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04/07/2016 00h18

'Profissionalismo e dinheiro, menos para os casais', diz mestre-sala da Nenê
Redação SP

É dos casais de mestre-sala e porta-bandeira a maior honra dentro das tradições de uma escola de samba: conduzir o pavilhão, símbolo máximo das entidades carnavalescas.

Tão fundamentais para a cultura, são também decisivos dentro do concurso. Além de ocupar tão nobre posição, o primeiro casal de uma agremiação tem a responsabilidade de defender as notas de um quesito inteiro.

Não basta portar o talento nato para uma dança tão específica, repleta de ritos e tradições, soma-se a isso a extensa rotina de ensaios e o peso de apenas eles, os dois, em sua cumplicidade, conciliarem sua arte com regras cada vez mais rígidas impostas pelo regulamento.

Jefferson Gomes. Foto: Acervo pessoal

Mesmo diante de um cenário tão desafiador, a nova geração paulistana nesse segmento revelou Jefferson Gomes. 

O início de sua caminhada foi na Mocidade Alegre. Foram 14 anos na escola do bairro do Limão. Representou ainda o GRES Quilombo e a União Imperial, da baixada santista.

Reconhecido como um dos grandes da atualidade, parafraseia a clássica canção de João Bosco: "...com a dignidade de um mestre-sala...", mostra, em entrevista exclusiva para o SRZD Carnaval SP, que também é gigante nas palavras.

"Nesse tempo todo dentro do Carnaval percebia que os casais eram felizes em suas respectivas agremiações, mas a maioria sempre reclamava sobre o aspecto financeiro, o que me despertou uma dúvida: Quanto vale um casal de mestre-sala e porta-bandeira?". Assim, ele começou o bate-papo que desenhou alguém profundamente identificado com a sua arte, mas também bastante atento para as mais diferentes conjunturas que envolvem este universo.

'As relações com os dirigentes são injustas'

"Não posso falar por todos, e nem quero, pois não tenho essa representatividade, mas avalio a situação como um cabo de guerra injusto, muitas vezes temos de um lado um casal esperando a oportunidade de defender o pavilhão oficial de sua escola, e do outro, os dirigentes, com o poder do sim e do não, é injusto. 

Os mais tradicionalistas irão dizer que antigamente se dançava por amor e que casais tinham identidade com a agremiação e que hoje trocam de pavilhão como se trocassem de roupa, mas nenhum casal tem o poder de ir para uma agremiação sem o consentimento do presidente. Essa história é como o caso do ovo e da galinha, mas aqui, sabemos que o que vem primeiro é a decisão da escola".

Jefferson Gomes e o presidente Mantega, na Nenê de Vila Matilde. Foto: Acervo pessoal

'Hipocrisia'

"É hipocrisia chamar de mercenário um casal que ensaia 120 vezes no ano, fora as apresentações e eventos da escola, mais preparação física e mental, e achar normal intérpretes, carnavalescos, diretores e mestres de bateria ganhando valores até 40 vezes mais que o casal! Não nos é dado o devido valor e a grande oferta de casais no "mercado" traz uma questão.

A oferta de casais cria uma situação desagradável pois acaba gerando uma disputa desleal entre as pessoas e uma desvalorização do segmento. Muitas escolas usam isso para sempre manter um casal 'barato', sem poder de argumentar, pois tem outro já esperando para dançar por menos da metade daquele que já não ganha bem. Minha análise é que a situação pode melhorar, e muito, a desvalorização do quesito na questão financeira se dá também porque 'treinadores de casal' ganham mais do que o casal, ou o próprio casal nem ganha! Não tenho medo de falar o que penso pois minha situação com meu presidente e diretoria é muito clara.

Dar o coração pelo pavilhão que defende, não significa que você não precisa receber por isso, pois junto com o coração, vai o tempo, roupa, gasolina, sapato e tantas outras coisas", detalha Gomes que logo em sua estreia pela Nenê de Vila Matilde faturou o Prêmio SRZD Carnaval SP 2015 na categoria revelação.

Jefferson Gomes. Foto: Acervo pessoal

'Falta tato para algumas diretorias' 

"Vemos muitos casais que não têm suporte ou estrutura nenhuma por parte da escola: nem financeiramente, nem em investimento em fantasia, e assim, acabam por não executar um bom trabalho, ou até executam, mas o resultado não vem, pois pegaram a fantasia no dia do desfile ou então trabalharam o dia inteiro e a escola não se preocupou sequer em pagar um quarto no hotel para que o casal tivesse um descanso mínimo para poder descer a pista um pouco mais tranquilo. Acredito que o que acaba faltando é um pouco de tato de algumas diretorias.

É preciso sentir e entender o que o casal que defende aquele pavilhão mais precisa para dar o resultado que a escola espera. Não adianta colocar o Michael Schumacher para disputar a Fórmula 1 dirigindo um fusca e esperar que ele traga o resultado", compara.

'Profissionalização e recurso financeiro, menos para os casais...' 

"O Carnaval se profissionalizou muito e as escolas cada vez mais adotam não só um discurso, mas também o formato de empresa nas suas gestões, mas, quando se trata de casal, sempre usam a questão do amor ao pavilhão para que o peso do quesito não se reflita na questão financeira.

