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Ruy Chaves

Ruy Chaves

Tem experiência em implantação, desenvolvimento e reestruturação de instituições de ensino superior. Cursou Altos Estudos de Políticas e Estratégias na Escola Superior de Guerra (ESG), onde foi membro do corpo permanente e do corpo de Conselheiros. Professor universitário, também atuou em cursos da Polícia Militar do Rio de Janeiro e do Pará, em cursos de planejamento estratégico na ACADEPOL de Minas Gerais e na Escola da magistratura do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Cidadão de Aracaju, tem as Medalhas Tiradentes, da ALERJ e da Polícia Militar do Pará, e Marechal Cordeiro de Farias, da ESG.

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21/06/2016 12h58

Conversa com Fernando Pessoa
Ruy Chaves

Olá pessoal. Dias difíceis, não? Parece que a tempestade perfeita que se abateu sobre a dignidade, a honra e a riqueza do nosso país nunca vai terminar, tantas as vergonhas que se sucedem, tenebrosos crimes, tenebrosas transações como lembra o Chico, que nos expõe ao ridículo como nação política e juridicamente organizada, que nos violenta, além de roubar nossos empregos e salários, nosso futuro, mesmo. Então, que tal mudarmos o tema tão perverso e olhar a poesia que humaniza o homem tõ degradado . Daí este artigo

 

PERSIGA AS SUAS UTOPIAS!

Meu caro Fernando de tantas pessoas, li tantas vezes teus poemas e tantos anos de perplexidades após continuo incapaz de compreender o teu mundo, insistentemente tentando penetrar tuas ideias na minha cabeça pequena e vazia. Também não sou nada nem serei nada, mas sonharei sempre o mundo que não consigo fazer.

Eras um poeta tão fingidor que até tua dor mentirosa doía realmente em mim. Podias não ter existido, Fernando, e tornarias mais simples minha vida. Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher, tua alma seta, raio, espaço me coloca ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra e não sei dirigir. Nem o Chevrolet nem a mim. Tu me pegas o braço e em seguida me soltas o braço e eu que não sabia onde estava antes, depois não sei o que não saber. Daí, Fernando, fecho os olhos e mesmo assim nada vejo. Não quero teu beijo, vida de morte!

Fernando, que mal te fiz ou fiz aos deuses todos? Se te queres matar, mata-te! Não posso eu inacabado, obra imperfeita, ainda que com pés e com cabeça, morrer agora para acompanhar teus delírios. E mais: aos diabos com a virtude e a retórica1 Vão para o diabo sem mim todos os doidos! Ao diabo, com esta vida doida! Sou infeliz porque não consigo ser doido e vivo doido porque não sei dizer o que dizes. Fizeste setenta mil poemas e não consigo dizer sessenta palavras. Estás nas cabeças de tantas pessoas há tanto tempo e eu há tanto tempo doendo as cabeças de tantas pessoas. Que pessoa eu sou, Fernando de tantas pessoas?

Não digas nada, nem mesmo a verdade, mas por que tudo vale a pena se a alma não é pequena, se minha vida é escombros e minha alma não tem alma, como a tua? Por que entre o sono e o sonho corre um rio sem fim? Estou do outro lado do rio e não vejo o outro lado do rio. Que é o rio quando apenas separa e confunde?

Grandes são os desertos e tudo é deserto, e daí? Sócrates é sábio porque sabe que não sabe, enquanto eu, idiota, por séculos não sabia que não sabia. Continuo a não me conhecer mas tu que conheces todo o conhecido, que conheces além do conhecimento, também não me conheces. Passei muito tempo sentado à porta da Tabacaria, mas nunca te encontrei. E te digo indignado: metildimetilaminadipirazolona! Também nada sei, hoje sei, mas sei que sou um perfeito idiota, apenas um nefelibata obnubilado, e que tua vida faltou conhecer mais um idiota. Nunca conheceste quem tivesse tomado porrada por que fugias de me conhecer.

Ah, esta noite que não passa, Fernando, este tempo que passa sem imaginação e com mediocridade. Outrora, quando fui outro igualmente idiota , ouvia de ti nas vésperas de não partir nunca que não arrumarias as malas nem farias planos de papel. Nesta hora próxima de partir, Fernando, que conselhos me dás? É a hora de nunca partir ou é a hora de partir para o nunca? A vida é simples e fácil apenas para quem é fácil e simples. Fernando, vou acabar este vinho e dormir. Nada mais importante tenho por fazer, nunca consigo dizer o que sinto nem o que não sinto.

Panta rei.


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