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Carlos Nobre

Carlos Nobre

CULTURA AFROBRASILEIRA. Carlos Nobre é jornalista, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. É mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido de Mendes. Autor de oito livros sobre discriminação racial, segurança pública e cultura afrobrasileira. Foi autor e coordenador da Coleção de Livros Personalidades Negras da Editora Garamond(RJ).

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08/04/2016 12h20

Dois grandes congressos afro
Carlos Nobre

Nos anos 1930, época de grandes conflitos políticos-ideológicos envolvendo as classes sociais/etnias, alinhados a intelectuais brancos dedicados a causa social, intelectuais negros organizaram dois congressos sobre a condição afro-brasileira que se tornaram marcos na história das ciências humanas no Brasil.

Esses congressos também entraram para nossa história como os pioneiros ecos de discussão do racismo, das desigualdades e da subordinação das culturas negras de forma em geral.

Por conseguinte, esses intelectuais afro estavam articulados com instâncias de pensamento e influência na sociedade brasileira.

Assim, em 1934, foi realizado, em Recife, I Congresso Afro-Brasileiro organizado pelo antropólogo Gilberto Freyre. Ele foi auxiliado na realização do evento pelo psiquiatra Ulysses Pernambuco e pelo poeta negro Solano Trindade, no Teatro Santa Izabel, em Recife.

Além de doutores, esse congresso juntou mães de santo, cozinheiras, negros de engenho, rainhas de maracatus, analfabetos, semianalfabetos, estudantes de medicina, psiquiatras e engenheiros, intelectuais e jornalistas do Rio de Janeiro.

Freyre conseguiu apoio para a realizá-lo devido a grande repercussão de seu livro, "Casa grande e senzala", lançado no ano anterior, ou seja, 1933, onde punha em cena como protagonista da sociedade brasileira o negro e sua cultura. Isto malgrado ter escrito que o processo das relações raciais brasileiras ter sido pautado por uma certa "democracia racial", que, com tempo, comprovou ser inverídico.

No entanto, a mescla entre estudiosos e gente pobre deu uma cor importante ao primeiro congresso afro de Recife. Segundo Jose Jorge Siqueira no livro "Entre Orfeu e Xangô: a emergência de uma nova consciência sobre a questão do negro no Brasil 1944/1968" (Pallas, RJ, 2006), a presença de pais de santo e negros pobres teria dado um novo sabor aos estudos afro-brasileiros naquela ocasião.

Assim, a importância congressual residiria no interesse que despertou em gente culta como Franz Boas, Roquette Pinto, Rudiger Bilden e Azevedo Amaral. Esses estudiosos estavam interessados na rica e complexa cultura afro-brasileira que estava incrustada na mentalidade de negros e brancos pobres Brasil afora.

O congresso de Recife também recebeu colaborações científicas de Rodolfo Garcia, Mário de Andrade, Arthur Ramos e Melville J.Herskovits e outros notáveis estudiosos brasileiros e estrangeiros. No último dia, os congressistas prestaram uma homenagem ao médico maranhense Nina Rodrigues, pioneiro dos estudos afro no Brasil, defensor da cultura yorubá. Ele, no entanto, apesar de elogiar os negros, os viam como inferiores racialmente aos brancos.

Alguns trabalhos apresentados neste congresso:
Cunha Lopes e J. Candido de Assis - o "Ensaio etno-psychiátrico sobre negros e mestiços".
Ulysses Pernambuco- "As doenças mentais dos negros de Pernambuco", onde pegou dados do Hospital de Alienados de Recife, entre 1932-1933
Abelardo Duarte - "Grupos sanguíneos da raça negra"
Ronalinho Cavalcante- "O recém-nascido branco, negro e mulato"
Alvaro Faria- "O problema da tuberculose no preto e no branco e relações de resistência racial"
Rodrigues Carvalho -"Aspectos da influência africana na formação social do Brasil".
Edison Carneiro - "Situação do negro no Brasil".

Mãe Ainha e Edison Carneiro. Fotos: Reprodução

Nesse estudo, Edison Carneiro, etnógrafo afrodescendente, constata que a experiência da democracia burguesa no Brasil provou sua total inutilidade na resolução dos problemas do país.

