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Joan Amato

Joan Amato

SAÚDE ESPORTIVA. Formada em 2002 pela UERJ, iniciou a carreira como médica intensivista. Para tratar as pessoas fora do hospital, fez pós-graduação em medicina do esporte e tornou-se especialista em Nutrologia. É membro da International Society Of Sports Nutrition. Por adorar escrever, fundou o site Nutroesporte.com.

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11/04/2016 09h37

Preconceito e obesidade
Joan Amato

Apeasr do blog tratar de saúde esportiva, hoje eu quero escrever sobre um algo que realmente me incomoda: o preconceito em relação à obesidade. Não vou usar o termo "gordofobia" porque não sou uma justiceira social, mas quero abordar o preconceito em relação a uma doença. Ninguém escolhe estar obeso. A obesidade é pouquíssimo entendida e provavelmente muito mais complexa do que você imagina.

Uma criança pode estar fadada a ser obesa antes mesmo dela nascer, quando a mãe obesa teve sua expressão genética alterada nos óvulos, ou quando a mulher ficou exposta a disruptores endócrinos durante a gravidez. Isso se chama teoria da programação fetal. Além disso, os primeiros 1000 dias da vida de uma criança são um período crucial que vai dizer muito como a saúde dessa criança será afetada na vida adulta. Os hábitos dos pais também vão influenciar o comportamento dos filhos em relação à alimentação e exercício.

Foto: Reprodução de InternetA culpa é dos pais, do ventre materno? Não. Porque essas pessoas podem ser obesas e estarem presas nessa mesma rede complexa, no ciclo vicioso que os prende à obesidade. Basta muito pouco para fazer com que estas pessoas se sintam desconfortáveis, com vergonha do seu corpo e encarando os olhares alheios. Se você frequenta academia, é só perceber como uma pessoa obesa se comporta nesse ambiente. Não existe melhor lugar para ela estar, pois ali, ela está cuidando da sua saúde. Ao mesmo tempo, ao invés de sentir orgulho por ter vencido uma barreira que, infelizmente, muitos não conseguem superar, a pessoa sente como se não pertencesse àquele local, ela se sente deslocada.

É muito fácil dizer que obesidade é relaxamento, a pessoa come mais do que deve e não se exercita. Não! Quantos obesos precisam de atenção, programas de exercício e dietas factíveis que estejam ao alcance financeiro deles. Quantos vão entrar num consultório médico ou de um nutricionista e sair dali como se nenhum dos seus anseios tivesse sido compreendidos. Quantas pessoas têm um componente de compulsão alimentado por problemas emocionais tão enraizados que vão precisar de um bom acompanhamento psicológico e psiquiátrico para iniciar a digestão deles... Não, queridos, não é só comer junkfood.

Por que as pessoas falam tanta besteira? Porque não entendem. É sempre mais fácil julgar. Eu fiquei estarrecida com os comentários sobre uma mulher que perdeu mais de 200 quilos e atravessava problemas graves de auto-imagem depois do emagrecimento. "O suicídio é a melhor opção para ela, porque ficou com excesso de pele". " Odeio gente gorda, pode todo morrer". " Uma vez gorda, não tem jeito".

Quando vemos alguém com uma doença rara, nós nos solidarizamos, mesmo sem entender do que se trata. O desafio do balde de gelo (ice bucket challenge) é um excelente exemplo e fez a sociedade refletir sobre a esclerose lateral amiotrófica. Porém, a obesidade atinge muitos e cresce a cada dia. Um tema tão importante a ser debatido e, não, criticado. Algo que precisa de compreensão ao invés de escárnio. Ok, teu amigo obeso talvez seja o primeiro a contar uma piada de gordinho. Ria com ele. Aproveite e convide-o para uma caminhada. Tudo o que essas pessoas talvez queiram e não saibam pedir, é conseguir se sentir à vontade para dar o primeiro passo.

Eu tenho um caso desses na família. Fico extremamente decepcionada quando a pessoa conversa comigo e diz se sentir excluída do grupo de bike para o qual entrou. Foi necessária muita coragem, anos até a pessoa entender que precisava de uma ajuda profissional para fazer um programa de exercícios de forma regular, numa atividade que cabia no bolso e da qual ela gostava. O componente social, tão importante quanto o componente físico, está sendo construído aos poucos porque muitos dos que estão no grupo ainda atravessam olhares como se ser obeso fosse um crime. Isso é o que mais me assusta: as pessoas ditas "saudáveis", que buscam qualidade de vida, serem as primeiras a julgar quem está fazendo o mesmo, mas que está em condições diferentes. Portanto, queridos, menos importância ao número do manequim e mais amor no coração.

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