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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



16/05/2016 16h32

Carnaval 2017: A TV e a Cronometragem
Hélio Ricardo Rainho

Cronometragem - Foto: Reprodução

Há algum tempo venho repensando a realidade das escolas de samba de forma particular e pragmática. Cansado de tantas interlocuções intelectuais tendenciosas e ultrapassadas, de alguns pensamentos nostálgicos infundados e travadores do avanço dessa manifestação, dos blá-blá-blás que não levam a lugar nenhum, da poeira alergênica das conversas de fundos de auditórios acadêmicos,  resolvi exercitar o "pensamento fora da caixinha". Desconstruir frases (mal)feitas, desfazer equívocos consentidos como "verdades absolutas do carnaval", desmentir falácias, acender na mente algumas ideias contrárias a um fluxo irracional de distorções sobre aquele que é, a meu ver, o maior manifesto popular e cultural de nosso país.

Diante da nova negociação feita entre a TV e a Liga, que reduz o tempo de desfile das escolas, ouvem-se dizer algumas coisas que merecem nossa atenção, e não necessariamente nossa concordância. Vamos a algumas delas.

Diz-se por aí que a escola de samba "virou espetáculo". Como se isso fosse crime, pecado ou aborto intencional de virtudes. Desculpem: a escola de samba em desfile SEMPRE FOI espetáculo! Alguém consegue imaginar um cortejo de pessoas fantasiadas, dançando e cantando na rua sob forte percussão e musicalidade - seja em 1935 ou em 2017 - que não seja um fato "espetacular"?! É que o lastro eurocêntrico e as elites racistas (que até hoje enviesam todos os pensamentos sobre a escola de samba numa lógica primitiva e tribal) sempre se negaram a reconhecer naqueles negros alguém que pudesse ser artista, criador, produtor cultural e agente de um espetáculo! Pra eles, o mágico do circo é espetaculo, o bailarino do Bolshoi é espetáculo, o Thriller de Michael Jackson é espetáculo, o trio elétrico de axé music by "ditadura de gravadora" é espetáculo...mas escola de samba "não"! Pra eles, escola de samba "perde a pureza" se for espetacular!

Pois bem, há um viés grosseiro nessa história. A escola de samba é um espetáculo artístico e cultural. Sempre foi. Sempre desfilou com imenso cortejo nas avenidas; sempre reuniu intensa atividade cultural e artística nas quadras e nos seus lugares. Mesmo mantendo suas mais fiéis tradições, mesmo sustentando seu legado histórico imponente e fundamental, ela pode ser espetáculo. A questão é que a escola de samba nasceu para ser espetáculo CULTURAL. Até que vieram os interesses da televisão em pasteurizar seu espetáculo cultural e transformá-lo num espetáculo AUDIOVISUAL. Essa é a diferença. A diferença não é ser ou não ser espetáculo: a diferença é ser ou não ser audiovisual. Ou seja: caber ou não caber na televisão.

O veículo televisão historicamente absorveu movimentos alheios a sua linguagem para criar programas. Não há mal nisso, também. Fez isso com o teatro, com o futebol, com os grandes shows. Aquilo que hoje chamamos de "o tal do ao vivo". No caso do desfile de escolas de samba, é flagrante a dificuldade de se transpor o formato artístico da avenida para o vídeo. Os dvds são sofríveis. A transmissão teve um auge nas coberturas da Manchete nos anos 80 e bons momentos da Globo também naquela época, devido ao pool para a transmissão conjunta. Na soma de tudo, ninguém nunca assistiu pela TV ou por um desses DVDs sequer 10% da verdade e da grandeza de um desfile.

Vamos falar a verdade! Não é ótica distorcida, nem defesa pelo ângulo de quem é sambista. A escola de samba é mágica! Tem errado em enredos horrorosos, homenagens alienígenas, escolhas burras, sim. Mas não perdeu sua força espetacular NA RUA, que é onde ela explode sua força maior.

A TV não é ONG. Mas também não é boba. Não veio fazer favor quando comprou direitos de transmissão. Quis comprar um espetáculo audiovisual, transmitir pro mundo, lucrar com euros, yens, dólares e reais com isso. E sabia que o espetáculo CULTURAL era poderoso o suficiente para valer o desafio que ela, a televisão, teria de transformá-lo em espetáculo AUDIOVISUAL.

Pergunto eu: se a escola de samba sempre teve vida própria para ser espetáculo, por que nunca pensou em modelos autossustentáveis como os do início de sua história? Por que vive mendigando pão das mãos de quem a financia, transmite ou patrocina?

É uma lógica que não alcançará os verdadeiros foliões da festa. Existem verbas de subvenção, existem verbas de arrecadação nos ensaios de quadra e hoje ainda existem os enredos patrocinados. Insisto em dizer que esse "dinheiro todo" da televisão poderia sair sem deixar ninguém sem espetáculo. Com tanto que houvesse ajustes, adequações e planejamento. 

Já que os cartolas do samba modificam tanto a escola de samba - e agora, mais uma vez, vão cortar na carne da escola o tempo que a televisão exigiu que reduzissem -, seria bom repensarem, também, um espetáculo que sustentasse suas tradições, suas verdades, sua força, seus expoentes. E também se mantivesse como espetáculo cultural, pois isso ainda é possível, independente do espetáculo audiovisual que só interessa a quem lucra muito com ele.

Então, o resumo da ópera é este: se a escola de samba caminha para cortar seu tempo e cortar seu número de desfilantes para "sobreviver", deveria pensar o mesmo quanto a cortar sua quantidade de dinheiro para construir seu carnaval! Afinal de contas, o tempo e o número de componentes são cortes que doem na própria escola de samba.

E cortar dinheiro? Doeria exatamente em quem?!

A pergunta permanecerá sem resposta...

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Twitter/Instagram @hrainho


Comentários
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    19/05/2016 11:02:01AntonioMembro SRZD desde 28/06/2011

    Que tal todas as escolas ultrapassarem o tempo por 7 minutos ? Seria muito legal essa resposta a rede globo. Voltaria aos 82min. rsrsrsr

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