Outros participantes:
Miguel Barros- da Frente Negra Pelotense, no Rio Grande do Sul, por seu turno, relatou as proibições em lugares públicos (teatros, cafés, barbeiros, colégios etc) que o negro gaúcho é submetido. Também falou do lugar do pária como negro, mostrou como as elites se referem ao desdém aos intelectuais negros.

Ou ao desprezo que tem pelas jovens negras formadas, que não encontram emprego, e são obrigadas a mudar de profissão.

A viúva de Juliano Moreira apresentou também uma comunicação neste congresso. Ela disse que o marido - um notável psiquiatra negro baiano - tinha convicção que as diferenças entre os indivíduos dependiam muito mais do grau de instrução e educação de cada um, como fator mais decisivo, do que o pertencimento ao grupo étnico.

Este congresso mexeu nos setores da inteligência brasileira e principalmente com a Bahia, considerada a capital afro-brasileira.

Assim, o intelectual afrodescendente Edison Carneiro, após chegar a Salvador vindo de Recife, tem uma ideia fixa: organizar o II Congresso Afro-Brasileiro, em sua cidade, para dar a vazão a demanda por estudos étnicos que o Brasil dali para frente começa a despertar na intelectualidade estrangeira.

Realizado, em Salvador, em 1937, reuniu mais 3.000 pessoas no local do evento e nos eventos descentralizados, ou seja, nos terreiros do Gantois, no Axé Opô Afonjá e no de Joãozinho da Gomeia, segundo Siqueira.

A estratégia dos organizadores foi unir discussões e eventos festivos afro, criando uma novo diálogo entre as culturas diaspóricas.

"O congresso mesclava heterogeneidade de pessoas e instituições que seria impossível negar-lhes repercussão, tanto no meio acadêmico quanto mesmo no próprio meio popular das gentes de cor", escreve Siqueira.

O congresso teve a participação de Jorge Amado, Manuel Diegues Junior, Donald Pierson, Carmargo Guarnieri e Frutuoso Viana, além da presença de Mãe Menininha (líder religiosa do terreiro do Gantois) e Mãe Aninha ( líder do Axé Opô Afonja). Esta era considerada uma grande articuladora e intelectual popular de grande habilidade. No congresso, ela apresentou um estudo sobre o emprego das ervas no cotidiano do candomblé.

Em termos políticos/estratégicos, o congresso negro de Salvador teve mais importância do que o de Recife. Isto porque provocou desdobramentos como na criação de entidades que lutariam pela preservação dos valores de base africana, principalmente no enfrentamento da perseguição aos cultos afro pela polícia.

Nesse sentido, neste mesmo ano, foi fundada, em Salvador, a União das Seitas Afro-Brasileiras cujo objetivo era combater a intolerância religiosa e refrear os ataques dos policiais às casas de santo em Salvador.

Entre os principais participantes deste congresso se encontravam:
-Melville Herskovits com o trabalho "Deuses africanos e santos católicos nas crenças do negro do novo mundo"
-Ademar Vidal- "Costumes e práticas do negro"
-Edison Carneiro - "Uma revisão na etnografia religiosa afro-brasileira"
-Renato Mendonça - "Negro e a cultura no Brasil"
-Arthur Ramos - "Culturas negras: problemas de aculturação no Brasil"
Martiniano Bonfim- "Os ministros de Xangô"
-Amanda Nascimento - "A influência da mulher negra na educação do brasileiro"
Ao total, o congresso teve 23 comunicações.

Depois destes dois grandes congressos afro, somente na década 1950, o tema racial voltaria ser estudado com força quando foi iniciado o programa de estudos da Unesco sobre as relações raciais no Brasil. Deste programa, saíram as seguintes obras: "Raça e classe no Brasil rural", de Charles Wagley, da Universidade de Columbia(EUA), "As elites da cor", de Thales Azevedo, " O negro no Rio de Janeiro", de Luis Antonio Costa Pinto; " Relações raciais entre pretos e brancos em São Paulo", de Roger Bastide e Florestan Fernandes; "Religião e relações raciais", de René Ribeiro, e "Cor e mobilidade social", de Fernando Henrique Cardoso.

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