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Carlos Fernando Cunha

Carlos Fernando Cunha

CARNAVAL. Carioca, morador de Juiz de Fora/MG há 15 anos. Ritmista, cantor e compositor com três CDs gravados. Pesquisador e Professor da UFJF.

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31/05/2016 11h17

Zélia Duncan e Roque Ferreira: Antes do mundo acabar
Carlos Fernando Cunha

Não foram poucas as rusgas entre artistas da música popular brasileira ao longo da história. Entre as mais famosas, as disputas entre Wilson Baptista e Noel Rosa, Emilinha Borba e Marlene. É evidente que houve pitadas de pessoalidade nestes casos, mas é preciso considerar as altas doses de pimenta que a indústria cultural colocou nestas cumbucas ferventes.

Recentemente, por conta do terremoto político que assolou nosso Pindorama, o território artístico voltou a cindir. Muitos foram às ruas, posaram para selfs em vans, ocuparam palanques, palcos televisivos, vestiram vermelho, o verde e o amarelo, atacaram e xingaram uns aos outros, levaram cusparadas e cuspiram, pediram desculpas, cantaram em escolas ocupadas por estudantes. Um novo rebuliço na categoria que, historicamente, quase sempre, deu as caras quando a situação do país exigiu.

A cena parecia mais calma nos últimos dias. Aparências, nada mais. A turbulência política não cessou, vide o episódio Ministério da Cultura, assassinado pelo governo interino, ressuscitado por artistas recalcitrantes. Há mais por vir, dizem.

Nosso destemido samba, repentinamente, tornou-se palco de um entrevero difícil de imaginar. Roque Ferreira, do alto de sua verve forjada no Recôncavo Baiano, declinou da indicação de Terreiros, seu álbum, ao Prêmio da Música Brasileira (PMB). Roque recusou a disputa com a cantora Zélia Duncan - que concorre com o disco Antes do Mundo Acabar - porque, segundo ele, a cantora não é do samba. Para o baiano, Zélia não poderia estar inserida na categoria do Prêmio relativa ao samba, pois "ela não é sambista, é oportunista. Entrou no samba pela porta dos fundos e por isso liguei para o José Maurício Machline para retirar meu nome de lá" (Transcrição retirada da coluna de Ronaldo Jacobina, Jornal da Tarde, publicada em 21/05/2016).

Amigos e amigas. Quando soube do caso, pasmei. Dias antes, havia escutado os três discos concorrentes ao PMB no gênero samba, o de Roque, o de Zélia e o de Moacyr Luz, intitulado Moacyr Luz & Samba do Trabalhador - 10 anos e outros sambas. Por dois motivos. Porque pretendia escrever uma resenha sobre os três trabalhos aqui no SRZD, bem como pelo fato de que, lá no fundinho da alma, acalentei uma esperançazinha, imodesta, de que meu disco, Baobá, pré-selecionado que foi ao PMB, pudesse furar as ondas bravias do desconhecido e figurar no panteão dos finalistas. Porém, ao ouvir os três trabalhos, os discos de Roque, Zélia e Luz, encerrei qualquer tipo de tentativa de contestação, ainda que íntima. São excelentes álbuns de samba e merecem estar onde estão. Merecem muito mais. Merecem algo que mesmo o PMB não pode garantir. Merecem ser ouvidos e assobiados por todos que gostam de música e de samba.
Mas, meu querido Roque Ferreira, por que tomou essa atitude intempestiva?

Eu sei da luta de Roque em favor do samba na Bahia. Ele e outros artistas geniais daquela terra boa, Nelson Rufino, Riachão, Edil Pacheco, Walmir Lima, entre outros, trabalham duro para elevar o samba da Bahia e desconstruir a imagem que dele fez a indústria cultural ao longo das últimas décadas. Sabemos, Roque, que o samba baiano não se resume à boquinha da garrafa, ao agachadinho, ao lepo. Salve, Gordurinha! Salve, Ederaldo Gentil!

Querido Roque, como você diz, é preciso ser rocha. Mas, sem ternura? Jamais!
Na guerra precisamos ter clareza de quem são nossos verdadeiros inimigos. E com certeza, Roque, Zélia Duncan não merece a condição de alvo neste campo minado que é a nossa música popular.

Sou admirador do trabalho musical de Zélia Duncan. Ela começou a aparecer em 92 quando gravou uma faixa no songbook de Dorival Caymmi (aquele baiano). Em 94, explodiu com o sucesso de Catedral, gravado em seu primeiro álbum solo, Zélia Duncan. Mas quero chamar a atenção para seu disco Eu me transformo em outras (2004). Obra-prima em que Zélia gravou Cartola, Ataulfo Alves, Wilson Baptista, Dorival Caymmi, Hermínio Bello de Carvalho, Jacob do Bandolim, Elton Medeiros, Pixinguinha.
Querido Roque, convenhamos, não dá para acusar Zélia de oportunista.

