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Carlos Fernando Cunha

Carlos Fernando Cunha

CARNAVAL. Carioca, morador de Juiz de Fora/MG há 15 anos. Ritmista, cantor e compositor com três CDs gravados. Pesquisador e Professor da UFJF.

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04/07/2016 12h20

Alô, Mestre Mug!
Carlos Fernando Cunha

Escreveu Martinho da Vila em "Pra tudo se acabar na quarta-feira", samba-enredo da Unidos de Vila Isabel: "Os foliões são embalados pelo pessoal da bateria". Pois não lembro de roda em que eu não tenha cantado este samba de 1984, o estopim do meu caso de amor com a Vila. E, volta e meia, ao final do verso citado, incluo frase que homenageia um grande personagem do Carnaval carioca: "Alô, Mestre Mug"!

Amadeu Amaral, o Mug, é daquelas pessoas que todos gostam de estar perto e conviver. O presidente de honra da bateria da Unidos de Vila Isabel é mestre também em distribuir sorrisos e angariar admiradores por onde passa. No ano de 2010, em sua casa, batemos um papo em forma de entrevista que gravei e carreguei comigo. Após trinta anos (1979-2009), Mug deixava o cargo de mestre de bateria da Vila. Neste texto, recupero parte das memórias do querido Amadeu sobre sua história, a nossa Vila e os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Nascido em 17 de dezembro de 1950, no bairro de Bonsucesso, Mug teve uma infância sofrida, perdendo a mãe aos onze anos de idade. O pai, na luta do trabalho, invariavelmente tinha que deixar Amadeu e suas irmãs com parentes. Aos treze anos, Mug foi morar com a irmã mais velha no bairro de Vila Isabel. Na Vila ficou, mas esbarrou na ordem do cunhado de cerrar as portas da casa da Petrocochino às 22 horas. Foi então morar na Rua Conselheiro Correia, próxima à região chamada de Terreirinho, onde conseguiu viver a juventude com mais liberdade.

Na época, início dos anos 60, Mug ainda não frequentava a Unidos de Vila Isabel: "Eu nem gostava de samba. Frequentava uns bailes por ali. E gostava de bater macumba". Nas peladas de futebol, na convivência da Rua Nova e das vielas conheceu a rapaziada da bateria, de quem lembra com saudades: "Bibico, o maior surdo de primeira da escola. Vlandre, que foi meu mestre. Bebeto, Guaracy, Mauro do Terreirinho. Só tinha craque".

Já li textos sobre Mug que firmam sua entrada na bateria da Vila em 1967. No entanto, em nosso bate-papo, Amadeu contou que seu primeiro desfile foi em 1969: "Tinha um cara que se chamava Adauto. Ele saía todo ano na Vila vestido de mulher. Eu batia na curimba dele, no Terreirinho. No Carnaval de Ilusões, ele veio vestido de Saci. Fiquei interessado naquilo e quando veio o Yayá do Cais Dourado eu passei a sair na escola, em 69, por causa do samba". As referências feitas aos enredos e sambas, de maneira correta em seus tempos, indicam precisão na memória de Amadeu.

Na bateria dirigida por Mestre Ernesto, Mug começou tocando tarol, o instrumento mais característico da Vila Isabel: "Eu tocava tarol. Era tarol de couro. Gostava de um tarolzinho no ombro". Durante os primeiros anos da década de 70, em momentos de afastamento do diretor, Mug, junto com Moacir e Tuíca, chegou a assumir a direção da bateria. Em 1978, conduzida por Ernesto, a Vila Isabel foi rebaixada para o grupo 1B. Mug assumiu a bateria sozinho e, em 1979, foi campeão em seu primeiro desfile como mestre, levando a escola de volta ao grupo principal: "Em 78 teve um problema com os diretores. O Ernesto tirou 7, 8 e 9. E saiu para o Salgueiro. Veio um tal de Murilão da Boca do Mato, trazido pelo Martinho. Veio o Bigode da Portela. E a rapaziada não aceitou. Foi nomeado diretor Moacyr Telhado. Até Beto Sem Braço foi diretor de bateria da Vila Isabel. Um dia eu cheguei na quadra e me deram a chave do quarto. Abri e botei a bateria pra tocar. E não saí mais".

Ao relembrar os desfiles da Vila Isabel, Mug fez menção especial a dois carnavais. Falou sobre 1988, Kizomba, a festa da raça, desfile reconhecido e louvado por quase todos os entendidos como um dos maiores de todos os tempos da Sapucaí. Amadeu disse que a escola mexeu com o povo do samba: "A Vila Isabel estava desacreditada, mas quando cheguei no barracão e vi o carro dos orixás, pensei: a Vila vai ser campeã". Neste ano, a bateria da Vila ganhou o prêmio Estandarte de Ouro, mas Mug, devido a problemas particulares, na hora H, quase não desfilou.

Amadeu Amaral falou do desfile de 1989 como a sua melhor passagem com a bateria da Vila Isabel pela Sapucaí: "Direito é Direito foi lindo. A minha melhor bateria. Deu tudo certo. Tirei tudo 10, mas fomos roubados. O título era nosso. Eu não engulo isso até hoje".

Trechos do desfile da Unidos de Vila Isabel em 1989:

Ao analisar as características da bateria da Vila Isabel, Mug afirma que é uma das mais cadenciadas, cujas afinações dos instrumentos são mais graves, especialmente caixas e surdos. Para ele, "o segredo da nossa bateria está nos taróis, nas caixas e nos centradores. Eu sempre tive bons times nestes instrumentos e ninguém toca feito nós".

Foto: Acervo PessoalE o que faz um bom mestre de bateria, Mug? Ele espondeu que é preciso conhecer os instrumentos, mas o principal "é saber tratar os batedores, ter bom papo e ser vaselina". Citou os mestres de sua preferência: Vlandre e Coé. Mas, em sua opinião, "o Louro era o melhor deles todos. Ele tocava bem todos os instrumentos. Tocava até violão de sete cordas". E ainda afirmou que, fora a bateria da Vila Isabel, o melhor ritmo que ele já ouviu na avenida esteve com a bateria da Unidos da Tijuca, na época de Mestre Celinho (que esteve à frente da escola entre 1999 e 2007).

Amadeu Amaral é Benemérito da Unidos de Vila Isabel, Presidente de Honra da sua bateria e, em 2014, recebeu o certificado Sou da Vila e não tem jeito!, do Departamento Cultural que tem feito um excelente trabalho em prol da memória da escola. Ao longo da vida, Mug recebeu muitos troféus, placas comemorativas e homenagens, a mais recente, a inauguração do Campo Amadeu Amaral - Mestre Mug, situado na Rua Correia de Oliveira (Favelinha).

Eu sonho em desfilar na Bateria Amadeu Amaral Mestre Mug.

Que a Unidos de Vila Isabel avalie a ideia. A diretoria da escola pode ouvir seus ritmistas sobre a sugestão, um bom caminho. E sigamos com Mestre Wallan, sobrinho do homem, fazendo valer o encanto da batuta Amaral na Sapucaí.

Axé, Mestre Mug!

Confiram os depoimentos de Wallan Amaral, Ruça, Décio Bastos, Gera e Ed sobre nosso Mestre Mug, quando da homenagem do Departamento Cultural da Unidos de Vila Isabel em 2014:

Ô sorte!

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