SRZD


24/06/2016 18h28

A saída do Reino Unido da União Europeia e seus impactos num Brasil em crise
Carlos Frederico Pereira da Silva Gama*

O Partido Conservador britânico vinha de duas vitórias esmagadoras nas urnas. Em setembro de 2014, o eleitorado escocês rejeitou a independência do Reino Unido (fortalecendo a agenda unionista dos tories). Em maio de 2015, os eleitores deram maioria simples de cadeiras no Parlamento ao primeiro-ministro David Cameron, com diminuições significativas nas bancadas adversárias (Partido Trabalhista, o nacionalista UKIP) e até de antigos aliados (Liberais Democratas).

Diante dessas vitórias históricas, apenas um revés sem precedentes nas relações exteriores poderia abreviar o já longo mandato de Cameron. Essa mudança veio no dia de hoje, 24 de junho de 2016.

Numa eleição com comparecimento recorde, 52% do eleitorado britânico (mais de 16 milhões) votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia, 43 anos após a entrada da ilha no bloco.

O referendo sobre o status britânico na UE foi convocado logo após as vitórias eleitorais na Escócia e eleições legislativas. Cameron buscava resolver disputas internas no Partido Conservador (entre moderados, favoráveis à permanência no bloco, e "eurocéticos" flertando com o UKIP). Cameron adotou uma postura dúbia no processo eleitoral: defendeu a permanência na EU, porém condicionado a renegociar condições especiais de que o Reino Unido desfrutava. A adoção do Euro estava fora de questão, bem como políticas relativas à mobilidade humana no tratado de Schengen.

Entre sua vitória histórica em 2015 e sua derrota igualmente histórica em 2016, o governo Cameron pouco se engajou nas crises que mais abalaram a União Europeia em anos recentes. Ao mesmo tempo que demandava condições especiais para manter a integração regional, Cameron deixou o Euro sobraçar em meio à recuperação lenta de Alemanha e França e recessões alimentadas pela austeridade na Grécia e nos PIIGS (os membros mais endividados da UE). Diante da maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido se dispôs a acolher apenas 20 mil refugiados da Síria num prazo de 5 anos (a Alemanha de Angela Merkel, apenas em 2015, recebeu 1 milhão). A situação precária de refugiados na fronteira anglo-francesa (no campo de refugiados apelidado de "jungle") simbolizou a indiferença do governo conservador frente às massas humanas em fuga da guerra civil síria, dos bombardeios da Rússia e dos horrores do "estado islâmico". 

O veto à integração europeia se provou fatal para a carreira política de Cameron. O premier anunciou sua renúncia logo após a divulgação dos resultados. O Partido Conservador fará consulta interna em Outubro. Nigel Farage, do UKIP, emerge como a figura política que mais se beneficiou do Brexit. Demais partidos (incluindo os trabalhistas, imersos numa profunda crise) se movimentam para adiantar as eleições gerais. Na Escócia - onde 2/3 dos eleitores foram favoráveis à permanência na UE - as lideranças políticas demandam uma nova consulta popular sobre a independência, antes que o Brexit se complete. A situação da Irlanda do Norte (onde a permanência também venceu) é incerta. No País de Gales, o Brexit (surpreendentemente) venceu. O Reino Unido está fraturado.

A histórica eleição de hoje aumentará o custo dos negócios entre Londres e o continente. Esse é um dos impactos da saída do Reino Unido da UE para as relações internacionais do Brasil.

As relações comerciais e de investimentos entre Brasil e Reino Unido são hoje menos importantes do que nos tempos do Império e República Velha. O Império Britânico foi o primeiro estado a reconhecer a independência brasileira (em troca do Brasil assumir a dívida externa portuguesa). No começo do século XX, o Brasil obtinha empréstimos para financiar a produção de café e rolar a dívida externa na City londrina (como o "funding loan" de 1898). Investimentos britânicos em infraestrutura incluíam áreas estratégicas como geração de energia elétrica na então capital federal (a Light, no Rio de Janeiro), a extração de minérios (a Mina de Morro velho, em Minas Gerais), a operação dos principais portos (como o de Santos) e a construção de ferrovias (São Paulo Railway). 

Hoje, apenas 3% dos investimentos externos diretos no Brasil são oriundos das ilhas britânicas. Exportações para o Brasil (concentradas em máquinas e equipamentos) representam menos de 1% dos 500 bilhões exportados anualmente pelo Reino Unido, ao passo que o Brasil obtém menos de 3% de suas divisas externas em exportações para a ilha (70% concentradas em commodities). O peso de exportações e investimentos britânicos no Brasil é modesto (3 vezes menores que os da Holanda). O investimento britânico na América Latina aumenta, mas em países como o México. 

