SRZD



Cláudio Francioni

Cláudio Francioni

MÚSICA. Carioca, apaixonado por música. Em relação ao assunto, estuda, pesquisa e bisbilhota tudo que está ao seu alcance. Foi professor da Oficina de Ritmos do Núcleo de Cultura Popular da UERJ, diretor de bateria e é músico amador, já tendo participado de diversas bandas tocando contrabaixo, percussão ou cantando.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



01/04/2016 19h38

Série 40 anos: A incrível história de Fela Kuti contra os Zumbis
Pedro de Freitas

World Music é um rótulo musical equivocado, que é utilizado para definir todo o tipo de música que venha da África, da Ásia e da América que existe ao sul do Rio Grande. O rótulo resulta de um predomínio da cultura musical americana e inglesa sobre os demais países do Globo ao longo do século XX, e reúne indiscriminadamente toda a música que vem do chamado Terceiro Mundo. Difícil se destacar em meio a esta geleia geral.

Os artistas da bossa nova, por exemplo,  por conta de sua aproximação com o jazz. Dois artistas conseguiram, graças a doses enormes de talento, carisma e polêmica, se destacar neste caldeirão. Um é conhecidíssimo: Bob Marley. O outro nome pode soar estranho a muita gente, mas não é menos brilhante. Fela Kuti, assim como Marley, praticamente criou um gênero musical (o Afrobeat), e sua obra é única no universo musical. O ano de 2016 assinala os 40 anos de sua obra mais marcante, o seminal "Zombie", que possui uma história digna de filme.

Convém uma breve apresentação para contextualizar: Fela Kuti foi o maior artista da história da Nigéria. Morreu de Aids, em 1997, e um cortejo de um milhão de pessoas seguiu seu corpo pelas ruas de Lagos, capital do país. Fela teve formação acadêmica em música em Londres, e em seguida foi para os Estados Unidos. Lá, conheceu os movimentos sociais em defesa da igualdade racial e dos direitos civis, e decidiu retornar à Nigéria. Encontrou um país destroçado por guerras civis, por uma cruel ditadura e corrupção endêmica. Utilizando sua música como arma contra o regime político nigeriano, passou a ser sistematicamente perseguido.

Muitos perguntam por que Fela Kuti não se tornou tão conhecido como Bob Marley. Um motivo talvez seja seu gosto por músicas quilométricas, que muitas vezes ocupavam um disco inteiro, com longos trechos instrumentais, e vocalizações tribais. O outro é que Fela passou vários períodos de sua vida preso ou impedido de sair do país. Muitos somente conseguiram assistir sua mistura única de jazz, funk, soul e ritmos africanos no Shrine, clube mitológico onde ele tocava, em Lagos. Artistas como Paul McCartney, Steve Wonder, James Brown e muitos outros iam até a Nigéria só para assisti-lo no Shrine.

Foto: ReproduçãoNão é preciso dizer que a música de Fela Kuti e sua crescente popularidade incomodavam muito a ditadura nigeriana. Fela provocava: declarou a independência do bairro-comunidade onde vivia: a "República de Kalakuta". Aderiu a costumes ancestrais para enfrentar a imposição pelo governo de costumes ocidentais; o maior símbolo deste confronto foi seu casamento com 24 esposas. Com tanta fervura, faltava muito pouco para entornar o caldo. E aí veio "Zombie", lançado em 1976 na África, e no resto do mundo no ano seguinte.

Apenas duas músicas ocupavam o disco: "Zombie" e "Mr Follow Follow". Musicalmente era Fela no auge, comandando sua afiada banda África 70, onde se destacava o super baterista Tony Allen. Camadas e camadas de ritmo contagiante e irresistível. Tudo isso a serviço de uma mensagem incendiária: a letra de "Zombie" satirizava e provocava diretamente os soldados do exército nigeriano: 

"Zombie no go go, unless you tell am to go (Zombie)
Zombie no go stop, unless you tell am to stop (Zombie)
Zombie no go turn, unless you tell am to turn (Zombie)
Zombie no go think, unless you tell am to think (Zombie)"

E assim ia a letra, em uma sátira feroz, retratando soldados como zumbis descerebrados obedecendo ordens patéticas. A música se espalhou como um vírus, não só na Nigéria, mas em toda África. Em pouco tempo, nenhum soldado nigeriano podia caminhar pelas ruas sem ser ridicularizado pela população com a letra impagável da música.

Em uma ditadura africana, algo assim não fica barato. E não ficou. A reação absurda dos militares nigerianos veio em fevereiro de 1977, com a invasão da "República de Kalakuta" por centenas de soldados.

Foi um dia terrível. A população da comunidade foi agredida, torturada, e mutilada pelos soldados. A casas foram destruídas. A de Fela foi incendiada. O famoso clube Shrine, aniquilado. Fela Kuti quase sucumbiu, com várias fraturas pelo corpo. Sua mãe não teve a mesma sorte, e morreu em decorrência dos ferimentos que sofreu. A imprensa foi proibida de chegar ao local. Um inquérito de fachada atribuiu a agressão a "soldados desconhecidos". Fela teve que deixar o país.

Se abrigou em Gana, o país vizinho. Lá prosseguiu fazendo shows, que invariavelmente terminavam em tumulto e quebra-quebra após a execução da explosiva "Zombie". Acabou sendo "convidado" a deixar Gana, e se abrigou junto com sua banda na distante Alemanha.

"Zombie" hoje é uma referência. Brilhante musicalmente, se eternizou pela polêmica. Permanece sendo um dos poucos trabalhos musicais que se têm notícia a provocar tal reação em um país dominado por um regime de exceção. Não deixa de ser irônico que, quase vinte anos depois de sua morte, após a vida de Fela Kuti ter virado musical na Broadway, o atual governo nigeriano tenha resolvido bancar um museu inteiro em sua homenagem.

 

Fela Kuti - Zombie  


Comentários
Comentar

Isso evita spams e mensagens automáticas.