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Carlos Fernando Cunha

Carlos Fernando Cunha

CARNAVAL. Carioca, morador de Juiz de Fora/MG há 15 anos. Ritmista, cantor e compositor com três CDs gravados. Pesquisador e Professor da UFJF.

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08/09/2016 16h59

Opinião: Os sambas da Vila Isabel
Carlos Fernando Cunha

Quando anunciei por aqui que iniciaria esse processo de análise dos sambas-enredo de escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, evidenciei que seria tarefa árdua escrever sobre os sambas da Vila Isabel. Por conta da paixão que tenho pela escola e pelo fato de conhecer pessoalmente vários dos compositores candidatos. Se neutralidade é algo inviável de atingir no ato da crítica, neste caso, o caminho é ainda mais penoso. Mas, vou tentar, pois as utopias são necessárias.

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Em primeiro lugar, sabemos que a Vila Isabel é especialista em fazer bons sambas. Podem buscar em suas mentes que encontrarão vários sambas produzidos no chão do bairro de Noel que se destacam por sua qualidade, ousadia e inovação. Peguemos Martinho da Vila e parceiros como exemplos.

Em 1967, ele e Gemeu ganharam com "Carnaval de Ilusões", samba que incorporou em seu refrão uma canção de roda popular: "Ciranda, cirandinha/Vamos todos cirandar/Vamos dar a meia volta/Volta e meia, vamos dar". Em 1987, Martinho, Ovídio e Azo compuseram "Raízes" e inovaram com os versos sem rima. E ainda poderia destacar outros sambas: "Sonho de um sonho" (Martinho, Rodolpho e Graúna), 1980, escrito a partir das ideias de Drummond, samba de melodia ímpar; "Pra tudo se acabar na quarta-feira", 1984, letra que traz à cena o protagonismo dos trabalhadores do carnaval. Enfim, a Unidos de Vila Isabel contraria Noel Rosa. Ela não só mostra que faz samba também, mas produz sambas de muita qualidade, em vários casos, inovadores e ousados.

Inovação e ousadia marcam o samba da parceria de André Diniz, Bocão, Tunico e amigos. Ao meu ver, trata-se de um samba que, ainda candidato, já entra para a história da Vila Isabel e dos sambas-enredo. Em primeiro lugar, numa bela homenagem ao parceiro Leonel, falecido, os autores fazem um acróstico, ou seja, as primeiras letras de cada verso da letra formam, em sentido vertical, uma mensagem, uma máxima que remete ao companheiro e ao próprio enredo: "O tema musical deu mais saudade, Leonel". Emocionante. Ainda sobre a letra, destaco o poder de síntese dos autores, pois tudo da sinopse está lá, bem arrumado. Mas André e CIA não pararam por aí. O refrão do meio construído por eles é digno de um estudo mais apurado a ser feito posteriormente. Ele diz: "Da ancestralidade se formou/Em mãos de prata, o negro da canção/ Um passo, um giro, um toque do tambor/Milongueiro tango é pura sedução". Surpreendentemente, em sua repetição, o refrão é cantado de trás para a frente, invertido. Por que? Teríamos aqui a intencionalidade dos autores em nos sugerir, através deste bate e volta, a resistência e persistência do povo negro, as idas e vindas místicas da ancestralidade, a via de mão dupla e a simbiose que marcam a construção dos gêneros musicais americanos? E ainda tem mais.

Prestem atenção na melodia do refrão. Da primeira vez que ouvi, achei que tivesse faltado sincronia entre a melodia cantada e a instrumentação da gravação. Mas foi escutar novamente e perceber a intencionalidade dos autores em alterar a métrica tradicional do canto, as divisões, transformando este refrão, musicalmente, numa síntese do enredo, qual seja, o som da cor, o som negro, polirritmado, sincopado, ousado e desafiador. Para finalizar meus pitacos sobre esta parceria, ainda cito sua linda e tradicional melodia que, junto às contemporaneidades citadas, formam um grande samba. Se ele vai ser o vencedor, se o samba é o melhor para a Vila Isabel desfilar com vistas ao título, não sei. Mas, ao meu ver, entrou para a história.

