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12/07/2016 22h36

Leia a sinopse do enredo de 2017 da Unidos de Vila Isabel
Redação SRZD

Com o título "O som da cor", a Unidos de Vila Isabel cantará na Marquês de Sapucaí "a origem africana dos estilos musicais no continente americano". O carnavalesco Alex de Souza contará como esta força rítmica, trazida pela diáspora negra e que foi semeada no novo mundo, nos tempos coloniais, originando a moderna música ocidental, que repercute em todo o planeta.

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Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Confira a sinopse e entenda o enredo de 2017 da escola de Noel Rosa:

 "O som da cor"

Ouço um tom de pele. Vejo a música que embala. Me arrepio no toque da

batida, saboreando o ritmo que dela exala. Sinto cheiro daquela gente sofrida,

no brilho da voz que não cala. Esta é a saga daqueles que migraram

forçosamente, para um já velho novo mundo. Após séculos no cativeiro,

tingiram estas Américas e as fizeram crioulas. Gerações que se seguiram

colheram os frutos desta musicalidade, semeada por seus ancestrais. Vozes e

percussão revelando seus ritmos, no bater do pé e na palma da mão.

Instrumentos inventados ou adquiridos de outras culturas.


De início, navego milhas, nas ondas latinas, aportando nas Antilhas, como os

hispânicos reinóis, seus descobridores. Entre chocalhos e maracas, o canto e a

dança, ao som da habanera cubana. Do culto ao etíope monarca africano,

nasce o movimento rastafári caribenho, disseminado pelo reggae jamaicano.

Seguindo para o sul da colônia, conhecemos a cúmbia, "dança dos escravos"

da Colômbia. No Uruguai, a dança com atabaques tem como candombe seu

codinome. Bantos, de origem, seguem para a prateada Argentina, muitos

partindo do Brasil. Embarcavam, levando em si uma cultura genuína, que,

transportada em cada cargueiro, chega ao porto de Buenos Aires vinda do Rio

de Janeiro. Assim nascem a milonga e o tango, seu irmão, que no dialeto banto

quer dizer círculo, baile, tambor ou reunião.


Além das coroas ibéricas, outros reinos colonizaram o continente; ingleses e

depois seus colonos americanos, que se proclamaram independentes,

disputaram com espanhóis e franceses novos territórios. E neles aportaram

navios negreiros; a mão de obra escrava, nos brancos campos de algodão, era

despejada. Proibidos de falar, cantavam. Cantando, dividiam dor, amor e

cânticos de louvor. Blues, ou "azuis", era referência às pessoas de pele negra e

à melancolia nas plantações. Pai do jazz, que contém um banzo, uma saudade.

Nova Orleans foi o berço. Os instrumentos das bandas marciais, uma vez

abandonados, após a derrota dos sulistas na guerra civil, foram reaproveitados.

Segregados, os irmãos de cor dedilhavam o teclado em igrejas para os fiéis.

Restava-lhes pouco espaço, somente em bares, clubes e bordéis. Assim o

"ritmo" vai dominando o suingue do compasso. Do boogie-woogie e do jump

blues, nasce um novo gênero que, ao som de guitarras, pelo mundo inteiro, a

juventude conquistou: "Aumenta que isso aí é rock'n roll". Está na alma, está no

soul! Na pista disco. No funk e no techno. Negro é rap, é hip hop. Ser negro é

ser pop.


Agora ouço, das terras brasileiras, histórias que a memória traz. Bantos,

iorubás, jejes, minas e hauçás, sobrevivendo entre a dor e a gana, na ex-

colônia lusitana, deram início a uma íntima relação entre música e fé. E ao seu

culto chamaram "calundu", e em seus "batuques" na mata aberta, nos cafundós

do sertão, uma cultura se manifesta. "Se negro festeja não conspira", diz o amo

branco, que assim permitia. Na roda dos negros, virou lundu, uma dança

sensual que, junto à fofa e ao fado, atravessou o Atlântico e conquistou

Portugal. Este último se une aos cantos dos mouros, às cantigas dos

trovadores, da saudade inerente dos marinheiros. Consolida-se como canção

solista, inspirada na dança estilizada. Revela-se que o grande orgulho luso, ora

pois, tem um pé na senzala.


Nas ruas daqui, o toque da zabumba chama o povo para o festejo, ao

relembrar a coroação do rei do congo num sincrético cortejo, das embaixadas

da nobreza negra, sua corte e seus vassalos. A devoção da irmandade negra

católica à padroeira dos escravos. Salve Nossa Senhora do Rosário dos

Pretos, salve São Benedito. Batem tambores, marimbas e ganzás, nas batidas

de caxambus. Dos reisados, de Chico Rei coroado e dos maracatus.