Se tem para todos, acredito que tenha que ter para o casal também. O casal quando está montado para uma apresentação gastou em torno de mil reais cada no conjunto todo, roupa, sapatos, cabelo e maquiagem. Quantas apresentações fazemos no ano? Quantas festas oficiais em nossa própria quadra, eventos políticos ou da própria Liga? Acredito que profissionalizar o Carnaval e os principais segmentos e deixar o casal de fora é um erro que se reflete na nota", protesta.

'O julgamento do concurso é feito por pessoas que entendem do quesito' 

"Os balizamentos são muito bem colocados, e isso deixa bem claro 'o que o jurado quer' no desfile, mas algumas justificativas acabam ainda sendo muito subjetivas, em alguns casos, deixando uma lacuna na pontuação do balizamento que acaba gerando conflito no entendimento do casal quanto ao erro apontado, e isso faz com que o casal pontuado não consiga corrigir um erro ou falha apontada pelos julgadores de um ano para o outro, mas isso é algo que vem diminuindo.

Jefferson Gomes. Foto: SRZD - Cláudio L. Costa

A condução da Liga-SP fazendo as reuniões individuais para esclarecimento, foi algo extremamente inteligente e produtivo, fazendo com que muita coisa seja esclarecida. O quesito está muito bem representado pela coordenadora de jurados, e pelos jurados, pois são pessoas que, além de ter o conhecimento didático, também possuem o conhecimento prático.

Esse fator, pelo menos para mim e para a Janny, gera uma confiança e uma tranquilidade. Nos faz saber que as pessoas que nos julgam de fato entendem o que estão julgando, e o formato de julgamento faz com que a cada ano o casal apresente um trabalho ainda mais técnico, mas que obrigatoriamente não fuja das tradições.

Isso aumenta o nível da dança de todos e engrandece o espetáculo", analisa citando sua parceira de dança, a primeira porta-bandeira matildense Janny Moreno, e relembra 2016:

"Defender o pavilhão de uma escola de samba do tamanho da Nenê de Vila Matilde não é algo comum, a energia é diferente, a tradição pesa! Dançar ao olhar de pessoas que foram precursoras da história do samba, é algo que, de fato, tem um peso maior para quem é observado, um elogio de uma baiana ou um conselho de um membro da Velha Guarda é algo muito grande.

O conjunto de tudo isso foi fundamental para o resultado final, que foi a nota máxima e o reconhecimento da comunidade que, mesmo antes da nota, já nos abraçava agradecendo pelo ano de dedicação que tivemos", conta deixando agradecimentos e uma mensagem aos sambistas paulistanos que aguardam mais uma exibição de gala na folia da cidade:

"Impossível não agradecer a minha parceira Janny Moreno que apostou em mim, sem pestanejar, a minha namorada Aninha, que está sempre ao meu lado me dando força e torcendo por mim, e ao meu presidente Mantega, que deu a oportunidade de tornar o sonho de um menino em realidade. Destaco também minha equipe de guardiões, harmonias, apoios e ateliês, na figura de Bruno Oliveira.

Espero que todos entendam que o meu desejo ao responder as perguntas que me foram feitas, é contribuir com o Carnaval. Somos artistas que representam essa cultura popular e a melhor estrutura para todos os segmentos só vai torná-lo cada vez maior, trazendo visibilidade e propagando nossa arte pelo mundo. Agradeço ao SRZD por sempre ceder o espaço para que o sambista, além de mostrar a sua arte, também possa colocar o seu ponto de vista sobre questões como estas abordadas na entrevista", conclui Jefferson.

Jefferson Gomes e Janny Moreno. Foto: SRZD - Cláudio L. Costa

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Comentários
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    06/07/2016 15:37:24juarez j de lacerdaAnônimo

    Concordo Janio ...mais infelizmente é isso que acontece...mais as pessoas de má fé com o samba estao de dias contatos...chega de pilantragem com o dinheiro dos impostos que pagamos a prefeitura e que se reverte como premios entre outras ajudas para as escolas de samba nao quero generalizar nenhuma escola, pois existe pessoas serias com proposito..o duro é ver uns Pai João que não conhece po.. nenhuma de carnaval a frente de algumas escolas...sem dar satisfação do numerario que corre dentro da escola enfim ainda verei essas pessoas se fu...na mais grosseira falada por ser humano...

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    04/07/2016 13:21:15Jânio RodriguesAnônimo

    Realmente é justo mas se começar a pagar uns e outros vai se abrir um precedente gigante e todo mundo vai querer ganhar, ritimistas, baianas, apoio, comissão de frente, componentes em geral e aí não vai dar certo, o que falta é a escola ser mais transparente e abrir seu livro caixa, saber agradar a todos sem previlegiar ninguém, por exemplo quando a escola conquistar o titulo do carnaval oferecer um almoço, fazer uma festa com churrasco boca livre e assim agradecer a todos que fizeram parte da conquista, não é só pegar o prêmio de Hum Milhão e não prestar contas a niguém como muitos presidentes fazem.

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