- Ouça o samba de Evandro Bocão, André Diniz, Tunico da Vila, Professor Wladimir, Wanderson Pinguim

Dona Ivanísia, Vinícuis Natal e parceiros trazem para a disputa outro belíssimo samba. A letra é muito bem construída, poética, e destaco a linda passagem: "Do alto, a lua de Luanda chegou querendo se juntar ao povo do samba para Kizombar". O samba possui melodia fácil, bem feita, bonita e dota o samba daquilo que chamamos de "pegada". O intérprete Zé Paulo, um dos melhores do momento, dá um show na gravação apresentada. Zé possui um timbre especial, demonstra garra e força na voz e brinca como ninguém com os ornamentos do canto, sem exagerar nas doses. Vale também destacar os dois excelentes refrões do samba que, com certeza, mexerão com a alma dos amantes da Vila. A escola estará muitíssimo bem servida se Dona Ivanísia e amigos forem os campeões da disputa.

- Ouça o samba de Dona Ivanísia, Antônio Conceição, Dinny da Vila, Thales Nunes, Vinícius Natal

Vou continuar a análise com mais um sambaço da Vila Isabel, outro possível campeão, a parceria de Arthur das Ferragens e amigos. Letra muito bem elaborada, em acordo com a sinopse, que apresenta bonitas passagens poéticas, tais como as que constroem o refrão do meio: "Vila/Azul que dá o tom a minha vida/Um sopro de esperança na avenida/Eu faço um pedido em oração/Ouvi-la sempre no meu coração". Ou ainda na primeira parte do samba, os belos versos: "Oh minha flor/Quero você em meus braços/Bailando no mesmo compasso/Um tango de drama e amor". Destaco também a segunda parte do samba, onde encontramos um diálogo que pode ser muito bem aproveitado entre os intérpretes e o povo do samba: "Ginga no lundu/Morena/Negro é o rei/É o rei/Toque de Ijexá/Afoxé/Pra purificar/Minha fé". Esta seção do samba, ao meu ver, pode fazer a diferença na disputa, pois trata-se de uma estratégia dos compositores que vai evidenciar o canto da escola, um dos grandes atributos e trunfos da comunidade da Vila em seus desflies. O samba tem corpo e alma de Vila Isabel.

- Ouça o samba de Artur das Ferragens, Gustavinho Oliveira, Danilo Garcia, Braguinha e Rafael Zimmerman

Outro bom samba é o do batuqueiro e compositor Macaco Branco que esbanja coragem e rema contra a maré ao assinar sozinho sua obra. A letra é bem feita, sem sobressaltos e enxertos artificiais vindos da sinopse. A melodia também é bem construída e soa bem aos ouvidos. Merece destaque o refrão do meio, no qual Macaco Branco parece brincar com a métrica e a divisão rítmica aos moldes dos sons latinos. Vai brigar. "Deixa a Swingueira te levar"!

- Ouça o samba de Macaco Branco

Cito também o samba de Jonas e companheiros. Um bom samba, especialmente sua segunda parte e o interessante refrão final.

- Ouça o samba de Jonas, Marcelo Mendes, Mazinho Villas, Chico Moraes, Jaiminho Harmonia

A Vila Isabel segue sua história e apresenta uma excelente safra para 2017. Para além das inovações, das belas melodias e poesias que os sambas trazem, fico feliz pelos jovens compositores que têm se apresentado como concorrentes ao longo das últimas disputas. Alguns estão novamente nesta safra, outros resolveram dar um tempo este ano. Temos um time de primeiríssima linha no bairro de Noel Rosa e das calçadas musicais. Sigamos, pois a estrada é longa! A Vila Isabel precisa de todos vocês!

Axé!
Ô sorte!

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Site: www.carlosfernandocunha.com.br

Foto: Henrique Matos

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Comentários
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    10/09/2016 18:18:05GuilhermeMembro SRZD desde 02/08/2016

    Para o ano de 2015 na disputa da mocidade,o samba cortado de Zé Glória já tinha utilizado o refrão do meio de traz pra Frente...Zé Glória esse que ganhou o Alabe de Jerusalém na Viradouro e pode ganhar na mocidade esse ano! aposto no Samba do Artur das Ferragens...acho que o Desfile ficará + quente com esse Samba!mas qualquer um dos 4 podem render 10 a escola do Bairro de Noel !

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