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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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25/08/2016 14h46

Opinião: 'Quem samba fica, quem não samba...'
Rachel Valença

Peço desculpas aos leitores: ando ausente. Ausente, aliás, de quase tudo. A causa do recesso forçado é o compromisso de entregar à editora o texto da segunda edição do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba", que deverá sair no próximo ano, quando minha escola completa 70 anos de vida. Mas hoje não resisti a me manifestar aqui sobre noticiário do dia, que envolve justamente o Império Serrano.

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Foto: Acervo Pessoal

Notícia triste, que trata de intolerância religiosa, algo inconcebível num lugar que, segundo as belas palavras de um samba de Arlindo Cruz, "é caminho de Ogum e Iansã", numa escola de samba que já pediu, num samba-enredo: "Senhor, olhai por nós, até por quem perdeu a fé". Uma escola de samba que é um dos últimos redutos de autêntica cultura negra, em sua plenitude e beleza, que inclui música, dança, culinária, indumentária e religião. Não por acaso, quem me alertou para o assunto foi Dário Firmino Onixêgum, numa mensagem no Facebook em que teve a gentileza de marcar meu nome. E é de Dário que eu começo falando.

Foto: Acervo Pessoal

Conheço Dário há muito tempo, lembro-me dele bem novinho, na bateria, no naipe dos agogôs, no tempo em que eu saía na Sinfônica. Simpático, comunicativo, divertido, mas apenas um menino. Depois, lembro de tê-lo visto várias vezes em apresentações do Jongo da Serrinha. Um pouco mais velho, sempre com o mesmo sorriso. Há pouco tempo, a surpresa: uma palestra sobre religiosidade dada por ele na Casa do Jongo me deixou encantada com sua capacidade de articulação e sua inteligência brilhante. Fiquei sabendo que Dário Firmino, tão moço ainda, é pai-de-santo e conhecedor dos ritos do candomblé e fala disso com clareza e espontaneidade. Não pude deixar de pensar em como a vida o abençoou com tantos dons e de me sentir orgulhosa de conhecê-lo.

Foto: Acervo Pessoal

Pois bem, foi o Dário que fez chegar até mim esse assunto. Corri para o jornal, para ver o que saíra. Trata-se de uma matéria em que o atual patrono do Império Serrano, na sua condição de evangélico, declara que não aceitaria que o Império Serrano fizesse enredo sobre "espiritismo". Deve haver quem leu isso e não achou nada demais. Mas para nós, imperianos, isso levanta uma série de questões. A primeira dela está bem expressa na primeira frase da coluna de Leo Dias:

"No Império Serrano, a palavra patrono soa como palavrão". Não há maior verdade. E sabem por quê? Porque, há quase 70 anos, nascemos de um anseio de liberdade, rompendo as amarras, encarando riscos e desafios, para não mais bater cabeça para um dono. Foi duro. Aliás, é duro e difícil manter a cada dia essa liberdade.

Para isso passamos a cada três anos por um doloroso processo eleitoral, que desgasta, faz de amigos opositores, mas garante minimamente que a vontade da maioria prevaleça. Na gestão anterior, também apareceu um patrono disfarçado com o nome de superintendente, ou coisa similar, e isso foi alvo de críticas até mesmo dos que hoje se encontram no poder. "Venderam o Império", era o que se dizia a boca pequena. Na atual gestão, a julgar pelo que tenho ouvido, a questão se repete. Não é o mesmo patrono, é outro, alguém que não é essencialmente imperiano, tanto que já tentou "reinar"em outra agremiação. Por incrível que pareça, tem gente que gosta mais de "reinar" do que de sambar. Gosto não se discute.

Nada tenho contra o antigo "patrono", que não cheguei a conhecer, nem contra o atual, que nunca vi. Mas me sinto muito triste ao ouvir, como tenho ouvido, que foi ele que escolheu o carnavalesco, que é ele que influencia decisivamente a disputa do samba-enredo, atualmente em curso e marcada por polêmica, como é ele que agora mistura suas convicções religiosas com assuntos tão importantes quanto a escolha de um enredo.

Numa escola de samba como a nossa, falar de religiões de matriz afrodescendente, como umbanda e candomblé - e até esses nomes parecem assustar, já que são disfarçados sob o eufemismo "espiritismo" - é falar de nós mesmos, pois nosso desfile, a cada ano, qualquer que seja o enredo, é uma grande celebração de caráter religioso. Dela participam até os que, como eu, não têm religião. Porque não é preciso religião, seja ela qual for, para se perceber a dimensão do sagrado. E o samba, forma de manifestação daqueles que por séculos não tiveram voz, é sagrado. Não há dinheiro no mundo, não há patrono na face da Terra capaz de mudar isso e de calar essa voz.

Muita gente, ao longo dos anos, ajudou o Império Serrano a ser o que hoje é. Os que tentaram se sobrepor à escola ficaram para trás. Seus nomes de despotazinhos de ocasião jamais poderão ombrear com os de Eloy Antero Dias, Sebastião Molequinho, Mestre Fuleiro, Eulália do Nascimento, Silas de Oliveira e tantos outros bravos que aceitaram o Império Serrano e sua gente como eles são, com sua arte, suas crenças e sua grandeza.

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Comentários
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    26/08/2016 11:31:48fbressiguierMembro SRZD desde 28/07/2015

    lamentável tamanha atitude da diretoria. com essa o Império irá amargar mais alguns anos no acesso. #superescoladesambaSA #quecovardia

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    26/08/2016 11:30:46fbressiguierMembro SRZD desde 28/07/2015

    lamentável tamanha atitude da diretoria. com essa o Império irá amargar mais alguns anos no acesso. #superescoladesambaSA #quecovardia

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    25/08/2016 18:27:23Otto BarrosMembro SRZD desde 25/08/2016

    A se manter essa posição da escola, podem a ter a absoluta certeza que mesmo com patrono, vai continuar a desfilar por muito tempo na Série A. Tal atitude da diretoria do Império Serrano é como cuspir no próprio prato em que se comeu por muitos anos. Os velhos baloartes da Escola devem estar a se rolar no túmulo com uma notícia dessa. Fazer este tipo de coisa para voltar ao grupo especial, é melhor que continue no grupo de acesso. Pelo menos a minha torcida não terá, não este ano. Um verdadeiro absurdo!

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