Festejando em louvação, simulam lutas nos autos negros que saúdam a Divina

Senhora da Purificação. Na tradição nagô, o "candomblé de rua", na cadência

do ijexá com seus xequerês e agogôs, é representado pelo afoxé. E nos trios

elétricos brincam ao ritmo do axé. Dos grandes mestres e batutas, choram

flauta e cavaquinho. As modinhas, polcas, maxixes, pilares do meu carinhoso

chorinho. E nos grandes encontros se fez o jongo, conhecido como caxambu e

corimá.


E o samba, que vem de "semba", a angolana "umbigada", mexe e remexe nos

seus requebrados. Sincopado e malandreado. Vem exibir, com as palmas e a

resposta, os seus passos e rebolados. Meu tamborim de bamba, valorizando a

batucada. Com as bênçãos de Ciata e das "tias baianas", na Praça Onze e na

Pedra do Sal, na Pequena África carioca. "Brasil, esquentai vossos pandeiros,

iluminai os terreiros", que a negritude tem a primazia. E é dessa cor que falo,

que meus sentidos expressam, naquele que é considerado o maior espetáculo.

Trazendo os matizes de cada pavilhão, a escola que o samba fez. E ao som

das cores da Vila, que é Azul, Branca e Negra também, vem kizombar mais

uma vez.

ALEX DE SOUZA

Imagem: Divulgação

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Comentários
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    18/07/2016 19:35:21EL AFARMembro SRZD desde 09/01/2013

    Este carnavalescotem um excelente trabalho artístico, tanto cenográfico, tanto como de figurino, seus traços são excelentes e de fácil leitura, realmente merece um título.É lamentável o que essa Globosta e a Desliga do samba estão fazendo com o desfile das escolas de samba . Tudo para agradar a vênus platinada, trocam o horário, diminuem o tempo e estes bostas de julgadores que não sabem julgar com coerência e imparcialidade. Sejamos sinceros, de uns anos pra cá alguns títulos são totalmente contestáveis e alguns rebaixamentos que se percebe que o que está sendo julgado é a bandeira e não o desfile em si. Carnaval do Rio está literalmente indo por água a baixo, só sobrevive por causa do peso das bandeiras das escolas , principalmente das tradicionais. Almir da Silva Lima, seus comentários são de uma lucidez e de demonstração de quem realmente sabe do que está falando, não tem nada a ver com uns fanatismos que aparecem aqui pra despojar arrogância e insanidade.

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    14/07/2016 10:54:32Almir da Silva LimaMembro SRZD desde 11/10/2011

    É ótima esta sinopse do enredo & tema ´O som da cor´, que foi criado e será desenvolvido pelo muito bom/ótimo carnavalesco Alex de Souza, falta-lhe um título para consagrá-lo, para o Carnaval 2017 da Vila Isabel. Apesar de em certo trecho da sinopse existir a equivocada expressão ´negritude´(sic). Deve-se enaltecer o título. Isto em função do aspecto filosófico-antropológico de falar em (cor) da pele humana. Não em ´raça´ conforme ocorreu no antológico & merecidíssimo enredo campeão 1988 ´Kizomba a festa da raça´ dos carnavalescos Milton Siqueira, Paulo Cesar Cardoso e Ilvamar Magalhães, ainda que tenha obtido notas 10 unânimes tanto em enredo quanto em samba-enredo. Explicando, a expressão ´negritude´ é incorreta porque advém da reacionária ´filosofia da negritude´ do político e escritor senegalês & serviçal do colonialismo e imperialismo da França, Leopold Senghor (1906 a 2001). Já na injusta 3ª colocação da Vila no Carnaval 2012 enredo ´ Você semba lá... Que eu sambo cá! O canto livre de Angola´ da carnavalesca-mestre Rosa Magalhães, acabou levando dos ´suspeitos´ julgadores da LIESA quatro notas 9,8 nesse quesito e a descartada 9,9 + 10 + 10 + 10 em samba-enredo. Por isso soa como precipitação ou fanatismo pentecostal adeptos já falarem que a Vila irá ´disputar e muito´ o título em 2017, ao invés de afirmarem que o objetivo é voltar no desfile das campeãs. O que exatamente não ocorre desde o merecidíssimo título de 2013. De 2011 pra cá, esse foi o último título conquistado por uma agremiação que apresentou desfile alegre, apoteótico, contagiante, arrebatador, competitivo e emocionante. Por isso merecidamente campeã. Haja vista, não foi esse o caso da campeã 2016. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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