Foto: Roberto Setton - Direção de arte: Simone Mina

Em Antes do Mundo Acabar (2015), a cantora entoa sambas de Arlindo Cruz, Ana Costa, Xande de Pilares, Fred Camacho, Pretinho da Serrinha, Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Délcio Carvalho, Riachão (ele mesmo), Sereno, Moacyr Luz. E Zélia, a compositora, também apresenta sambas de sua lavra no disco.
Antes do Mundo Acabar é uma homenagem ao samba. É um pacto de compromisso de Zélia Duncan com este gênero que está em nossas consciências, em nosso corpo brasileiro. Um compromisso datado, que seja, pois ela tem o talento de se transformar em outras.

Vi Zélia Duncan sambar e cantar com Ana Costa, Mart´nália e Martinho da Vila, 2009, 2010, bem antes de saber da ideia dela em gravar um disco de sambas. Ouvi sambas de Zélia feitos em parceria com as duas primeiras artistas sambistas. E me identifiquei com Zélia e sua relação com o samba. Em certa medida, uma história parecida com a minha, com a de muitos do/no samba. Admiração, flerte, abraço, compromisso, ancestralidade.

Zélia pode não ter os pés no samba, mas o samba está nela. Basta ouvir seu disco de 2004, basta ouvir seu disco de 2015, basta vê-la cantar o samba, de corpo e alma.

Em 2014 fiz um samba para Zélia Duncan, no qual digo que seu apelido, ZD, significa ziriguidum. Prerrogativa dos bambas, Zélia tem ziriguidum. E ziriguidum, meus senhores, não é coisa de qualquer um.

Meu querido Roque Ferreira, dono de obra fundamental da música popular brasileira e do samba, guerreiro e defensor da nossa mais legítima cultura, cidadão orgulhoso de Nazaré das Farinhas. Faço a você um desafio em tom apelativo de fã. Ouça os trinta primeiros segundos do disco de Zélia Duncan, o início da faixa Destinos sem razão (Xande de Pilares/Zélia Duncan). Sinta o quanto de você e do Recôncavo há naqueles tambores, nos fraseados das cordas. Siga por mais tempo e apazigue seu coração com os versos cantados: "Olha o meu coração / Se a vida nos juntou / Quem vai separar tanto amanhecer? / Segura firme a minha mão / Destino tem razão, tem que viver / Segura firme a minha mão / Destino tem razão, vamos viver". Dê uma golada em uma boa pinga mineira, pegue o telefone e ligue para ZD, a Roqueira do rock e do Roque. Tudo vai ficar no seu lugar, graças a Deus!

Ô sorte!

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Comentários
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    03/06/2016 08:59:55Ronaldo MartinsAnônimo

    Belo e verdadeiro texto Carlos Fernando Cunha. E ñ podemos esquecer q Zélia foi roteirista do PMB cuja homenagem foi ao Samba. Viva o Samba! Viva a Zélia Duncan!

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    01/06/2016 17:53:40Darlan LulaAnônimo

    Belíssimo texto! Vou procurar ouvir esses CDs. Obrigado por me fazer entender um pouquinho desse mundo musical.

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    01/06/2016 15:49:47Almir da Silva LimaAnônimo

    Foi corretamente redigido, não analisado nem comentado este texto sobre o imbróglio em questão. No qual agiu com sectarismo o compositor, cantor e sambista-bamba baiano da Música Popular Brasileira (MPB) Roque Ferreira quando tachou de ´oportunista´ a colega fluminense de Niterói, Zélia Duncan. A qual, por sinal chega a ser boa cantora e compositora. Embora homônimo do vereador em Bauru (SP) que é meu camarada de militância na corrente interna do PSOL, Esquerda Marxista, o sambista-bamba baiano Roque Ferreira não tem a mesma consciência política. Ele teve razão ao declinar concorrer com Zélia Duncan à premiação artístico-cultural da petrolífera Esso. Isso porque embora a cantora e compositora pertença à MPB, não é sambista de raiz. Todavia, ele perdeu a razão, devido à forma sectária com que atacou a colega cantora e compositora, que tem discografia com belas obras da MPB, ainda que a maioria seja dos gêneros rock e pop. O compositor, cantor e sambista-bamba baiano Roque Ferreira deve ser criticado por isso. Não por declinar de concorrer com a colega à citada premiação, cuja petrolífera é uma multinacional estadunidense e imperialista. Ou seja, tem enquanto razão de existência auferir lucros bilionários. Não separar o joio do trigo e ser justa sequer em termos de premiação relativa à Cultura e à Arte. Haja vista, o que ensinou o genial marxista Trotsky (1879 a 1940) no livro Literatura e Revolução: ´O compromisso dos poetas e artistas inclusos atletas esportivos e sambistas não é com o politicamente correto. Mas, sim com a produção de obras de excelência na qualidade, para que possam entrar na História e ajudar ou não a transformá-la´. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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    31/05/2016 19:34:17Yuri G. SoaresAnônimo

    Muito bom!!! Parabéns Carlos!

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    31/05/2016 14:47:42SÉRGIO JÁCOMO MENEZESAnônimo

    Aplausos (de pé...)ao Carlos Fernando por esse texto da melhor qualidade. O CD ANTES DO MUNDO ACABAR, lançado, no Rio de Janeiro,em animadíssimo show da Zélia Duncan no Circo Voador,é a minha mais nova mania musical.

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