SRZD



Cláudio Francioni

Cláudio Francioni

MÚSICA. Carioca, apaixonado por música. Em relação ao assunto, estuda, pesquisa e bisbilhota tudo que está ao seu alcance. Foi professor da Oficina de Ritmos do Núcleo de Cultura Popular da UERJ, diretor de bateria e é músico amador, já tendo participado de diversas bandas tocando contrabaixo, percussão ou cantando.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



13/07/2016 11h41

Titãs sem Paulo Miklos: Cedo ou tarde demais para dizer adeus
Cláudio Francioni

Comentário de Leonardo Jorge:

Caiu como uma bomba o anúncio do desligamento de Paulo Miklos dos Titãs, banda que ajudou a formar no já longínquo ano de 1982. Adotando o mesmo discurso de antigos companheiros, partiu para alçar novos voos e dedicar-se a projetos individuais como cantor, compositor e ator. Detesto assumir o tom mais pessimista, mas creio que Branco Mello, Tony Belloto e Sergio Britto terão um enorme desafio para manter a banda viva e relevante. Mais adiante eu explico o porquê disso.

A verdade é que nunca fui um fã incondicional dos Titãs, embora jamais tenha desprezado sua contribuição para o rock nacional. "Cabeça Dinossauro" (1986), "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas" (1987) e "O Blesq Blom" (1989) são marcos numa época em que muitas bandas lançavam grandes trabalhos. Mesmo com a saída de Arnaldo Antunes, que eu via como principal integrante do grupo, ainda conseguiram emplacar os bons "Tudo ao Mesmo Tempo Agora" (1991) e "Titanomaquia" (1993). Isso sem falar do estrondoso sucesso comercial do "Acústico MTV" (1997), que parecia estar na prateleira de todas as casas que frequentava na época. Depois disso, parece que perderam o rumo. Mantiveram-se numa vibe mais radiofônica, pouco inspirada e nada inspiradora. Se tornaram uma banda sem identidade.

Passaram a atirar para tudo quanto é lado, com mais um disco de regravações ("Volume Dois" - 1998), um disco ao vivo ("Sempre Livre Mix - Titãs e Paralamas Juntos ao Vivo" - 1999) e um disco de covers ("As Dez Mais" - 1999 (no que diabos eles estavam pensando??)). Só lembrei deles novamente em 2001 e não foi por causa de seu novo disco de inéditas ("A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana"), mas por conta da morte trágica do bom guitarrista Marcelo Fromer. 

Sempre tive para mim que a saída do Nando Reis em 2002 seria a chance para o retorno à sonoridade consagrada do passado. Ledo engano. Mais trabalhos irrelevantes, mais discos ao vivo, mais baixas na banda. Em 2010, foi a vez do baterista Charles Gavin abandonar um barco praticamente naufragado. Só em 2014, com o excelente "Nheengatu", veio o disco de inéditas que se esperava deles: pesado, sujo e controverso como jamais deveria ter deixado de ser.  

Quando tudo parecia voltar aos trilhos, Miklos deixa a banda e, na minha opinião, é um golpe que será difícil de ser assimilado. Desde a saída de Arnaldo Antunes em 92, era Miklos quem melhor personificava o espírito da banda, liderando os demais com sua voz rasgada e marcante, seja cantando os clássicos como "Bichos Escrotos" e "Diversão" ou até mesmo aquelas canções piegas dos anos mais esquecíveis. Mas deve-se sentir mesmo é a falta da energia e talento que ele levava ao palco e que, pessoalmente, não vejo na mesma intensidade nos Titãs remanescentes. Se é cedo ou tarde demais para dizer adeus, o tempo dirá. Talvez o acaso os proteja.

Paulo Miklos. Foto: Reprodução/Facebook Titãs

Comentário de Pedro de Freitas:

Um dos ícones do BRock dos anos 80, os Titãs tiveram uma característica que foi o diferencial da banda, e que definiu sua evolução. Enquanto as demais bandas do período em geral contavam com uma figura carismática e dominante (Herbert, nos Paralamas; Cazuza, no Barão Vermelho; Renato Russo, na Legião Urbana; e por aí vai), o trabalho de criação nos Titãs sempre me pareceu comunitário, com uma divisão mais igualitária dos créditos e dos holofotes. Os Titãs eram um caldeirão de influências pessoais aplicadas a um esforço coletivo que multiplicou o resultado final. Nele, era fundida e amalgamada a poesia concreta de Arnaldo Antunes, a veia pop de Nando Reis, o conhecimento MPBístico de Charles Gavin, a pegada rock de Tony Bellotto, e o talento multimídia de Paulo Miklos, com um resultado que potencializava a criatividade e era surpreendentemente coeso. 

Nesse contexto, a saída de Paulo Miklos parece um ponto final de um longo epílogo, em que os atores foram deixando a cena aos poucos. Independentemente do que se seguirá, vou preferir ouvir a trinca de álbuns que deixou uma marca indelével na música pop brasileira: "Cabeça Dinossauro", "Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas", e "Õ Blésq Blom". Neles, está registrado o ápice da criação coletiva dos Titãs.


Comentários
  • Avatar
    13/07/2016 15:19:37WilsonMembro SRZD desde 11/01/2012

    Realmente, Miklos era o último dos carismáticos. Branco só tem cara de doidão e uma voz inexpressiva. Sérgio grita ("AA UU" e "Será que é isso que eu necessito") e canta Epitáfio - que é uma bela canção, aliás. E o Toni... toca guitarra e é marido da Malu Mader. Fará falta o pródigo da vez. Dificilmente veremos outro Nheengatu com os três que sobraram. Aguardemos, pois.

Comentar