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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

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03/05/2016 15h19

Harmonia: Brasa Viva da Escola
Hélio Ricardo Rainho

Palestra no Império Serrano - Foto: Divulgação

Tive a oportunidade de participar de um fórum realizado na quadra do Império Serrano, promovido pela Associação Cultural dos Diretores de Harmonia das Escolas de Samba do Brasil. O tema era sempre associar o trabalho da direção de harmonia na escola de samba com os demais segmentos que constituem o desfile das agremiações.

Na oportunidade, fiz duas provocações.

Em minha primeira provocação, evidenciei que, ao contrário do que muitos pensam, a harmonia de uma escola "já existe", e não é um atributo de seus diretores, mas sim da própria escola. Talvez não se possa explicar isso de forma lógica, porque a essência e a virtude de uma escola de samba não são, realmente, explicáveis. A escola de samba é um fenômeno vivo, de dinâmica autêntica e pessoal. É de caráter imensamente subjetivo o seu poder de manifestação cultural. Tornamo-nos incapazes de aprisionar esse poder a um contexto cartesiano, porque não há como parametrizar a glória de uma escola de samba. Falei sobre aquilo que comumente ouvimos chamar de "chão de escola", sobre aquelas escolas de samba que "misteriosamente" parecem desfilar com uma graça extraordinária ano após ano, mesmo quando não possuem bons recursos ou estrutura. São escolas que possuem encanto natural. Esse encanto, esse sopro, essa chama, é a sua harmonia! Porque é a energia combinada de seu canto, sua dança, sua passagem solta e contagiante na avenida.

Algumas escolas são verdadeiros pilares desse tipo de coisa, possuindo um "chã de escola" espetacular. Podemos citar, aqui, quatro que me vêm de imediato à cabeça: Império Serrano, Vila Isabel, Mangueira e Portela. Nossa! Não digo que sejam as únicas, mas seu chão de escola é autoral. Entra e sai carnavalesco; muda a diretoria de harmonia daqui pra ali; trocam alas e modificam enredos; não importa: até quando desfilam desprovidas de sua melhor qualidade, essas escolas são exemplos de um "chão" vibrante, irreprrensível.

O chão de escola aparece, ali, como uma brasa ardente. A função do diretor de harmonia é ter a sensibilidade de perceber a melhor forma para abanar esse fogo, promover a combustão, conduzir os elementos para que favoreçam sua passagem na avenida. São sacerdotes, não são deuses. São responsáveis por planejar e arquitetar muitas coisas, e não devem se isentar de suas funções hoje tão técnicas. Mas precisam lembrar que toda a técnica ou metodologia que for desenvolvida deverá meramente funcionar como o "leque que abana o fogo", devendo primeiro entender a energia e o coração do componente, bem como o legado histórico até ali construído, para que haja antes um cortejo, depois um desfile.

A segunda provocação que fiz foi sobre as atenções dos trabalhos de harmonia parecerem excessivamente voltadas para desempenho de desfile, esquecendo-se os rituais de quadra. A lógica de exigência matemática dos julgamentos transformou o desfile no maior momento das escolas de samba, quando historicamente a disputa veio depois de seu surgimento. Nenhuma escola de samba nasce no meio da avenida: elas nascem nas quadras, nos bairros, nas comunidades. Possuem um rastro de territorialidade, uma cultura intrínseca disseminada por seus baluartes e fundadores. Duas escolas de samba não são iguais, e a lógica de querer igualar ou tornar similar é meramente impositiva da matemática dos pontos do concurso a que elas se submetem. Mas essa lógica não deve, jamais, sufocar a verdadeira essência da escola, que é o seu ritual de quadra, de ensaio, de onde emanam todas as suas energias e poderes. É ali, no arregimentar de suas forças e de sua gente dentro da quadra, que os diretores de harmonia começam a construir suas parcerias, costurar a unidade do corpo da escola. Se esse trabalho não começar no seio de sua gente, no nascedouro de tudo, o mero recurso de tecnologias e teorias próprias não vai conduzir a escola de samba a um contexto harmônico de verdade.

A direção de harmonia de uma escola de samba precisa abraçar e disciplinar seu componente. A diretoria de harmonia de uma escola de samba precisa ser exemplo de doação e carisma, vibração e simpatia, respeito e encanto. O diretor de harmonia é um agente da alegria e do sorriso que a escola deve provocar: seu comando suave e delicado expressa a regência de um maestro. Ainda que os movimentos sejam bruscos com a batuta na mão, um maestro jamais insulta seus músicos, empurra seus solistas, apresenta-se de frente para sua plateia. Ele conduz a orquestra com classe, firmeza e elegância. E, durante o concerto, é uma referência de respeito e condução a seus comandados, pois já construiu essa relação no dia-a-dia de ensaios e convivência.

A Associação Cultural dos Diretores de Harmonia das Escolas de Samba do Brasil vem sondando caminhos e reflexões para dirimir dúvidas e pensar sobre todas essas coisas. É louvável ver todos esses sacerdotes imbuídos de um mesmo ideal: fortalecer e consolidar as escolas de samba como o maior espetáculo da Terra!

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