SRZD



Rio Encena

Rio Encena

TEATRO. Com conteúdo do site RioEncena.com.br, vamos trazer notícias, entrevistas e prestação de serviços sobre espetáculos dos mais variados estilos e gêneros em cartaz no Rio de Janeiro.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



13/08/2016 10h41

Marcos Veras fala sobre peça que ironiza busca insana por fama e dinheiro: 'Questiona absurdos'

Sem noção, desleal, mau caráter... A classificação pouco importa, afinal podem ser postas todas no mesmo grupo. São elas as pessoas que passam a vida numa busca tresloucada por fama, sucesso e dinheiro, muitas vezes desconhecendo a ética e os limites. Esse é o caso, por exemplo, de José da Silva, personagem de Marcos Veras, que bateu um papo descontraído com o RIO ENCENA antes de estrear na última sexta-feira (12) com a peça "Acorda pra Cuspir", que fica em cartaz no Teatro do Leblon até 2 de outubro, com sessões sextas e sábados, às 21h e domingos, às 20h. Com direção de Daniel Herz e texto do americano Eric Bogosian - traduzido por Maurício Guilherme -, a comédia faz uma crítica ácida e bem humorada a quem perde a linha quando o assunto é o triunfo profissional.

"É um questionamento sobre os absurdos, os extremos e os exageros de quem topa passar por cima de tudo nessa busca", explica o ator, que chega ao Rio de Janeiro pela primeira vez com esta comédia, depois de passagens por outras capitais brasileiras como São Paulo, Florianópolis, e Fortaleza, entre outras.

Acorda Pra Cuspir. Foto: Divulgação

Assim como em seu último trabalho de destaque no teatro, o show de stand-up comedy "Falando a Veras", o ator e humorista sobe sozinho ao palco também em "Acorda pra Cuspir" - "Wake up and Smell the Coffe", no original - porém, desta vez interpretando um texto com início, meio e fim. Nesse roteiro, seu personagem se mostra um cara frustrado por ainda não ter se tornado uma celebridade.

Tal sonho de José da Silva, inclusive, serviu de gancho para Veras nos responder também sobre as subcelebridades que têm surgido aos montes nos últimos anos, a concorrência nem sempre justa no meio artístico e outros assuntos mais. Confira na entrevista abaixo:

A peça faz uma crítica ácida a pessoas que podem deixar a ética e o bom senso de lado na busca  por dinheiro, fama, sucesso... Mas trata-se de uma comédia. Como passar essa mensagem de questionamento, mas de maneira engraçada?

O drama e a tragédia podem ser engraçados também. Vou dar um exemplo bobo: a gente ri quando alguém cai no chão. A pessoa pode até ter se machucado, mas a primeira reação, quase sempre, é rir. O ser humano, o brasileiro principalmente, tem o humor na veia. Está sempre debochando, sobrevivendo em meio ao caos muito por causa do humor. O segredo é rir de si mesmo. E o espetáculo mostra quão ridículos podemos ser nessa busca por sucesso, dinheiro e fama. Não é um julgamento, porque todos nós queremos ser bem sucedidos, mas sim um questionamento sobre os absurdos, os extremos e os exageros de quem topa passar por cima de tudo nessa busca. E esse questionamento é todo feito pelo viés do humor, que é um caminho fácil para esse tipo de crítica.

Você acha que essa busca pelo sucesso é uma cobrança particular que parte de dentro de cada um ou há uma cobrança da sociedade como um todo?

Acredito que seja mais da sociedade em geral. Quando a gente nasce, já é cobrado pelos pais, para falar papai e mamãe. Depois vem a cobrança para engatinhar e depois a pergunta sobre o que a criança quer ser quando crescer. Aos 17, já se pergunta pela faculdade. Sempre somos cobrados pela família, pelos amigos e pela sociedade para sermos alguém. Não que isso seja errado, mas é uma coisa natural do ser humano. E a gente debocha desse exagero, porque tudo o que é demais pode ser nocivo. Ambição, às vezes, é uma palavra mal colocada. Tratamos de ambição, que pode ser positiva, mas também negativa, dependendo de como é colocada. Tem que ter ambição, mas quando é demais pode ser uma loucura. Como no caso do José, que é ranzinza, frustrado e pessimista, muito ao contrário de mim (risos).

E, esse comportamento, você acha que reflete nas subcelebridades que vemos por aí hoje em dia? A pessoa não canta, não atua, mas quer estar sempre na mídia.

