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Celso Sabadin

Celso Sabadin

CINEMA. Jornalista, crítico de cinema, professor, escritor, curador e cineasta. É autor dos livros "Vocês Ainda Não Ouviram Nada - A Barulhenta História do Cinema Mudo", "Éramos Apenas Paulistas", biografia do cineasta Francisco Ramalho Jr., e "O Cinema como Ofício", biografia do cineasta Jeremias Moreira. Roteirizou e dirigiu o longa metragem "Mazzaropi", lançado em 2013, e o curta "Nem Isso", a partir da obra de Luís Fernando Veríssimo, lançado em 2015. Corroteirizou e codirigiu a série de TV "Mazzaropi, Uma Série de Causos", exibida no Canal Brasil. É editor do site "Planeta Tela", especializado em Cinema, e sócio-fundador da Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema.

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07/09/2016 08h50

'Viva a França!'. E o cinemão clássico e classudo

Golpe baixo! Em plena Segunda Guerra Mundial, em meio ao caos de 8 milhões de franceses fugindo da ocupação nazista, um pai procura o seu filho perdido ao som da trilha sonora de Ennio Morricone. Ou seja: tem como não inundar o cinema de tanto chorar? Pois prepare seus lenços. "Viva a França!" é assumidamente um drama de guerra feito para fazer o público se debulhar em lágrimas. E é extremamente competente nisso.

Viva a França. Foto: Divulgação

O diretor Christian Carion tem uma trajetória inusitada. Cinéfilo desde a infância, mas engenheiro por formação, ele iniciou sua carreira de diretor de cinema com quase 40 anos de idade. E não fez feio. O seu primeiro longa, "Encontro Inesperado" (2001), foi bem recebido, obtendo até uma indicação ao César. Em seguida, dirigiu "Feliz Natal", sobre um caso real acontecido na I Grande Guerra. O filme colecionou várias premiações nacionais e internacionais, incluindo uma indicação ao Oscar de produção estrangeira. 

Em "Viva a França!", Carion repete o tema das Guerras Mundiais e destila novamente seu estilo eminentemente clássico e sentimental. Mas não de melodramaticidade exacerbada ou excessivamente lacrimosa, como o início deste texto pode fazer crer. Mas sim de um delicioso formalismo nostálgico, estilo anos 40, que relembra com muito vigor e talento uma época na qual usar as ferramentas do cinema para manipular emoções ainda não era considerado esteticamente incorreto. Este é um dos grandes trunfos deste engenheiro-cineasta que, assim como o bom e velho Claude Lelouch, também não tem medo de emocionar. 

Ainda que ancorado na busca de um pai pelo seu filho, o roteiro de "Viva a França!" desenvolve com consistência e desenvoltura várias situações e subtramas emolduradas pelas desesperadoras incertezas trazidas pela Guerra. A dor de largar tudo para trás, o medo e o desconhecimento do que virá, a sensação que aquele dia vivido poderá ser o último. Num mundo onde nada mais é seguro e tudo se torna transitório, só resta manter a dignidade da esperança nos valores que nos fazem sentir minimamente humanos. 

É marcante ainda a maneira pela qual o tema dos refugiados, tão presente na época da Segunda Guerra, reveste-se agora de uma lamentável contemporaneidade reversa, onde os exilados humilhados de ontem se tornam vingativamente os opressores de hoje.

Tudo isso regado à trilha sempre magistral de Morricone faz de "Viva a França!", uma experiência a ser desfrutada como aqueles antigos vinhos, cujo sabor de passado só melhora com o tempo.  

A estreia é quinta, 8 de setembro.


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