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Dicá

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CARNAVAL. Ativista negro, embaixador e cidadão samba paulistano de 2004, é compositor, batuqueiro, passista e fundador da Velha Guarda da Rosas de Ouro de Vila Brasilândia, junto com a embaixatriz do samba Maria Helena. É pesquisador cultural e estudioso da cultura popular brasileira e afrodescendente.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



22/07/2016 11h01

Samba-enredo: Até que ponto vamos chegar?
Dicá

Penso que os compositores de escola de samba estão se tornando cada vez mais raros.

Nos dias de hoje poderíamos, com raras exceções, afirmar que os compositores não são mais da "escola de samba".

Samba-enredo: Até que ponto vamos chegar? Foto: Reprodução

Infelizmente já não existe aquela fidelidade ao pavilhão, aquele amor à escola como nos tempos idos e a resposta é sempre a mesma:

"As coisas mudaram, quem vive de passado é museu". E digo eu, quem vive sem passado é árvore sem raiz! Pau podre...

Antigamente os compositores, em sua maioria, eram ligados a uma escola de samba, sentiam orgulho de representar a verve poética daquela agremiação.

Por incrível que pareça, não era um reality show, tampouco um "the voice"...

Faziam parte de uma "escola de samba", tanto para aprender, como para ensinar. Aliás é bom ressaltar que compositores compunham mesmo!

Raramente as obras tinham mais que três compositores e o samba de enredo não eram avaliado pelo árduo, enfadonho e caro processo expositivo dos dias de hoje. Não havia pessoas bancando o samba em troca do seu nome nas obras ou qualquer outro artifício menos nobre.

Naquele tempo, colocar o nome num samba era uma questão de dignidade, de verdade, de honra, e podemos dizer até, de vergonha na cara. Quando vejo um samba composto por um batalhão de pessoas, fico imaginando como foram feitos os versos...

Um leilão? Sorteio? Chute? E muitas vezes o samba fica como uma colcha de retalhos, um emaranhado de versos, um quebra-cabeça, muitas vezes, de difícil compreensão, e depois de escolhido é digerido pela escola através de um processo exaustivo de ensaios coreografados.

Samba-enredo: Até que ponto vamos chegar? Foto: Reprodução

Sabemos que não é possível colocar todo enredo montado pelo carnavalesco numa letra capaz de explicitar o que a escola vem mostrando. Geralmente os compositores são sugestionados pelos carnavalescos (o que não ocorria no passado) a colocar o que ele (carnavalesco) entende como pontos principais da "peça".

Assim, o ponto principal do enredo vem centrado no que o carnavalesco expõe nas sinopses e nas palestras feitas aos compositores...

Eu quero isso, aquilo ou aquilo outro...Diante desse "modus operandis" a composição fica meio direcionada gerando quase sempre "rimas forçadas" em formas de versos e refrões definidos. O samba não é livre, tem amarras, é predeterminado, vêm de uma espécie de fórmula do tipo:

Dez linhas de história, quatro linhas para o primeiro refrão, dez linhas de história, quatro linhas para o segundo refrão, e lá vamos nós entre rimas forçadas e coreografias num desfile alucinante.

Até que ponto iremos chegar? As alas de compositores encontram-se em extinção, consequentemente os samba de quadra também. Passistas, cabrochas, pandeiristas, carnavalescos, rainhas de bateria da comunidade, puxadores de samba de enredo e baterias com mestres genuínos então, nem se fala.

Este pessoal está cada vez mais raro de surgir nas "salas de aula", que antes eram extensões dos mágicos terreiros que denominávamos de "quadra". Viraram objetos de estudo. Aí eu pergunto: Onde estão as escolas?