Pois é, são pessoas que esquecem que para ser artista, além do dom, tem que ter disciplina, estudar... Acham que é uma profissão fácil. Fama é algo subjetivo. Hoje todo mundo pode ser famoso. Já o sucesso profissional é uma outra coisa. Você pode ser famoso no Instagram, no Facebook... Aliás, as redes sociais trouxeram esses caminhos para todos se mostrarem. Antigamente, para aparecer, a pessoa precisava atuar numa peça, fazer uma novela, gravar um CD... Acho válido essas redes sociais, que vieram para ficar. Mas, como eu disse, tudo o que é demais, pode ser questionável. Todos têm direito aos 15 minutos de fama. Mas sucesso profissional é outra coisa. Fama e sucesso são coisas diferentes.

No meio artístico, você vê deslealdade, falta de ética ou algo do tipo na busca por espaço?

Me considero um cara de sorte porque sou cercado por gente do bem. Nunca tropecei, nunca tive no caminho pessoas ruins para me derrubar. Sou cercado de bons amigos. Isso tem a ver com bênção, sorte... Sou muito religioso, acredito em tudo e em nada ao mesmo tempo (risos). Nunca passei por isso, mas é fato que a profissão exerce um fascínio. Mas fascínio sobre o público é legal, afinal, esse é o objetivo. Mas o problema é quando fascina também quem já está dentro do meio. Ao meu ver, quem já está dentro tem que encarar como uma profissão qualquer. Acordamos todos os dias para trabalhar, para ensaiar, gravar... Eu levo com os pés no chão e acho que deveria ser assim.

Para compor esse personagem, que tipos de inspirações e referências você buscou?

Está tudo muito no texto. É um texto claro, um cara se cobrando mais do que deveria, frustrado, ranzinza, pessimista, que como eu disse, é o contrário de mim, que sou bem otimista, não tão mal humorado... O que tenho parecido com ele é a ironia e o deboche. Mas tirando isso, ele é o oposto de mim, o que já é uma referência para a composição do personagem. É um grande material. E o teatro é o lugar de soltar os bichos, não é? Nós assistimos muitos filmes do (diretor americano) David Lynch, paralelamente, com a série Homeland, que tem um personagem tenso, ora bom, ora mal. Essa dubiedade é interessante, porque ninguém é 100% bom ou 100% mau. Ele é um ser humano. E as pessoas se identificam. Riem e se questionam: 'Será que devo rir disso?"

E há momentos no espetáculo em que você nota um silêncio absoluto no espetáculo, com as pessoas refletindo sobre determinada passagem do texto?

Tem vários. Aliás, a peça é pontuada por esses momentos. Sinto um silêncio proposital. Tem uma frase que o personagem diz assim: "O momento menos importante da minha vida vai ser o momento mais importante do que o momento mais importante da vida delas". Isso porque muitas pessoas acham que a vida do famoso é sempre mais interessante que as delas. E o texto questiona isso. Tem outro momento em que ele vê uma tragédia na TV e chama a esposa porque ela adora assistir a essas coisas. A gente está sempre assistindo a um show de horrores. É do ser humano, mas é curioso.

E esse é um trabalho um pouco diferente do que você fez bastante recentemente no teatro, que é o stand-up comedy, não é?

É diferente do "Falando a Veras", que também era monólogo e crítico, mas com um humor mais direto e de entretenimento. O "Acorda pra Cuspir" tem uma história com começo, meio e fim, tem curvas no texto, um humor presente, mas também nas entrelinhas. Você ri, para, repensa e volta a rir. É uma comédia dramática.

Já tem previsão para outros trabalhos no teatro ainda para esse ano?

Não. Por enquanto só esse. É um trabalho recente, que quero fazer por mais tempo. Tem um projeto de musical com o Charles Möeller e o Claudio Botelho, mas ainda está em processo de captação de recursos etc. Então só mais para frente.

SERVIÇO

Local: Teatro do Leblon - Sala Fernanda Montenegro
Endereço: Rua Conde de Bernadotte, Nº26 - Leblon.
Telefone: (21) 2529-7700
Sessões: Sexta e sábado às 21h; domingo às 20h
Período: 12/08 a 02/10
Elenco: Marcos Veras
Direção: Daniel Herz
Texto: Eric Bogosian (tradução de Maurício Guilherme)
Classificação: 14 anos
Entrada: Sexta - R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia); sábado- R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia); domingo - R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia)
Funcionamento da bilheteria: Terça a sábado entre 15h e 21h; domingo entre 15h e 20h
Gênero: Comédia
Duração: 70 minutos
Capacidade: 408 lugares


Comentários
Comentar

Isso evita spams e mensagens automáticas.