SRZD


22/07/2016 14h54

Bloco Arrastão: o alvinegro de Tokyo
Marcello Sudoh*

Fundado pelo paulistano e corinthiano Claudio Ishikawa, o Bloco Arrastão é uma das escolas que participam do Asakusa Samba Carnival, maior desfile de escolas de samba fora do Brasil e que ocorre desde 1980 no mês de agosto, na capital japonesa.

Bloco Arrastão. Foto: Honya

O Bloco Arrastão foi fundado em 2001 e tem as cores preto e branco. Segundo Claudio, "o pouco que sei de samba aprendi assistindo aos jogos do Corinthians". Foi assim que ele se decidiu pelas cores da agremiação cujo símbolo foi criado por uma designer que era componente do Bloco.

Bloco Arrastão. Foto: HonyaÉ ele quem conta a história do Bloco: "Há uns 20 anos participavam no Carnaval de Asakusa, além das escolas de samba, inúmeros pequenos grupos de Dança. Foi quando houve uma importante mudança no Regulamento do Carnaval de Asakusa exigindo que todos os grupos tivessem a sua própria bateria. Dentre eles, havia um grupo chamado Arco-Iris, que começou a formar a sua", lembra o brasileiro.

Na ocasião, os diretores do Arco-Íris convidaram o japonês Yuki Shirai para criar a bateria do grupo, já que ele que possuía conhecimento e paixão pela música brasileira. "Por ocasião de um evento onde o Arco-Íris fez uma apresentação, tive a oportunidade de conhecê-lo e fui convidado a participar do mesmo. Fomos nos entrosando e, após dois anos participando nos desfiles de Asakusa pelo Arco-Íris, resolvemos buscar um caminho independente. Foi aí que nasceu o Bloco Arrastão", recorda Claudio, que foi colocado no cargo de presidente da agremiação.

Bloco Arrastão. Foto: HonyaApesar de ser uma das escolas mais esperadas pelo público que se desloca até o Bairro de Taito, em Tokyo, para assistir ao Asakusa Samba Carnival, o Bloco Arrastão não consegue se manter no grupo principal. "Nosso Bloco fica sempre na zona do limbo. Vencemos duas vezes no Grupo 2", lembra Claudio.

Para ele, o melhor desfile do Bloco Arrastão foi em 2010, cujo tema foi "Dez anos de Arrastão". Claudio diz que houve um comprometimento muito grande dos componentes, possibilitando um bom desfile. "Já nosso pior desfile acho que foi em 2006, cujo enredo foi 'Kung-Fu, Samba no Pé'. Apesar do bom tema escolhido, faltou criatividade nas fantasias", avalia.

Bloco Arrastão. Foto: HonyaClaudio esclarece ainda que no Japão é muito difícil manter os componentes na agremiação por mais de três a quatro anos. "Regularmente participam do Bloco uns 30 a 40 componentes, dos quais, aproximadamente, 20 na bateria. No carnaval, o número é engrossado por amigos e colaboradores e, geralmente, desfilamos com, aproximadamente, 150 componentes, dos quais 40 na bateria", revela. Ele acha também que no Japão falta material humano e condições para as escolas manterem seus próprios instrumentos. "Fica difícil montar uma bateria balanceada e acabamos à mercê da boa vontade dos integrantes em relação ao instrumento que ele se dispõe a adquirir. Ou seja, no final é o famoso "vai como pode", conta.

A diretoria do Bloco Arrastão é eleita todos os anos através do voto de todos os componentes. O posto de presidente também é aberto a qualquer membro, mas pela ausência de candidatos, Claudio permanece no cargo. "Assim, venho assumindo a posição há muito tempo e, pelo jeito, devo prosseguir mais alguns anos", prevê.

Bloco do Arrastão. Foto: HonyaClaudio acha que o ponto fraco do Arrastão é o tamanho reduzido. Mas ele vê, neste fato, uma dubiedade. O tamanho reduzido também é a origem do ponto forte do Bloco. "Como o Bloco é pequeno, existe uma cumplicidade maior entre os componentes, fortalecendo o relacionamento dos mesmos", comenta o paulistano.

"O Bloco Arrastão não possui patrocinadores e monta seu carnaval com o dinheiro da anuidade paga pelos componentes. Como falta verba, tento frear o gasto do Bloco, pelo menos para que os japoneses entendam que mais importante que uma bela fantasia ou uma ostenta alegoria, é o samba no pé e uma boa bateria", analisa o dirigente.

Bloco Arrastão. Foto: Honya"Para mim, carnaval no Brasil e no Japão tem significados muito distintos. Para falarmos de carnaval, é preciso falar de samba. Infelizmente, no Japão, não existe a proximidade com o samba que encontramos no Brasil. Lá, o carnaval é fruto natural de uma manifestação cultural popular. E apesar dos japoneses se aprimorarem cada vez mais em relação a parte técnica, tanto musicalmente como na dança, fica faltando esse lado cultural que é fundamental", explica o presidente da agremiação.

Por fim, o sambista paulistano radicado no Japão deixa um recado ao governo brasileiro: "Assim como no Japão, em vários outros países, existem muitas pessoas que apreciam a música brasileira. Se nossos governantes dessem a devida atenção, poderíamos oficializar o samba como um verdadeiro produto de exportação, valorizando a expandindo a cultura brasileira para o mundo todo".

Modesto, mas determinado. Assim é o Bloco Arrastão, cuja garra dos componentes pode ser vista riscando o chão de Asakusa de alvinegro. Não acredita? Então venha ver!

Claudio, no centro. Foto: Honya

*em colaboração voluntária para o SRZD


Comentários
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    23/07/2016 20:10:14fabio ishikawaAnônimo

    Claudio parabéns pelo grupo de samba.

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