SRZD


20/07/2016 10h27

Mikari, a primeira japonesa a desfilar em ala de passista no Rio
Marcello Sudoh*

Primeira japonesa a desfilar em ala de passista no Sambódromo, Mikari Uehara, mesmo sem saber, participou de uma época áurea do Carnaval carioca. No final dos anos 80, quando as escolas de samba apresentavam enredos que marcaram profundamente a história do Carnaval, lá estava Mikari, defendedo as cores da São Clemente, da Unidos da Tijuca e do Império da Tijuca. Mikari foi protagonista de belos momentos na Avenida como os desfiles de 1986, 1987, 1988 e 1989. Nove entre dez cariocas gostariam de estar no lugar dela, naqueles anos 80, época em que era muito difícil encontrar estrangeiros desfilando, ainda mais sendo japonesa. Mikari também sambou sobre o comando de uma lenda do Carnaval carioca à frente da bateria. Mestre Marçal dirigiu a bateria da Unidos da Tijuca justamente na época em que Mikari desfilva na escola.

Mikari Uehara. Foto: Acervo pessoal

A primeira vez que Mikari viu e ouviu samba foi no show de uma banda brasileira em Roppongi, bairro semelhante à Copacabana no Rio de Janeiro, cheio de casas noturnas e ponto de diversão de turistas. Era verão e a banda fez shows até dezembro. "Fiz amizade com dançarinas e músicos, indo várias vezes ao local para ver as apresentações. Havia uma área de dança bem grande. Foi ali que aprendi a sambar ajudada por esses brasileiros", conta Mikari.

Um ano depois dessa primeira experiência, ela começou a participar do Asakusa Samba Carnival, em Tokyo, o maior desfile de escolas de samba fora do Brasil. O evento ocorre no final de agosto, quando é verão no país. Mikari desfilou em diferentes agremiações, entre elas o Cruzeiro do Sul e Saúde Yokohama. Foi aprimorando seu conhecimento na dança e, naquela época, eram poucas as pessoas que sabiam sambar bem. "O custo da fantasia era muito alto. Por isso, o passista e a passista eram bem valorizados", lembra. O "riscado" de Mikari na Avenida era tão bom que ela foi agraciada com um prêmio especial que havia na época para a melhor passista em desfile. "Fui a primeira a ganhar esse tipo prêmio", conta.

Ainda em 1985, devido à sua performance na Avenida, Mikari ganhou uma passagem de ida e volta ao Brasil. Em fevereiro de 1986, ela voou de Tokyo até o Rio para conhecer o Carnaval carioca. "Queria experimentar o samba de verdade, acumular experiência, retornar ao Japão e trabalhar para que mais pessoas aderissem ao samba", revela.

Mikari Uehara, em 1986. Foto: Acervo pessoalAo chegar ao Rio no Carnaval de 1986, Mikari não conhecia a cidade, nem falava português. A fim de saber se o que ela dançava era mesmo samba, Mikari dançou em bares e na praia. Onde tinha samba, lá estava ela sambando. "Os cariocas viam uma japonesa dançar com ar de surpresa e até achavam engraçado", recorda.

Como ela estava hospedada na Zona Sul do Rio, resolveu visitar a escola mais próxima. Foi assim que ela entrou pela primeira vez na quadra do GRES São Clemente, em Botafogo. "Quando dei conta já estava com uma fantasia da Ala das Frutas, formada por jovens meninas. Foi assim que debutei na Passarela do Samba, embalada pela batucada", lembra Mikari.

