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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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09/05/2016 08h02

Patrimônio Histórico aprova tombamento da Passarela do Samba
Rachel Valença

Para os sambistas jovens, a Passarela do Samba na Av. Marquês de Sapucaí é apenas o lugar onde se realizam os desfiles das escolas de samba, durante o carnaval. Para os veteranos, porém, a Passarela tem um significado especial, pois simboliza o coroamento da luta dos sambistas ao longo de um século para que o samba fosse reconhecido como social e culturalmente relevante.

Não se trata apenas do fim do monta-desmonta anual de arquibancadas: trata-se da criação de um monumento arquitetônico, em área nobre da cidade, exatamente aquela que viu o novo gênero ganhar suas características de "samba de sambar". E, diga-se de passagem, monumento criado por um dos maiores arquitetos do mundo, Oscar Niemeyer.

Foto: Reprodução de Internet

Pois bem, na última semana o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional aprovou o tombamento da Passarela do Samba, dentre outras obras do grande arquiteto. Isso significa que, a partir do ano que vem, estaremos fazendo nossa farrinha anual num bem tombado, num prédio considerado de relevância cultural para nosso país. Ah, Paulo Benjamim de Oliveira! Ah, Eloy Antero Dias! Ah, Mestre Cartola, olhem até onde chegou a garra e o talento de vocês...

A Avenida dos Desfiles, como foi inicialmente chamada, foi construída em apenas 120 dias, na Avenida Marquês de Sapucaí, local onde já se realizava o desfile das escolas de samba desde 1978. Com 13 metros de largura, tem extensão de 700 metros (tão pouquinho para nossa empolgação!). Em 1987, recebeu o imponente nome de Passarela Professor Darcy Ribeiro, em homenagem ao vice-governador do Rio na época de sua construção, que se dedicou pessoalmente ao acompanhamento do projeto. Mas o nome mais popular da Avenida, foi o próprio Darcy que lhe atribuiu: Sambódromo.

Foto: Acervo pessoal

Durante a obra, muita polêmica marcou a iniciativa. A mais corriqueira era que não ficaria pronta para o carnaval. Mas também a questão da segurança era uma tônica entre os adversários políticos e a imprensa: uma obra feita às pressas teria condições de abrigar tanta gente? Eram 60 mil espectadores previstos para ocupar os espaços! E, dizia-se, o terreno não era apropriado, um rio passava bem embaixo da obra monumental e poderia minar e abalar as estruturas.

Havia gente que jurava que jamais pisaria ali, pois a tragédia era previsível...

Em entrevistas no rádio, na tevê e nos jornais, o engenheiro calculista José Carlos Süssekind tranquilizava: testes de peso estavam sendo feitos com tonéis de água e não havia qualquer risco. Para desespero dos derrotistas de plantão, a passarela foi inaugurada com pompas e honras naquele longínquo carnaval de 1984. Confesso que ainda guardo comigo o convite para a solenidade de abertura, no dia 2 de março de 1984, que precedeu o desfile das escolas do então chamado Segundo Grupo. Foi o Império do Marangá a primeira escola de samba a cruzar a passarela, mas o que nunca mais pude esquecer, dessa noite, foi o desfile do Arrastão de Cascadura, cujo samba começava assim: "É folia, Cidade Maravilhosa/ Pisa nesta passarela/ Nossa escola suntuosa". Não, a escola não estava nem um pouco suntuosa, mas foi a primeira talvez a se referir ao novo espaço como Passarela. Uma emoção!

A capacidade era de 60 mil espectadores, muito mais do que a dos anos anteriores. E, para surpresa de muita gente, os ingressos não se esgotaram logo. Daí a decisão de parcelar o valor em três vezes, com uma espécie de carnê, financiado pelo Banerj. Bons tempos! Hoje é só dinheiro vivo e pago antecipadamente. Hoje a Passarela comporta 72.500 espectadores, após a derrubada, em 2011, do prédio da Cervejaria Brahma, que possibilitou a construção de arquibancadas no lado par da Avenida, conferindo à obra seu caráter simétrico originalmente previsto.

Gente de samba, que ocupa a Passarela nos meses que precedem o carnaval, em ensaios, e durante quatro dias praticamente a habita, tem, é claro, muitas críticas e queixas. Alguns problemas já foram corrigidos, como a absurda ideia da Praça da Apoteose, em que Darcy Ribeiro desrespeitou a tradição do desfile, querendo, de maneira autoritária, introduzir nele um elemento inexistente. Outros ainda persistem, e ano a ano as negociações progridem para chegar, se possível, a condições ideais. Muito se tem também desrespeitado o projeto original, introduzindo elementos arquitetônicos espúrios para atender a interesses dos que se julgam acima do bem e do mal.

Mesmo assim, o nosso Sambódromo desencadeou, pelo Brasil afora, uma série de construções com a mesma finalidade, de abrigar o desfile de escolas de samba, expressão cultural do povo. Escolas de samba que já não oscilam à mercê de verbas e vontades políticas para ter a cada ano seu lugar. Com a Passarela do Samba, adquiriram perenidade. O samba existe, veio pra ficar e merece respeito. E não há sambista que não se emocione ao ver, a cada ano, as lindas imagens do sol nascendo, enfeitando o Arco da Apoteose, cuja visão permite inúmeras interpretações e justamente por isso serve tão bem de moldura a uma manifestação vária e polissêmica como o samba.

A sobriedade da reunião do Conselho foi quebrada pela presença de sambistas da Estação Primeira de Mangueira, que além de ter sido a primeira supercampeã do Sambódromo, em 1984, foi também a campeã deste 2016. Bonito vê-los lá, comemorando a celebração de um espaço que é nosso, para sempre.

Foto: Acervo pessoal

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