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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

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26/08/2016 14h32

Opinião: 'Menino, Gigante e Rei!'
Hélio Ricardo Rainho

- Carnaval 2017: Comentaristas do SRZD opinam sobre enredo do Império Serrano

Não gosto de misturar assuntos como samba e religiosidade. Não que eu ache que eles não se relacionem. É óbvio que sim, e isso ninguém discute. O problema é que assuntos como religião, futebol e política (isto é um chavão!) sempre redundam em polêmicas que acabam tirando o foco do samba e desviando para o outro assunto. Como meu intento dentro da escola de samba é priorizar o samba e a escola de samba, fico constrangido quando algum assunto paralelo toma vulto e, de quebra, toma o lugar do samba. Particularmente não gosto.

- Opinião de Rachel Valença: 'Quem samba fica, quem não samba...'

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

É com estranhamento e preocupação que observo a grande algazarra filosófica que causou a declaração do patrono do Império Serrano sobre querer ou não querer patrocinar um enredo que porventura tivesse "espiritismo" como tema.

Estamos em uma época em que "liberdade de expressão" virou algo retórico. Todo mundo tem direito de fazer o que quer..."mas depende"! Não é assim? Ou seja, o patrono tem o direito de patrocinar o que ele quiser, ninguém questiona. Mas todo mundo questiona que o patrono não financie um enredo sobre tema tal e qual. Mesmo concordando que a declaração não foi feliz, meu senso de coerência me obriga a admitir que parece dúbio tudo isso.

Por outro lado, "todo mundo tem a liberdade de dizer o que pensa". Mas poucas vezes se exige, também, a obrigação de se pensar o que se diz. Ainda que estejamos falando de uma escola grandiosa e monumental como o Império Serrano. Que não deve NUNCA (desculpe o grito, mas é assim que se fala de sua grandeza mesmo) ser confundida com o grupo em que está ou com as colocações que teve aqui ou acolá! O Império Serrano é um Gigante neste, naquele ou em qualquer lugar! Acabou. Não tem discussão sobre isso. Um gigante que teve sua fundação calcada nos preceitos da religião afro-brasileira que deu cor e forma a todos os desfiles (quer queiram ou não) de escola de samba. Com esse Reizinho não seria diferente.

Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Penso que a escola de samba do início do século passado era um reduto massivo de ogãs batucando, iaôs girando e babás cozinhando nas festas. Hoje, no século XXI, ainda estão todos lá, mas a bem-aventurada miscigenação brasileira inseriu vários outros elementos no corredor cultural dos panteões das escolas. Quão generosos são os nossos negros fundadores do maior legado cultural deste país! Não expulsaram os rosários, os andores, as bíblias: deixaram generosamente entrar todo mundo. Porque conversa de sambista é samba, não é religião. Ninguém é malvindo nem rejeitado. Mas não se pode negligenciar a vocação histórica das agremiações em suas origens batuqueiras.

Tento ser coerente com as palavras do referido "patrono" - que eu não conheço pessoalmente e que, lembremos, foram publicadas por um jornalista que "até anteontem" todo sambista repudiava por matérias levianas e falsas polêmicas, e "ontem" virou "herói do samba" pelas mesmas pessoas. Não julgo ninguém. Estou utilizando dados de redes sociais e de rodas de assunto que frequento.

Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

O patrono não disse que vetaria nada na escola, embora a dependência financeira que as escolas dizem ter hoje acabou sugerindo uma certa pressão. "Eu não proíbo. Mas só patrocino se for do meu gosto". Essa parece ter sido a frase.

Estamos diante de um impasse. Nada nem ninguém pode ferir a liberdade de escolha de um indivíduo. Cada um bota seu dinheiro onde bem entende. Cabe à escola de samba ter a força e a coragem de dizer: "este ano faremos um enredo sobre Vasco da Gama, e o senhor, que é Flamengo, fique à vontade para aceitar isto ou não", por exemplo.

Agora, se a escola de samba precisa sobreviver a uma lógica cruel de desfile, capitalista e monetária, destituída de seus valores fundamentais e seu legado artístico-cultural, em troca de patrocínios que lhe tragam enredos com homenagens estranhas e desprezo a seu histórico e suas origens, temos um problema muito mais sério ainda! Se temos um sistema de julgamento ultrapassado e burro, se temos uma gestão de recursos que descapitaliza as escolas e as deixa vulneráveis a pressões de patronatos, temos uma questão muito mais dolorosa do que alimentar uma discussão religiosa dentro de um ambiente onde o samba - tadinho desse crioulo! - acaba sempre sendo terceirizado. Estaremos culpando a janela pela paisagem!

Que venham as Ciatas espíritas e as Dodôs católicas misturadas com as baianas evangélicas, celebrar a arte e a cultura de nosso país! Se isso não for Brasil, se cada um não tiver dentro de si a convicção do que crê ao ponto de não poder se misturar e manter dentro de sua própria alma o código pessoal de sua fé, então que esqueçam as religiões e as escolas de samba! Porque escola de samba é lugar pra se viver em kizomba, congraçamento, harmonia e comunhão. O que está dentro de mim ninguém tira: nem lugar, nem cultura, nem intolerância!

O Império Serrano, escola de gente garbosa, apaixonada, de fé, devotada, há de ser muito maior que suas controvérsias e adversidades! O quintal da Serrinha é maior que o mundo! E há de prevalecer na avenida, na quadra, na rua...porque foi assim que ele se fez gigante: clamando numa só voz, pintando uma aquarela, cobrando democracia, arte e cultura no planeta carnaval!

Do jeito que ele quiser, com o enredo que ele quiser, com a confissão de fé que ELE - o IMPÉRIO SERRANO - quiser! E não há de ser nos bate-bocas nem nas polêmicas; nas declarações felizes ou infelizes; nas polêmicas ou nos que se afirmam em cima delas: o Império se consagrou na avenida, e será também na avenida que o Império Serrano se fará impor - como força viva da natureza, com sua graça e seu encanto de todas as divindades! Pra mostrar que é Menino de 47... mas também é GIGANTE e REI!

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Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

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