Em 1986, a São Clemente desfilou no antigo Grupo1B e foi vice-campeã, com um enredo irreverente sobre as dificuldades que passavam os brasileiros. Em 1987, a escola retorna ao Grupo Especial (na época Grupo 1) com a futura passista japonesa a bordo, desta fez na Ala do Picolé. Em um determinado momento do desfile, Mikari foi puxada pelo braço por um diretor e levada até a frente da bateria. "Comecei a sambar ali, na frente de 300 ritmistas. Foi como se estivesse no posto de rainha da bateria", conta. Por desconhecer a história dos desfiles das escolas de samba, Mikari talvez não saiba que participou de um dos mais importantes desfiles da agremiação de Botafogo. Para muitos, "Capitães do Asfalto" é um dos 10 mais importantes sambas-enredo da São Clemente. Um clássico do gênero. Ainda em 1987, ela desfilou na Rua Graça Aranha, no Centro, pelo Grupo 4, defendendo as cores do Foliões de Botafogo, com enredo falando sobre os orixás. "Para mim, aquele desfile, de uma pequena escola, parecia como a cena do filme Orfeu Negro, compara a passista.

Em 1988, seu terceiro ano no Rio, Mikari desfilou na Ala da Paz, na sua querida São Clemente, e também na Unidos da Tijuca, na Ala do Café, ambas no antigo Grupo1 e se apresentando na mesma noite. "Foi uma correria para chegar na dispersão, correr para a concentração da outra escola e trocar de fantasia", conta. As duas escolas fizeram grandes desfiles e levaram para avenida grandes sambas. Unidos da Tijuca, com "Templo do Absurdo - Bar Brasil", e São Clemente, com o inesquecível "Quem Avisa Amigo É", uma crítica mordaz a poderosa TV Globo.

Mikari Uehara, em 1989. Foto: Acervo pessoalMas Mikari ainda não estava satisfeita. Queria desfilar em alegoria e, finalmente, numa ala só de passistas. Em 1989, ela retorna ao Brasil disposta a cumprir com esse objetivo. Naquele ano, a Unidos da Tijuca desfilou com o enredo "De Portugal à Bienal, no país do Carnaval", falando sobre as artes plásticas no Brasil. Mikari ganhou posição de destaque no alto de uma alegoria que fazia ilusão a obra do artista japonês radicado no Brasil, Manabu Mabe. "Foi a primeira vez que uma japonesa apareceu de destaque numa alegoria no Carnaval carioca. Fui entrevistada pela imprensa japonesa que tinha ido cobrir o Carnaval", conta.

Ainda em 1989, Mikari desceu o Borel, comunidade que abriga a maioria dos componentes da Unidos da Tijuca, e foi para o Morro da Formiga, também no bairro da Tijuca, desfilar pelo Império da Tijuca, no então Grupo 2. O Império desfilou com o enredo "Rio, Samba e Carnaval", mostrando as diversas manifestações carnavalescas cariocas. As passistas desfilaram com fantasias variadas representado cabrochas em blocos, escolas e outras entidades carnavalescas. Mikari estava entre elas. "Meu grupo fazia acrobacias na Avenida. Éramos três homens e duas mulheres. A fantasia era simples: um arranjo de cabeça e uma tanga prateada. No meio da Avenida veio um jornalista nos entrevistar e perguntou se eu era brasileira ou japonesa", explica Mikari, que finalmente viu seu sonho ser realizado. "Naquela época era uma raridade aparecer estrangeiros em ala de passista e em alegoria. Para mim foi uma experiência muito importante", destaca a passista, ao recordar que no Japão, no final dos anos 80, era raro uma japonesa trabalhar como passista de samba, como vemos hoje. Mikari se diz satisfeita por ter colaborado com a divulgação da dança de passista no Japão e por ver, hoje, várias de suas ex-alunas dando aula.

Mikari Uehara, em 1989. Foto: Acervo pessoal

Há 32 anos envolvida com as escolas de samba, Mikari não parou. Participa do Asakusa Samba Carnival, no grupo Canta Brasil, e se orgulha do que aprendeu do Rio e do que pode ensinar no Japão. Muita gente que hoje desfila nas escolas de samba em Tokyo jamais sequer ouviu falar de Mikari. Mas o título de primeira passista japonesa em escola carioca é dela. Não há como contestar.

Mikari Uehara. Fotos: Acervo pessoal

*em colaboração voluntária para o SRZD


Comentários
Comentar

Isso evita spams e mensagens automáticas.