Além de discursos xenófobos de aversão a estrangeiros (incluindo refugiados) e de proteção do mercado de trabalho, um dos argumentos para o Brexit fornecidos por seus apoiadores (como o prefeito de Londres Boris Johnson) é de que normas europeias dificultavam acordos bilaterais com as economias emergentes mais pujantes (caso da China e da Índia) Em busca de se tornar um hub entre Pacífico e Atlântico, a economia britânica estaria "engessada" pela burocracia de Bruxelas e "acorrentada" a países altamente endividados. Esse argumento subestima o tamanho da economia integrada para o Reino Unido e a contribuição de trabalhadores comunitários para o crescimento.

O argumento foi similar ao utilizado pelos ministros José Serra (Relações Exteriores) e Marcos Pereira (Indústria, Desenvolvimento e Comércio) para demandar modificações nas normas do MERCOSUL - estas seriam "entrave" às negociações bilaterais com parceiros na Ásia e Atlântico Norte e uma "camisa de força política" que atrela decisões do Brasil ao consentimento dos demais países-membros. O Brexit reforça normativamente as demandas brasileiras de flexibilização do MERCOSUL (que foram apoiadas pelo Uruguai e, com ressalvas, pela Argentina de Maurício Macri).

A estrutura das economias de Brasil e Reino Unido, porém, aumenta o alcance de impactos indesejados. A maior parte das exportações brasileiras se dirige à Ásia, a China é o destino provável. O Brexit foi justificado em parte como medida para facilitar o intercâmbio com os chineses, atualmente o 4º maior parceiro comercial britânico. Num futuro próximo, Brasil e Reino Unido disputarão o interesse de uma China em desaceleração - situação favorável apenas aos chineses e potencialmente desastrosa para um Brasil que pouco vem utilizando sua condição de membro dos BRICS para se aproximar dos demais emergentes. A saída britânica da EU em meio a negociações com o MERCOSUL multiplica turbulências e incertezas já visíveis na economia mundial. As principais economias contemporâneas se encontram mais desconectadas que em 2008 (ano da última crise).

O Brasil em crise e endividamento crescente não promete ampliar importações de máquinas e equipamentos a ponto de se beneficiar da desvalorização recorde da libra. O preço das commodities segue deprimido e a desindustrialização prossegue - a despeito do fôlego cambial ter aumentado as exportações.  Em 2016, as vantagens competitivas do Brasil não parecem suficientes para motivar transformação significativa do intercâmbio com os britânicos. 3/5 do comércio do ex-Império se concentram na Europa (incluindo países que não são membros da UE, como Noruega e Suíça).

O Brexit leva o relógio da integração europeia de volta às décadas de 1960 e 1970. Reforça a concepção de uma Europa de estados, proposta pelo líder francês Charles de Gaulle (e ressuscitada em 2016 pelo candidato à presidência Nicolas Sarkozy, em meio a atentados terroristas que atiçam o ódio xenófobo). Nesse tabuleiro de xadrez, a Alemanha se consolida como primeira entre os pares (na economia e na política de acolhimento dos refugiados). A ascensão de governos nacionalistas no Leste Europeu e a deterioração das relações do bloco com a Turquia limitam possibilidades de expansão. A decisão britânica fornece combustível para a desintegração continental, principiando pelos membros mais endividados da UE (o Syriza grego propôs uma consulta popular em 2015). Revés profundo se avizinha em direitos fundamentais avançados pela integração europeia (como mobilidade humana). O sofrimento dos refugiados se amplia na desintegração de sonhos europeus.

No curto prazo, os custos da saída e o aumento da desconfiança reduzirão o impacto britânico nas relações internacionais. A Commonwealth permanece um diferencial e tanto Donald Trump como Hillary Clinton asseguraram a continuidade do relacionamento especial com os Estados Unidos (sinal de que a OTAN permanecerá mais atuante que a UE em questões de segurança internacional).

Porém, a economia indiana está prestes a ultrapassar a pátria da Rainha Vitória em tamanho (em dinamismo, é a economia que mais cresce no planeta em 2016). Antes que inovações, redução do custo dos negócios e aumento da produtividade possam impulsionar o crescimento, a redução do influxo de trabalho qualificado, a diminuição do investimento europeu e a migração da grande finança para o outro lado do Canal da Mancha prejudicará a economia até que o Brexit se consume. Investimentos em indústrias de ponta, sustentabilidade e tecnologia de informação poderão ser redirecionados para conter os impactos negativos da des-europeização - gerando menos empregos.

Tarefa difícil coube à atual geração de líderes europeus: superar desavenças sobrepostas e impedir que a Europa se resuma ao Sacro Império Romano-Germânico de Carlos Magno rodeado por muros. 

*professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pesquisador do BRICS Policy Center (BPC) em colaboração voluntária ao SRZD


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