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Carlos Fernando Cunha

Carlos Fernando Cunha

CARNAVAL. Carioca, morador de Juiz de Fora/MG há 15 anos. Ritmista, cantor e compositor com três CDs gravados. Pesquisador e Professor da UFJF.

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21/07/2016 11h11

Anittas e Ludmillas: Uni-vos!
Carlos Fernando Cunha

Prepara que agora é a hora do show das poderosas. Elas descem e rebolam, afrontam as fogosas. São as que incomodam e expulsam as invejosas que ficam de cara quando tocam. Se não está mais à vontade, sai por onde entrei. Quando começo a dançar, eu te enlouqueço, eu sei. Meu exército é pesado e a gente tem poder. Ameaça coisas do tipo: Você! (Show das Poderosas)

Olimpíadas. Foto: DivulgaçãoOs Jogos Olímpicos Rio 2016. É tão raro o acontecimento, uma edição da mais tradicional competição esportiva do planeta em nossas terras, que me atrevo a não escrever sobre o mundo do samba nesta semana. Já entrei no clima olímpico!

Os Jogos, bem sabemos, vem da Grécia Antiga, marcadamente organizados por questões religiosas. A partir de sua retomada em Atenas, 1896, os Jogos entraram em sua fase moderna, com a competição assumindo outros contornos: saúde, educação, política e economia.

Desde 2007, quando o Brasil oficializou sua candidatura a sediar o evento, num sugestivo 7 de setembro, os Jogos não saíram mais das páginas de jornais, das matérias de canais de televisão e das redes sociais.

Uma oportunidade para o país!

Um desperdício de dinheiro público!

As opiniões e análises sobre os Jogos Olímpicos Rio 2016 são variadas: amorosas ou rancorosas.

Chamo a atenção para a cerimônia de abertura dos Jogos. Um dos momentos mais aguardados e belos da competição, sem dúvida. Os diversos países que sediaram os Jogos Olímpicos ao longo do tempo mostraram ao mundo sua história, sua cultura, sua face. Atletas, autoridades, público e artistas dividem o espetáculo. Como esquecer o acendimento da Pira Olímpica em Barcelona, 1992?

E o que esperar da cerimônia de abertura dos nossos Jogos Rio 2016?

As notícias das últimas semanas revelam a presença na festa de escolas de samba do Rio de Janeiro, coreografias de Débora Colker, desfile de Gisele Bündchen, cantorias de Caetano Veloso, Giberto Gil, Elza Soares e Paulinho da Viola. Até aqui, elogios de todos os lados. No entanto, bastou divulgarem os nomes de Ludmilla e Anitta como participantes do evento que muitas pessoas, através das redes sociais, voltaram sua ira contra a organização dos Jogos e as próprias artistas. Mais um gol da Alemanha, muitos escreveram!

Vamos pensar um pouquinho. Quais argumentos baseiam essas críticas contra especificamente Ludmilla e Anitta? Gosto musical pessoal, certo? Mas será que é somente isso? Será que há machismo, racismo, sexismo, moralismo, preconceito de classe social?

Ficam as perguntas para nossa reflexão. Ainda que seja óbvia a resposta.

Lembrei do samba. Do velho samba do início do século XX. Do samba perseguido nas esquinas, nos botequins e nos terreiros, como disse Sargento.

Lembrei do funk. Do funk brasileiro que desde a década de 1980 apanha de preconceito e discriminação.

O que mais me incomoda nessas críticas às presenças de Anitta e Ludmilla na abertura dos Jogos é o fato de que perderemos, nós brasileiros/as, mais uma vez, perderemos a chance de valorizar e admirar aquilo que mais nos caracteriza enquanto nação: a diversidade. Somos um povo por ela marcado e abençoado. Nossa identidade é múltipla. Somos negros, brancos, cafuzos, mamelucos, espíritas, umbandistas, evangélicos, gays, machos, fêmeas, forrozeiros, sambistas e rockeiros. Somos muitas outras coisas conjugadas. Somos um Brasil que esbanja cores, sonoridades, cheiros e sabores. Mas parte de nós parece cega. Ou se vê de outra maneira no espelho.

Amigos e amigas, já passou da hora de fazermos da alteridade a nossa bandeira.

Que venham os Jogos Olímpicos Rio 2016!

Axé!

Ô sorte!

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