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Comentários
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    23/07/2016 16:46:05SamoraAnônimo

    Concordo plenamente! Existem muitos compositores que não entram na disputa porque não tem condições financeiras. As chamadas "firmas" e as próprias agremiações encarecem a disputa, basta observar que são sempre os mesmos times nas 14 escolas. E isso, ao meu ver, não é evolução e sim retrocesso. Uma vez que, para que o samba tenha visibilidade; os interpretes tem que ser de grife e o show pirotécnico. Não estou dizendo que a obra não mereça investimento, mas, os custos são surreais e é por isso que uma grande quantidade de pessoas de classe média assinam um samba. Escrever samba virou coisa de burguês!

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    23/07/2016 12:13:43PrimoMembro SRZD desde 17/08/2016

    Caros amigos, acredito que o problema não esta nas mudanças, e sim na essência que esta se acabando. Basta ver o que as escolas estão fazendo com seus compositores, praticamente obrigando a gastar em um cd e cortam sem mesmo dar-lhe a chance de apresentar -se para a comunidade.Basta ver nas letras, que falta poesia, basta ver que ñ há mais cadência nas baterias. Nos ultimos 10 anos praticamente são os mesmos compositores que ganham em varias escolas, praticamente com as mesma melodias fugindo de uma nota lá outra aqui. A ala de compositores das escolas quase não existe. Hoje ouvimos sambas oba oba e sem historia, sem sentimento sem alma.

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    22/07/2016 22:56:15A verdadeAnônimo

    Grande Dica, respeito a sua opinião. Mas vc deixou de citar em seu texto que todas as escolas do especial ligam e enchem o saco destas chamadas "firmas" para fazerem o samba e encher a quadra de torcida,gastar com festa ingresso e garantir o sucesso da sua eliminatória. Quem dera o carnaval ainda fosse na Tiradentes. Tudo muda o carnaval dos 70 80 e 90 já foi. Infelizmente pra muitos não irá voltar. É dar murro em ponta de faca pois nada irá mudar.

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    22/07/2016 22:54:48A verdadeAnônimo

    Grande Dica, respeito a sua opinião. Mas vc deixou de citar em seu texto que todas as escolas do especial ligam e enchem o saco destas chamadas "firmas" para fazerem o samba e encher a quadra de torcida,gastar com festa ingresso e garantir o sucesso da sua eliminatória. Quem dera o carnaval ainda fosse na Tiradentes. Tudo muda o carnaval dos 70 80 e 90 já foi. Infelizmente pra muitos não irá voltar. É dar murro em ponta de faca pois nada irá mudar.

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    22/07/2016 20:43:04@voceAnônimo

    Senhor Alexandre Roni,....MUDANÇA, MODIFICAÇÃO....estas palavras não ficariam melhor em seu texto, ao invés de EVOLUÇÃO?...Oque eu vejo hoje nas quadras e nos desfiles é tudo, menos evolução. Estava relembrando, aqui no FACE, desfiles da déc. 80. Há como comparar um desfile fluido, alegre com os desfiles de academia fitness de hoje ? Então não diga que houve evolução, já deu né ?

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    22/07/2016 17:01:42Alexandre Roni (Vitória, Luta, Força e União)Membro SRZD desde 23/01/2013

    Caro Dicá. Com todo respeito acho que seu "lamento" é mais um daqueles de quem não aceita mudança. O Carnaval Evoluiu. É verdade que existem empresas de samba e com estas é preciso tomar cuidado, tirá-las do caminho. Quanto à quantidade de compositores não há problema algum, uma vez que não existe uma regra que determine a limitação. Não podemos parar no tempo e achar que tudo tem que ser feito de uma determinada maneira e pronto. Comissão de frente evoluiu, alegorias evoluíram, fantasias nem se fala, porque samba não pode evoluir? Precisamos enxergar as mudanças com outros olhos e ela é necessária para tudo. A globalização é para o Carnaval também. O que não podemos jamais é perder a essência do que somos... sambistas. Jamais perder a tradição. Chega de achar que tudo é para a decadência do Carnaval, já deu né?

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