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Cláudio Francioni

Cláudio Francioni

MÚSICA. Carioca, apaixonado por música. Em relação ao assunto, estuda, pesquisa e bisbilhota tudo que está ao seu alcance. Foi professor da Oficina de Ritmos do Núcleo de Cultura Popular da UERJ, diretor de bateria e é músico amador, já tendo participado de diversas bandas tocando contrabaixo, percussão ou cantando.

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18/03/2016 14h53

Iron Maiden abre seu Livro das Almas
Cláudio Francioni

Ainda não foi desta vez que Eddie se vestiu de malandro batuqueiro. Em meio a um panorama conturbado na política nacional, o Iron Maiden subiu ao palco na noite de ontem para apresentar seu novo álbum "The Book of Souls" e celebrar uma relação de 31 anos, entre idas e vindas, com o público carioca. Em um dia marcado por pedidos para que as pessoas vestissem preto como forma de demonstrar insatisfação com o governo, o povo atendeu às reivindicações, tirou do armário o uniforme básico do metaleiro e lotou a HSBC Arena, apesar da enorme dificuldade de acesso ao local, agravada pela chuva e por outros dois shows que aconteciam no bairro, um deles do Simply Red.

Pouca gente viu a banda The Raven Age, do filho de Steve Harris, abrir a noite antes das 19h. Quando o Anthrax subiu ao palco, a casa já estava com, pelo menos, metade de sua lotação. Como só consegui chegar pouco após o meio do show, cabe apenas a declaração de que foi o segundo show mais esporrento em que já estive presente, perdendo apenas para o...Anthrax no Metropolitan, em 2005, com o PA em um volume que atrapalha qualquer percepção auditiva.

Foto: Cláudio Francioni

A estrela principal da noite abriu sua apresentação de uma forma pra lá de estranha, com a abertura "Doctor, Doctor", do UFO, sendo tocada com a casa ainda acesa e toda a estrutura cenográfica do palco coberta por panos. Ao fim da introdução, o staff retira os panos e a banda ataca com "If Eternity Should Fail", faixa que abre o bom disco lançado no ano passado. Bruce aparece de capuz preto manipulando um caldeirão na parte alta do palco, ladeado por várias tochas. A temática do show, remetendo às extintas civilizações como Maias e Astecas, está presente em todos os cantos, incluindo o pedestal do vocalista.

O curto setlist traz seis canções do novo álbum, fato que obrigou a banda a deixar de fora alguns de seus clássicos e, inevitavelmente, criar alguns (poucos) momentos de baixa durante a apresentação. Das cinco primeiras executadas, apenas "Children of the Damned", quebrava a sequência das novas canções, embora a recepção do público a estas tenha sido excelente. A euforia deu as caras pela primeira vez na dobradinha "The Trooper" e "Powerslave", a primeira com Bruce empunhando a bandeira britânica e vestindo novamente a réplica da farda usada na Guerra da Crimeia, assim como ocorria na turnê anterior, e a segunda com uma máscara de telecatch mexicano.

Foto: Cláudio Francioni

O cantor, diga-se de passagem, merecia um post à parte, tamanha vitalidade e a voz ainda inabalável, apesar de seus 58 anos e da recém recuperação de um câncer. Monstro! Enquanto Bruce corria pelo palco, Adrian Smith, Steve Harris e Dave Murray se continham em um lado ou outro do palco enquanto Jannick Gers desfilava seu repertório de presepadas, com dancinhas e malabarismos com o instrumento. Lá atrás, Nicko McBrain e sua indefectível boca escancarada comandava a pulsação da Donzela como se tivesse entrado na banda semana passada. Um menino! Em um determinado momento, uma bandeira brasileira foi arremessada ao palco. Bruce a retirou do chão e declarou que tem visto com frequência esta bandeira na TV e que espera que as pessoas más se f*.

No fundo do palco, ao invés de costumeiros telões, painéis se alternavam, ora com uma imagem da Pirâmide de Teotihuacán, ora com a figura de Eddie encarnando personagens das civilizações pré-colombianas. E foi na faixa homônima ao disco que ela apareceu em carne e osso (ou látex). Com um machado na mão, ameaçou cortar a cabeça de Jannick, dançou com Steve, mas no fim teve seu coração arrancado por Bruce e jogado para a galera do gargarejo. 

As porradas "Hallowed be thy Name", "Fear of the Dark" e "Iron Maiden" encerraram a primeira parte, com uma gigantesca cabeça de Eddie aparecendo atrás de Nicko. No bis, "The Number of the Beast" contou com a participação especial de ninguém menos do que o próprio homenageado da canção, que apareceu em forma de boneco inflável do lado direito do palco. Em meio às explosões nas tochas ao lado do boneco, uma delas se recusava a apagar e exigiu um bom esforço de um membro do staff, que deve ter gasto um extintor inteiro na missão. Vai! Mexe com ele!

Foto: Cláudio Francioni

Fechando a noite, a dispensável e obscura "Blood Brothers" do igualmente insosso álbum "Brave New World" e a ótima, porém inesperada, "Wasted Years". Poucas bandas podem se dar ao luxo de deixar alguns de seus maiores hinos de fora de um repertório e, mesmo assim, proporcionar um bom show. O Iron é uma delas. E acredito fortemente que todos os seres do mundo, humanos ou não, vivos ou mortos, deveriam um dia na vida (ou na morte) passar pela experiência de assisti-los ao vivo.

If Eternity Should Fail
Speed of Light
Children of the Damned
Tears of a Clown
Red and the Black
The Trooper
Powerslave
Death or Glory
The Book of Souls
Hallowed Be Thy Name
Fear of the Dark
Iron Maiden

BIS:
The Number of the Beast
Blood Brothers
Wasted Years


Comentários
  • Avatar
    18/03/2016 18:22:30MAURO CAMANHO BASTOS BAULIESAnônimo

    Obrigado por fazer meu arrependimento em não ter ido ser menor. Sua descrição do evento nos faz viajar, quase que dentro do Ed Force One, cavalgando com o baixo de Stieve e o pedal duplo (só que simples) de Nicko, Animal!! Agora poderia deixar a parte em que descreve a performance em The trooper e Wasted Years... Acho essas canções sensacionais ao vivo e o arrependimento voltou ao ponto inicial... Terminando meu comentário e abrindo meu arquivo com as canções em 3...2...1..

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