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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

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27/07/2016 16h46

Disputa de sambas-enredo: por uma reflexão
Hélio Ricardo Rainho

Fotomontagem: SRZD

Da ponta da caneta para a ponta da língua! Foi dada a largada. Já começaram a espocar, nas quadras, os sambas-enredo para a disputa do Carnaval 2017.

O mundo mudou muito dos anos 80, quando comecei ainda menino a frequentar a quadra da Portela com meu saudoso padrinho de samba, Jacyr da Portela, que mais tarde me fez parceiro a disputar sambas com ele na Majestade do Samba, já como compositor. Naquela época, os recursos eram outros.

Fazia-se um samba e, quem podia, produzia seu belo CD em estúdio. Ainda cheguei a pegar o tempo do K7! Imprimiam folhetos para divulgar as letras e esses folhetos eram espalhados. Os vizinhos tocavam os k7s ou CDs nas alturas para ajudar na divulgação.  

Tudo isso mudou muito. O mundo mudou?

Potencializados pelas mídias digitais, os sites de internet especializados em Carnaval (como este, SRZD.com) e as redes sociais deram amplitude e visibilidade às obras dos compositores. A televisão e o jornal, mídias convencionais, nunca se deram a divulgar sambas em disputa. Historicamente sempre divulgaram (e muito mal) os sambas definitivos, sem se aterem aos que eram compostos durante as fases seletivas.

Foi o advento da internet e dos sites especializados em samba e carnaval que popularizou, democratizou e ajudou a difundir os sambas concorrentes nas mais diversas escolas dos mais diversos grupos. Hoje, você acessa um site ou uma rede social e consegue ouvir, em sequência, todos os sambas concorrentes de uma determinada escola. Temos gravações de alto nível, videoclipes cheios de produção.

Inegavelmente esse poderio bélico digital incrementou as disputas. E também trouxe suas contrapartidas.

Minha vivência como um profissional de comunicação de 26 anos de mercado, 21 dos quais na maior emissora de televisão da América Latina, sempre lidando com análises de audiências e comportamento do público, somados às minhas leituras acadêmicas sobre a Comunicação Social e seus processos, deram-me alguma noção do que esses instrumentos e suas mediações representam para determinados processos culturais.

Sinto desabafar, com a clareza com que os leitores estão acostumados a ler e ouvir minhas opiniões sobre as coisas do samba, que considero disputa de samba-enredo algo, hoje, desinteressante e exageradamente fútil. Em muitos momentos, mais parece uma disputa de egos inflados e de auto-exaltação do que paixão pela bandeira das escolas.

As parcerias multiplicam sua quantidade de componentes para atender à demanda comercial de investimento e aporte financeiro necessários para se entrar numa disputa. Ou seja: antes mesmo do samba ter qualidade ou poesia, precisa ter "financiadores". Sejam os compositores ou alguém de fora, cujo nome (visível ou invisivel) tornará "possível" tal samba entrar no páreo. Não falo aqui de "samba comprado"- entendam bem! Isso seria o lado mais vil da coisa. O que falo é da necessidade atual de um compositor, para ter um samba em concurso, precisar ter recursos financeiros que sustentem o "evento" que é o concurso de sambas-enredo.

O uso das redes sociais e dos meios de comunicação também é passiel de observação, dentro de toda essa mecânica. Na ânsia de divulgarem suas obras e as tornarem mais cantadas que as demais em disputa, os divulgadores invadem perfis e comunidades com atribuições de eloquência, propriedade, autenticidade e poesia às suas obras. Uma autoinvocação constante, sempre com referências e testemunhais de amigos ou torcedores. Há embates e desfiles de opiniòes e análises nem sempre fundamentadas ou respeitosas: vale mesmo é fazer barulho e, com isso, divulgar o samba. Uma lógica que parece traçar um paralelismo com o conhecido "falem mal, mas falem de mim".

Os sites costumam publicar os audios e videos dos sambas concorrentes. Com isso, começa uma briga inócua dos compositores pela quantidade de acessos e de pageviews de suas obras. Uma briga que muitas vezes é incensada pelas midias, que publicam os dados de enquetes onde os leitores votam nos sambas prediletos. Digo que essa briga é inócua porque não consigo enxergar nenhuma relação entre o "ibope" de um samba na internet e suas reais chances de escolha por uma comissão julgadora dentro da escola. Nenhuma comissão julgadora, salvo engano, vai acessar o site X pra definir que samba representa melhor seu enredo dentro de uma quadra. O que me leva a crer, mais uma vez, que o ato falho dos compositores muito preocupados com isso só revela uma ponta de vaidade pessoal que nada tem a ver com o orgulho de compor um samba para enaltecer a história de seu pavilhão.

Vão dizer que meu relato é pessimista. Que digam! Seguindo a lógica de Umberto Eco, devo estar mais para "apocalíptico" do que para "integrado".

Não faz mal: este aqui, ao menos, sou eu! Um colunista e pesquisador de escolas de samba sincero, apaixonado pelo samba, pela grandeza das escolas, pela poesia dos compositores, pelos desfiles regidos por hinos imortais em nossas memórias. E ainda acredito e ouço muitos sambas belíssimos na contemporaneidade.

Só me lamento pelo enfado dessas vaidades e desse comercialismo fútil e sem freios que transforma, a meu ver, a festa das escolhas de samba-enredo - que, para muitos, sempre foi a maior festa das escolas de samba - num festival de egos sambando e se expondo de forma ostensiva nos sites, nas redes e por onde mais nossos ouvidos e olhos possam alcançar.

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