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Celso Sabadin

Celso Sabadin

CINEMA. Jornalista, crítico de cinema, professor, escritor, curador e cineasta. É autor dos livros "Vocês Ainda Não Ouviram Nada - A Barulhenta História do Cinema Mudo", "Éramos Apenas Paulistas", biografia do cineasta Francisco Ramalho Jr., e "O Cinema como Ofício", biografia do cineasta Jeremias Moreira. Roteirizou e dirigiu o longa metragem "Mazzaropi", lançado em 2013, e o curta "Nem Isso", a partir da obra de Luís Fernando Veríssimo, lançado em 2015. Corroteirizou e codirigiu a série de TV "Mazzaropi, Uma Série de Causos", exibida no Canal Brasil. É editor do site "Planeta Tela", especializado em Cinema, e sócio-fundador da Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema.

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16/09/2016 16h01

Desculpe o incômodo, mas precisamos falar sobre o Oscar
Celso Sabadin

Baixada (pelo menos um pouco) a poeira da polêmica sobre a escolha do filme brasileiro que irá nos representar no Oscar 2017, creio ser importante deixar claro que, em toda esta história, o Oscar em si é o que menos importa. Se um dia o Brasil ganhar um Oscar de Filme Estrangeiro, beleza, maravilha, palmas para o vencedor. E se jamais ganhar, não há a menor importância, pois o nosso cinema e a nossa cultura são muito mais importantes para nós que a estatueta daquele homem pelado com uma espada na frente.

A questão não é o prêmio, mas a cadeia de ilegitimidades que ele sinaliza. A partir de um governo ilegítimo empossado por um golpe de estado, um ministro da cultura igualmente ilegítimo, com nenhuma identificação com os meios culturais do país, escolheu um Secretário do Audiovisual, claro, consequentemente ilegítimo, que pode até ser "gente boa". Mas, que diabos, minha vó também era gente boa, mas jamais teria condições de comandar a Secretaria do Audiovisual. O Secretário, que já foi Secretário do Turismo, Presidente do Sport Club Recife, e cuja atuação na área da cinematografia se restringe a comandar um evento anual na área, começou a compor uma comissão de escolha do filme brasileiro concorrente ao Oscar de maneira, igualmente, ilegítima (pelo menos há coerência: é tudo ilegítimo). Alguns membros escolhidos para esta comissão, ao perceberem o tamanho da encrenca em que estavam começando a se meter, sabiamente se retiraram. Outros, talvez não atentando à gravidade da situação, optaram por permanecer. Alguns filmes previamente concorrentes também notaram o imbróglio e retiraram suas candidaturas.

O resultado não poderia ser diferente: ilegítimo. Não é o caso de defender este ou aquele filme, de atacar outros, nada disso. A grande questão é que estamos enviando para uma premiação internacional um produto audiovisual sem a menor legitimidade do nosso povo, da nossa democracia, da nossa cultura, posto que foi escolhido por uma comissão ilegítima, formada por uma Secretaria ilegítima vinda de um Ministério ilegítimo formado por indicação de um presidente golpista.

Nós, que sempre lutamos contra o filme pirata, temos agora uma Secretaria do Audiovisual pirata, escolhida por um ministério pirata de um governo pirata. Pirata no sentido de ilegal, mesmo. Bucaneiro.

Tudo bem, é só o Oscar. Verdade. Mas é só o Oscar, hoje. Toda este rede de ilegitimidades , com Oscar ou sem, continua comandando diariamente os rumos e as políticas da cultura brasileira, fazendo opções que não têm o aval do voto. Tudo isso é muito grave, com consequências inimagináveis para o futuro do país.

É importante lembrar que a ilegitimidade do golpe de 1964 durou 21 anos, mas atrasou nossa cultura e nossa educação em séculos. Esta é uma característica muito forte da ilegitimidade: o tempo da terra arrasada é muitas vezes maior que o tempo da praga em si.

Se continuarmos apenas a ser indignados virtuais, protegidos pelo conforto dos nossos computadores, sem lutas mais efetivas, teremos de nos esconder envergonhados dos nossos filhos e netos quando, no futuro, eles nos perguntarem o que fizemos para combater tudo isso.


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