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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

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23/09/2016 18h14

'Pisa forte, Grande Rio': 28 anos de história!
Helio Ricardo Rainho

Foto: SRZD-Igor Gonçaves

Já se passaram quase 30 anos - mais exatamente 28 - de quando o bloco carnavalesco Lambe Copo abriu pano para o surgimento da Acadêmicos de Duque de Caxias, que, ao fundir-se com o G.R.E.S. Grande Rio, originou a caçulinha tricolor das escolas de samba cariocas: a Acadêmicos do Grande Rio. Se uma escola de samba tem por primeiro fundamento ser a voz e a expressão de sua comunidade, então tem-se na Grande Rio um exemplo de grandeza e excelência. Com ela e por meio dela, a comunidade de Caxias faz-se representar ano após ano dignamente na avenida, de forma entusiástica e apaixonada.

Foto: SRZD-Igor Gonçaves

A Grande Rio ascendeu ao Grupo Especial em 1991, mas não teve um desempenho à altura e precisou retornar para, em 1992, dar a sua mostra definitiva de grandeza e imponência. O enredo de temática afro "Águas claras para um rei negro", dos carnavalescos Lucas Pinto e Sonia Regina, deu corpo e identidade à escola, que apresentou-se com um belíssimo samba dos compositores G. Martins, Adão Conceição, Barbeirinho, Queiroz e Nilson Kanema. Os versos únicos do samba, que ilustraram com excelência o enredo muito bem desenvolvido plasticamente, tinham passagens inesquecíveis. Em parte denunciavam uma dissimulação quanto à libertação real do negro no contexto social brasileiro ("Chega de violência, sofrimento e dor / O Pelourinho ainda não findou / Para os ocultos opressores da nação"); então evocavam uma segunda libertação em contexto místico e pragmático ("Há de vir um negro rei, para purificar / Nossa libertação com as águas de Oxalá"), mencionando a Sapucaí como um "quilombo" e a Grande Rio como "sua bandeira".

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

Esse desfile exuberante da escola não só a alavancou definitivamente para nunca mais cair como, de quebra, nos trouxe uma verdade que parece esquecida. A de que a avenida Marquês de Sapucaí, ao converter-se mágica e simbolicamente de via pública de acesso em palco principal dos desfiles nos dias de carnaval, torna-se um "quilombo". Não exatamente um quilombo de escravos fugidos ou negros perseguidos. Pelo contrário: esse "novo quilombo" tem portas abertas para o mundo e negros soberanos a reinar. O que caracteriza a Sapucaí como "quilombo", como bem retratou esse belíssimo samba que marcou a trajetória da Grande Rio, é a vocação da escola de samba para lutar e reafirmar suas verdades, sua força, seu legado, sua história. Sem medo de ser diferente, poderosa e feliz!

Foto: SRZD-Adriana Vieira

Vem também da Grande Rio um dos maiores e mais importantes históricos de superação da história dos desfiles. No ano de 2011, um incêndio inimaginável destruiu um dos barracões mais prestigiados daquele carnaval. A escola desfilou como hors concours ao lado de Portela e União da Ilha, todas atingidas pelas chamas. Mas foi a tricolor de Caxias quem mais sofreu com o acidente. Tendo seu projeto de carnaval praticamente aniquilado pelo fogo, a aguerrida comunidade de Caxias encarou com incrível pujança e comovente força uma avenida que a aplaudia praticamente despida de recursos cênicos e adornos comuns à festa.

Foto: SRZD

No ano seguinte, o carnavalesco Cahe Rodrigues transformou a dor da escola no enredo "Eu Acredito em Você. E você?", espécie de bardo panfletário que descrevia a história de superação da humanidade e trazia um emblemático refrão autorreferente a dizer: "eu sou guerreiro do bem, vou caminhar / a minha escola vai te emocionar". A passagem comovente e comovida da escola terminava não menos entusiasmada: "Quem me viu chorar... Vai me ver sorrir / Eu acredito em você pro desafio /E abro meu coração, cantando a minha emoção / Superação é o carnaval da Grande Rio" (autoria de Edispuma, Licinho Jr., Marcelinho Santos & Foca).

Foto: SRZD

A Grande Rio tornou-se, com o passar do tempo, uma escola que abriu portas para muitos artistas e celebridades fazerem parte de suas fileiras. Muito embora haja críticas incisivas a essa sua postura, não houve da parte da escola senão intensificar uma prática muito comum desde os anos 70, sobretudo com o advento da televisão. A presença dos artistas - é bom que se diga! - jamais a impediu de ser uma escola com pés no chão e coração em seu povo: seu projeto infantil Pimpolhos da Grande Rio é um achado para inclusão social de crianças no samba, seu chão de escola com baianas consagradíssimas e uma ala de passistas das mais prestigiadas da avenida também comprovam seu compromisso comunitário. Além disso, até última atualização, era a única escola a entregar 100% de suas fantasias gratuitamente à comunidade.

Foto: SRZD-Adriana Vieira

Para o município sofrido de Caxias, que congrega um dos polos industriais mais poderosos do estado do Rio de Janeiro e, paralelamente, uma faixa proletária muito desassistida pela gestão pública, misturar artistas a esse povo laborioso acaba sendo um vultoso exemplo de congraçamento e fusão de classes sociais e culturais numa efervescência simbólica que só a escola de samba pode ter. Por meio dessa fusão, o povo caxiense pode ver de perto os artistas que admira, e os artistas têm a oportunidade de "ir aonde o povo está".

Foto: SRZD-Adriana Vieira

Autêntica, única, polêmica, irreverente, criativa, a Grande Rio é, hoje, uma moça bonita e vistosa, charmosa estrela do Sambódromo! Um lugar onde lendas do passado e escolas quase centenárias não costumam dividir suas glórias com iniciantes. Mas que historicamente tem assistido a "pequenas notáveis" que se tornam grandes e roubam os holofotes da festa. Como esta caçulinha festiva a quem hoje festejamos.

Foto: SRZD-Adriana Vieira

Parabéns, Caxias! Parabéns, Grande Rio!
Seus 28 anos estão aqui, carinhosamente registrados.

Não apenas pela passagem da data como marco histórico, mas como respeito e gratidão a esse pavilhão que representa o sonho e a dignidade de sua comunidade!

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Foto: SRZD-Adriana Vieira

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