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Ruy Chaves

Ruy Chaves

Tem experiência em implantação, desenvolvimento e reestruturação de instituições de ensino superior. Cursou Altos Estudos de Políticas e Estratégias na Escola Superior de Guerra (ESG), onde foi membro do corpo permanente e do corpo de Conselheiros. Professor universitário, também atuou em cursos da Polícia Militar do Rio de Janeiro e do Pará, em cursos de planejamento estratégico na ACADEPOL de Minas Gerais e na Escola da magistratura do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Cidadão de Aracaju, tem as Medalhas Tiradentes, da ALERJ e da Polícia Militar do Pará, e Marechal Cordeiro de Farias, da ESG.

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01/08/2016 09h40

Cartas de Curitiba
Ruy Chaves

Olá, pessoal. Há um time de políticos e empresários, parte da vergonhosa elite brasileira, pagando um preço com certeza muito doído por seus muitos crimes verdadeiramente hediondos associados à corrupção. Claro, nunca sofrerão o suficiente para apagar o mal que fizeram à própria nação e a seus valores, mas podemos imaginar como se sentem presos em Curitiba os que sempre se percebiam impunes absolutamente, inalcançáveis pelas leis e pela justiça. Mas pode ser que algum destes criminosos pense em escrever.

 

PERSIGA AS SUAS UTOPIAS!

 

"Minha Idolatrada Rainha, cartas de amor não são ridículas. O amor não é ridículo, pelo amor me tornei humano, rompi com meus instintos brutais. Cartas de amor não são formas ultrapassadas de comunicação, coisas do século 19. Temporariamente estou longe de casa, sem você, sem acesso a celular e computador, e meu maior desejo é usar algo eletrônico, pode ser tornozeleira ou coleira. Preso pela operação Lava Jato, só me resta falar com você por cartas de amor.

Docinho, perdoe escrever tantas cartas. O tempo se arrasta por aqui, cada hora leva dez horas para passar, cada dia demora uma semana para terminar. Como o tempo voava a jato em nossas viagens idílicas, lembra? Voos sempre em primeiríssima classe, hotéis fantásticos, lojas de alto luxo em que gastávamos sem limites, restaurantes sofisticados em que comíamos e bebíamos como deuses, você deslumbrante, coberta por joias que pertenceram à Rainha da Pérsia, tomando champanhe em taças de ouro. Hoje, Amadíssimo Bibelô, acordo de não ter dormido e não tenho agenda como no passado recente em que a elite da política e nobres empresários viviam me pedindo favores, especialmente doações legais para campanhas eleitorais e suas contrapartidas, as obras super hiper mega faturadas. Todas as madrugadas sou assombrado pela visão do japonês da federal me dizendo: "Perdeu! Considere-se preso. Tudo o que você disser pode ser usado contra você. Siga-me com as mãos para trás." Então, para afogar minhas tristezas, faço musculação após o café da manhã, durmo depois do almoço, faço anaeróbica, depois um lanchinho no fim da tarde e durante a Voz do Brasil malho novamente.Estou saradão, magrinho, barriga de tanquinho.

Como não me permitem televisão, estou perdendo a novela das 20h: o Maruê despintou o cabelo? Trancinha foi eleita Garota Demais? Saudade de nossos carrões, aviões, helicópteros, de nossos trustes e offshores, da nossa cobertura no Central Park, tão grande que tinha até campo de golfe, da nossa capela para 400 pessoas em Roma, que ocupava metade de nosso jardim lateral... bons tempos, não, Vida? Conseguiu dinheiro para o supermercado? Sobrou algum cachorro? O Midas era meu cão predileto. Será que ele ainda lembra de mim ou me despreza como tantos falsos amigos?

Deusa da Minha Vida, preciso me despedir: estou negociando delação premiada e para me safar vou entregar muito além do que fiz e do que sei. Vou quebrar muita gente que, claro, vai jurar inocência, dizer que não me conhece, que sou mentiroso desde criancinha, mas galinha pouca meu pirão primeiro. Tenho muito dinheiro, guardado em tantos lugares e tão secretos que nem sei mais como achar, mas arrumando uma tornozeleira ou uma coleira eletrônica dá pra gente curtir muito ainda. A seus pés, com eterno amor". Panta rei.


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