SRZD



Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



22/08/2016 14h10

Cerimônias das Olimpíadas: A essência do Rito
Hélio Ricardo Rainho

Foto: Rio 2016

Foi preciso acender a pira pra acender a chama. Foi preciso preparar a festa pra resgatar o sonho. Foi preciso revestir a cidade de sua própria maravilha para que nos encontrássemos, enfim, como verdadeiramente maravilhosos.

A dor, a mentira, o sarrafo, a violência, a exploração estavam desfazendo o nosso moral, a nossa autoestima. Ninguém está querendo, agora, dizer que as máscaras esconderam a nossa verdade. Mas foi a festa - sim, o orgulho da festa! - que nos fez lembrar que somos maiores do que a lama dos imundos que sujam a nossa vida e o nosso cotidiano.

O evento Rio 2016, os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, estas Olimpíadas resgataram, para o Rio e para o Brasil, a nossa verdadeira essência...algo que eu chamaria de "a essência do rito"!

Foto: Fernando Brazão/Agência Brasil

Talvez não sejamos tão somente burocratas, gestores frios ou matemáticos cartesianos como muitos sonharam ser. Somos isso que vimos aí: uma sociedade do rito! E resgatamos essa essência.

Os cerimoniais de abertura e encerramento da Rio 2016 foram certamente dos mais espetaculares e inesquecíveis de todos os tempos. Unimos a avançada tecnologia daquele fantástico tapete eletrônico com as raízes de nossa cultura: nossa floresta, nossos batuques, nossa miscigenação. Uma das imagens mais representativas da cerimônia de abertura foi a encenação do elemento negro sem caricatos misticismos e sem a memória dolorida do martírio escravista: eles se moviam e geravam VIDA, verde, agricultura! O negro construtor, cientista agrário, engenheiro da vida de uma nação! Que maravilha!

Foto: Rio 2016

Explodimos em arte genuína e sensitiva, religiosidade e fé com estética brasileira, paixão e arrebatamento, técnica e coração! Teve mestre Wilson das Neves, deusa de ébano Elza Soares, o poeta Arnaldo Antunes e o versador D2. Do ballet futurista de Déborah Colker ao virtuosismo do Grupo Corpo; da queima de fogos do réveillon mais famoso do mundo ao funk, ao frevo, ao maracatu, às marchinhas, ao forró, ao xote universal do gênio Gonzagão; da Viola poética do Paulinho ao Pagodinho genial do Zeca; de Benjor suingueiro a Anitta funkeira, de Jobim a Lenine. Tivemos a antologia de ver o Rei Martinho apresentando a Vila Isabel de Noel Rosa ao mundo inteiro!

Da Carmem Miranda de Roberta Sá, das deusas Giselle Bündchen e Izabel Goulart ao momento mágico em que Mariene de Castro cantou "Pelo tempo que durar", de Marisa Monte e Adriana Calcanhoto, encharcada pelas águas (reais e figurativas) de uma chuva reveladora.

E vieram as escolas de samba!!! Do nosso samba, da nossa gente, da nossa raça, do nosso carnaval!

Ah, meu Deus...por que amamos tanto as escolas de samba?! Cada um amando tanto a sua, e amando ainda todas as demais?! E por que as escolas de samba foram tão poderosas e tão estupendas nessas duas cerimônias realizadas?

Porque somos a essência do rito! Nossa festa não é alienação: ela revela nosso impulso para o crescimento, para a afirmação, para a organização, para o triunfo. Nossos índios dançavam para celebrar a vida, nossos negros dançavam para clamar a liberdade, nossos brancos dançavam para celebrar bodas familiares...somos a sociedade do rito! E estamos todos agregados nas escolas de samba.

Dançamos em casa, nos cultos, nas missas, nos terreiros, na chuva, nas quadras, nos bailes, nas ruas! Ao precisarmos criar um espetáculo chamado de "cerimônia" para abrir e fechar um evento do qual seríamos anfitriões, fomos desafiados a trabalhar com nossa essência, que é o rito. Por isso fomos tão exuberantes em nosso ritual.

Ninguém é bobo! A festa não ilude nem cega a gente, não! Nosso carnaval maior é a VERDADE. O rito, a dança, a batucada e as máscaras não escondem nada; antes, metafisicamente, revelam tudo. São a transcendência! Nossas porta-bandeiras tremulam pavilhões de história viva, nossos mestres-sala dançam a alma brasileira, nossos iluminados passistas sambam os pés descalços e calejados do nosso povo, nossas baianas giram a vida e a rotação da nossa ancestralidade, nossos ritmistas evocam nossas verdades, nossos intérpretes gritam os nossos gritos de guerra.

Foto: Rio 2016

Nunca me senti tão orgulhoso da cultura e da arte do meu país! Há tanto que nem o chamava de "meu", mas a grandeza e a magia desse fervo cultural me fez lembrar: há forças e há energia para superar isso tudo, derrubar os males, iluminar as trevas, superar as adversidades. É o rito!

E que a escola de samba, finalmente lembrada no lugar que lhe é devido, não se venda nem venda seu pódio para alienígenas e intrusos, desprezando aquilo que lhe é essencial, sem medo de ser cultura e espetáculo para embasbacar o mundo!

Parabéns aos nossos atletas, aos atletas do mundo, medalhistas ou não-medalhistas, voluntários, trabalhadores desse evento. Parabéns, Rosa Magalhães, Andrucha Waddington, Daniela Thomas e Fernando Meirelles.

A imagem eterna em nossos corações será, para sempre, o encerramento com a força e a arte das nossas escolas de samba, panteão vivo de nossa cultura, símbolo da reação que precisamos para vencermos a maior de todas as Olimpíadas, que é despertar o "Gigante pela Própria Natureza" do berço esplêndido onde está deitado...

- Leia mais textos do colunista Hélio Ricardo Rainho

Facebook Helio Ricardo Rainho
Twitter/Instagram @hrainho

Foto: Rio 2016

- Clique aqui e saiba tudo sobre o Carnaval carioca

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?



Comentários
Comentar