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Dicá

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CARNAVAL. Ativista negro, embaixador e cidadão samba paulistano de 2004, é compositor, batuqueiro, passista e fundador da Velha Guarda da Rosas de Ouro de Vila Brasilândia, junto com a embaixatriz do samba Maria Helena. É pesquisador cultural e estudioso da cultura popular brasileira e afrodescendente.

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04/05/2016 10h00

Enredo: reeditar ou não?
Dicá

De alguns anos para cá as escolas de samba descobriram a reedição de enredos, através de desfiles que marcaram época, com seus sambas antológicos e imortais.

Essa possibilidade de reedição surge como uma chance de reviver uma felicidade passada, ou seja, reaviva a mente daqueles que desfilaram na época, e propiciam ainda aos mais novos desfilantes a chance de contato com um passado de glória.

E talvez pode se pensar ainda na economia e praticidade em executar o desfile.

Na verdade é impossivel não criar expectativas e comparar os dois momentos, pois este aspecto sempre estará presente, e indagações, não faltam...

Arte. Foto: Arte

E ouve-se por aí: Aquele desfile foi mágico! Imortal, não dá para superar, e por aí vai. Penso que são dois momentos distintos e não é só o enredo que possibilita o sucesso, há de se pensar que serão novas pessoas, os atores de uma mesma peça.

Nas rodas de conversa sobre escolas de samba sempre há aqueles que são favoráveis e os que não são.

Que tal reeditar "Narainã", ou talvez "Os cinco bailes da história do Rio", não seria melhor "Kizomba", ou "O sonho de Candeia", da Nenê de Vila Matilde?. Que tal "O sabiá", um desfile inesquecível da roseira! Que tal "Chica da Silva", em que o mestre Pamplona e "Trinta" revolucionaram o formato dos desfiles. Teríamos dezenas para elencar...

Porem é bom lembrar que algumas reedições poderiam sofrer correções históricas como o clássico de 1964, "Aquarela Brasileira", de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, que para mim é um dos melhores de todos os tempos, e que foi reeditado pelo glorioso Império Serrano.

Conta a lenda que o samba perdeu pontos preciosos na disputa com a Águia de Madureira, deixando de levar o campeonato, que foi conquistado pela rival histórica, a Portela!

Na "Aquarela", em que os compositores "pintavam" os estados brasileiros, o poeta Silas de Oliveira e sua trupe vinham discorrendo características e fatos históricos da região norte em direção aos estados do sul do Brasil, ocorre porém, que como vinha numa sequência lógica abordou a Bahia e depois Pernambuco, que deveria vir antes, criando um erro geográfico, que deve ter tirado pontos do glorioso Império.

Desfile do Império Serrano em 1964. Foto: Acervo

Por outro lado pode-se dizer que a reedição evita o desgaste do atual "modus operandis" das disputas de sambas de enredo que originam um alto custo para os poetas privilegiando interesses vorázes sobre direitos autorais e televisivos, em disputas em que "irmão desconhece irmão", e ainda de quebra, geram o sumiço de alas de compositores e seus sambas de quadra.

Além de tudo isso ainda cria desilusões, jogo de interesses onde o mais forte, muitas vezes, prevalece sobre tudo e todos, mesmo com um samba ruim.

As reedições de enredo ainda possuem alguma vantagem, pois os carros alegóricos, figurinos e samba já tem um desenvolvimento traçado e normalmente sofrem poucas mudanças.

Portanto basta mergulhar no enredo e trazer à tona a história. Então a escola fica entre a cruz e a espada lidando com o fantasma de um desfile imortal e com um Carnaval de inevitável comparação.

Ainda existem as comissões de Carnaval e os atores de um novo tempo, muitas vezes sem formação sambística nenhuma e funcionando apenas como componentes.

Estes terão essa difícil missão de fazer brilhar novamente o diamante que a história mostrou, e não é fácil. Embora os carros alegóricos e as fantasias sejam mais incrementados, o samba, a ginga, a leveza e a graça dos sambistas daquele tempo, nesse momento, criam um paradoxo que fala mais alto, pois reeditam o enredo, mas não os sambistas... 

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Comentários
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    04/05/2016 15:26:06Gabriel de Barros DalliaMembro SRZD desde 11/07/2016

    Acho válido reeditar alguns enredos que possam ser mais explorados sob uma nova perspectiva para não ficarmos nos mesmos temas como agora só se fala de África, sep ou nordeste há uma gama muito maior de temas

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Isso evita spams e mensagens automáticas.