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Carlos Fernando Cunha

Carlos Fernando Cunha

CARNAVAL. Carioca, morador de Juiz de Fora/MG há 15 anos. Ritmista, cantor e compositor com três CDs gravados. Pesquisador e Professor da UFJF.

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14/06/2016 08h57

O samba é seu dom!
Carlos Fernando Cunha

Queria que as letras deste texto estivessem em verde e branco, preto e vermelho. O verde e o branco do Império Serrano. O rubro e o negro do Flamengo. Duas paixões de Wilson das Neves, cantor, compositor, baterista e ator que completa 80 anos de vida.

Meu objetivo não é traçar um perfil do "Das Neves", mas importa, brevemente, dar a medida do tamanho deste artista. São 62 anos de carreira, viagens pelo mundo afora com sua bateria. Acompanhou e gravou com inúmeros personagens da música, compôs mais de 200 melodias, atuou em 3 filmes, lançou 13 discos. E levem ainda em consideração que Wilson das Neves será o enredo da Tupy de Braz de Pina para o carnaval de 2017.

Gosto da expressão de Paulo César Pinheiro, parceiro de 70 músicas com Das Neves, quando de sua tentativa em definir o amigo: Acho que quando Zé Keti cantou "Eu sou o samba", o Wilson estava soprando para ele (Citado por Gabriela Goulart, O Globo, 6/3/2016).

É isso! Das Neves é o samba, a voz do morro, o rei dos terreiros, natural do Rio de Janeiro, quem leva a alegria para milhões de corações brasileiros.

Wilson das Neves. Foto: Divulgação

Conheci Wilson das Neves em 20 de novembro de 2014, uma quinta-feira de muito sol no Rio de Janeiro, feriado, Dia da Consciência Negra. De carro, saí de Juiz de Fora às 8 da manhã e quando deu 10 horas estava na porta da sua casa no bairro da Ilha do Governador. Bati palmas e nada. Insisti. Abriu-se a porta e era ele, ainda mal levantado da cama, resto de cabelos esvoaçantes.

Pigarreando, perguntou-me: Você é da terra do Big Ben, meu filho? Sorri e ele me convidou para entrar. Enquanto tomava seu banho, sentei no sofá da sala e não tirei os olhos da paredes. Fotos. Recortes de jornais emoldurados. Prêmios. Faixas e condecorações alusivas à bateria do Império Serrano. Paixão para dar à vista.

Depois de um café preto e curto, entramos em meu carro e defini o destino da corrida. No entanto, seria preciso passar primeiro na banca de jornal. Motivo? Antes de qualquer cumprir qualquer compromisso, Wilson precisava pilhar o jornaleiro tricolor pela derrota da semana para o nosso Flamengo. Aproveitei a carona e também tirei minha casquinha.

Foi quando notei no olhar de Wilson aquele brilho de identificação, de comunhão. E seguimos até a Barra da Tijuca, quilômetros recheados de deliciosa conversa sobre o Maracanã, Zico, Dida, o Império, Chico Buarque, candomblé, samba e João, o bisneto.

Wilson das Neves aceitara gravar, cantando, o samba "De Piedade" no meu disco, o Baobá. E foi nesse 20 de novembro que o conduzi ao estúdio e recebi a graça da sua participação. Quando escrevo o termo "graça" é para deliberadamente aludir ao sagrado. Luis Filipe de Lima, diretor musical do disco, amigo de tempos do Das Neves, serviu como instrumento divino e nos uniu. É a explicação para que "De Piedade", parceria minha e do amigo Tiago Rattes, elaborada
anos antes, finalizada por mim pensando Wilson das Neves, recebesse sua posterior e real participação.

Ver e ouvir Das Neves no estúdio foi outra viagem. Ele carrega na voz a malemolência da nossa música popular brasileira. Os mais de 60 anos de bateria renderam a ele divisões pra lá de sincopadas. E, inteligente como poucos, absorveu dos muitos cantores e cantoras que acompanhou, seletivamente, os ornamentos do seu próprio
cantar.

Após a gravação, voltamos a Ilha do Governador. De lá, rumei sozinho para Juiz de Fora. Durante semanas pensei em como agradecer Das Neves, para além das palavras. Não houve pagamento em dinheiro, nenhuma exigência por parte dele. Ele foi de graça e, como disse anteriormente, por graça. Até que caiu a ficha. Era óbvio.

Comprei uma bela camisa do nosso Flamengo, mandei escrever Das Neves na parte de trás e remeti a ele pelo correio. Dias depois, tocou meu celular e era ele do lado de lá. Ligou para agradecer o presente. Disse que usaria a camisa no sábado posterior num show marcado com a Orquestra Imperial. Conservando sua meninice, cantou: Eu teria um
desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo! E, gargalhando, finalizou sua ligação com o bordão de Roberto Ribeiro que já é seu: ?sorte!

Axé, Wilson das Neves! Que os Orixás te protejam e te guiem!

Ouçam "De Piedade" (Carlos Fernando/Tiago Rattes):

Ô sorte!

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Comentários
  • Avatar
    14/06/2016 13:11:17AndreAnônimo

    Justa e singela homenagem!

  • Avatar
    14/06/2016 10:10:36Jussara AlvesAnônimo

    Axé, Wilson das Neves! Salve o samba!

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