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05/05/2016 14h04

Psicanalista esclarece ligação entre dificuldades sexuais masculinas e problemas emocionais
Redação SRZD

A Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro vai promover um curso gratuito sobre sexualidade masculina nos dias 13 e 14 de maio no Auditório da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, das 11h às 13h, na Rua Davi Campista, 80, no Humaitá.

O evento "Sexualidade masculina - Uma conversa entre o urologista e o psicanalista" vai tratar sobre dificuldades sexuais nos campo orgânico e emocional, chamando a atenção para a importância entre o médico e o psicanalista, além de promover um debate com os participantes.

O urologista e andrologista Roberto Campos e a psicanalista Luciana Carvalho vão ministrar o curso. Campos chefiou o setor de Andrologia do Hospital Federal dos Servidores do Estado, onde atuou como clínico cirurgião por 35 anos. Luciana atuou por três décadas no mesmo setor.

Os interessados podem fazer as inscrições pelos telefones 2537-1333 e 2537-1115.

Luciana esclareceu algumas dúvidas sobre as dificuldades sexuais masculinas, razões, exemplos e soluções.

Foto: Reprodução de Internet

Confira abaixo:

Como a psicanálise pode ajudar nas dificuldades sexuais masculinas?

Luciana Carvalho: A psicanálise como um instrumento de investigação da subjetividade humana pode ajudar pesquisando, junto com o sujeito que a procura, o sentido da dificuldade que ele apresenta, que, na maioria das vezes, pode ser: dificuldade de ter ou manter a ereção, dificuldade de controlar a ejaculação e inibição ou exacerbação do desejo sexual.

Essas dificuldades são sempre emocionais?

Luciana Carvalho: Algumas dificuldades podem ter causa orgânica ou emocional, como é o caso da disfunção erétil e da inibição do desejo sexual, que pode estar relacionado a alterações dos hormônios sexuais masculinos. No caso da ejaculação rápida, até o momento, não foram encontradas causas orgânicas que a justifiquem, sua origem é sempre emocional. Geralmente o paciente que busca ajuda do psicanalista para resolver suas dificuldades, é encaminhado por um médico - urologista ou andrologista - que já descartou a possibilidade do problema ter origem no corpo.

Quais são as razões mais frequentes, do ponto de vista emocional, para as dificuldades sexuais masculinas?

Luciana Carvalho: Ao longo de 30 anos de trabalho no setor de Andrologia do Hospital Federal dos Servidores do Estado, RJ, onde juntamente com o urologista Roberto Campos atendi a inúmeros casos de homens com queixas relacionadas à vida sexual, posso dizer que a maioria das dificuldades sexuais masculinas tem como base o berço cultural em que o homem é criado, a forma como ele se estrutura, como aprende a se colocar frente às adversidades da vida. Ele é educado para tomar sempre uma posição fálica diante das demandas que lhe chegam, principalmente das demandas sexuais. Em muitas situações, a dificuldade começa quando o homem tenta se "forçar" a ter uma relação sexual sem estar com desejo, ou quando entra na relação sexual muito preocupado em apresentar uma bela performance. A estrutura da qual falei acima é a mais comum, mas existem outras.

Você pode dar exemplos de casos como esses?

Luciana Carvalho: Os homens que possivelmente vão ter dificuldades que poderão se tornar permanentes têm uma tendência a encarar a demanda sexual vinda do outro como um dever a ser cumprido, de forma pragmática, racional e consciente. Posso citar alguns exemplos: o homem que é assediado por uma mulher e pensa que é seu dever, de macho, atender aquele desejo, mesmo sem ter interesse sexual por ela. É o sujeito que entende que deve "comparecer" sexualmente um determinado número de vezes por semana para a relação sexual, porque do contrário sua mulher vai ficar desassistida, ou o homem que encara o ato sexual como de total responsabilidade sua, e diante de uma mulher passiva, que não o estimula, tenta fazer tudo sozinho, esquecendo que a relação sexual é um jogo jogado a dois. Estes homens falham por que, na maioria das vezes, não estão em sintonia com seu próprio desejo, depois da falha costumam xingar seu próprio pênis e o tratam como um inimigo traidor, um estranho dentro de seu corpo, quando na verdade o próprio sujeito é o traidor Ele trai o próprio desejo, lidando com a atividade sexual como algo pragmático e racional. É importante que este homem entenda que não é seu ego, seu lado supostamente racional, que comanda seu desejo, o inconsciente é o grande reservatório de desejos, e nós, humanos, temos que lidar com esse "outro", esse "estranho" que habita em nós. Precisamos aceitar, como nos ensinou Freud que, "o ego não é o senhor em sua casa".

Uma vez que a dificuldade de ereção não seja orgânica, medicamentos "resolvem"? São uma solução?

Luciana Carvalho: Uma coisa importante a dizer inicialmente a respeito dos medicamentos, é que eles só fazem efeito quando existe desejo sexual. No caso das dificuldades orgânicas que, de modo geral, estão ligadas a problemas vasculares, provocados por doenças como o diabetes, a hipertensão, o colesterol alto, ou pelo próprio envelhecimento do sujeito, os medicamentos ajudam muito, e podem devolver ao homem uma vida sexual plena. No caso das dificuldades emocionais vai depender do tipo de problema que se apresenta. Um sujeito pode ficar levemente ansioso nas primeiras vezes que se relaciona com um nova pessoa, usar o medicamento nessas circunstâncias e depois não usar mais, um outro pode ser tomado por uma intensa angústia frente ao encontro sexual, e esta angústia anular totalmente seu desejo, impedindo assim que o medicamento funcione. Nesses casos, o mais indicado é a psicoterapia.

Embora esses medicamentos venham sendo utilizados por jovens para turbinar a performance, digamos, são utilizados também por homens mais velhos que muitas vezes não tinham problema de ereção mas com a idade e alterações hormonais não conseguem ter ereção completa e /ou sustentá-la. Como lidar com a situação no caso dos homens mais velhos, que "funcionavam" satisfatoriamente, têm desejo, mas o corpo não responde mais? Em que situações há necessidade de psicoterapia?

Luciana Carvalho: Esses homens mais velhos aos quais você se refere, que não tinham dificuldades com a ereção e passam a ter em função do envelhecimento, são os que mais se beneficiam com o uso destes medicamentos, e se retomam a vida sexual com eles. A princípio, não têm necessidade de fazer terapia. A necessidade de terapia surge se junto às dificuldades orgânicas se apresentarem também dificuldades emocionais, ou seja, se o sujeito estiver deprimido, sem desejo, se estiver com dificuldade em seu relacionamento afetivo, ou em sua vida pessoal, nestes casos, a terapia junto com a medicação é o mais indicado. Com relação aos jovens que tomam medicamentos para turbinar a performance, podemos pensar em muitas coisas, a não aceitação da possibilidade de falhar, o sexo sem a presença do afeto etc. Mas a psicanálise trabalha no caso a caso, e só ouvindo esses jovens vamos poder ter acesso às fantasias, às ideias, que estão por trás da necessidade de uma performance turbinada.

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