriam os trabalhos de estreia de uma banda com nome composto por dois bluesmen, que criaria uma nova vertente do rock (adivinha quem?), e de um guitarrista/bruxo/extraterrestre que transformaria todos os outros guitarristas da época em dinossauros.  Mas mesmo assim, o genial "Blonde On Blonde" está entre os gigantes.  Permanece como o melhor momento de Dylan, um cantor/compositor que segue realizando trabalhos relevantes até hoje, e como um dos maiores monumentos da música popular em todos os tempos.

Bob Dylan - Just Like a Woman 


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