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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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13/10/2016 21h26

'Ao erguer a minha taça': colunista fala do centenário de Silas de Oliveira
Rachel Valença

Foto: Acervo Pessoal de Rachel Valença

No último dia 4 de outubro, festejamos o centenário de nascimento de Silas de Oliveira. Considerado o maior compositor do gênero samba de enredo, morreu antes de completar os 56 anos de idade, em 1972. O título de maior entre os maiores não sou eu que atribuo a ele. Periodicamente os jornais promovem pesquisas de opinião, entre especialistas, para escolher os dez maiores sambas de enredo de todos os tempos. Variam os votantes, mas em todas as listas há sempre três sambas de Silas: "Aquarela brasileira" (que compôs sem parceiros), "Cinco bailes da história do Rio" (em parceria com Ivone Lara e Bacalhau) e "Heróis da liberdade" (com Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira).

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Foto: Acervo Pessoal de Rachel ValençaPassadas mais de quatro décadas, compostos e cantados milhares de outros sambas de enredo, Silas ainda emplaca três de seus inúmeros sambas nas listas de melhores de todos os tempos. Minha opinião não chega aos pés da de tantos conhecedores do gênero, mas tem o mérito de ser muito antiga. Tornei-me admiradora de sua obra antes mesmo de chegar ao Império Serrano, escola à qual ele pertenceu. Eu morava em Brasília, frequentava a escola de samba Unidos de Sobradinho, e foi lá, cantadas pelos sambistas cariocas exilados, como eu, no frio do Planalto Central, que ouvi aquelas obras-primas que me arrebataram. E oram esses sambas que fizeram de mim imperiana para toda a vida. Fizeram de mim uma pessoa feliz.

Tenho ou não tenho motivo para celebrar o centenário do autor de sambas que, na década de 1960, foram "buscar quem mora longe"? Além disso, tive o privilégio de me tornar amiga de sua viúva, dona Elane, pessoa extraordinária, batalhadora, simples e sincera. E, desde pequenos, os filhos e netos, todos gente do bem, discreta e sem pose, como foi o pai.

Além dos três sambas que são presença certa nas listas, Silas fez muitos outros para sua escola: "Glória e graças da Bahia" (1966), "Pernambuco, Leão do Norte" (1967) e "São Paulo chapadão de glórias" (1968) são alguns deles. Mas Luiz Antonio Simas, cuja opinião é muito importante para mim, considera o longo "61 anos de República" a obra mais elaborada do mestre.

Como todo sambista de sua época, Silas não compunha apenas sambas de enredo. Nos terreiros - era assim que na época se chamavam as quadras -, se ouviam mais sambas de terreiro do que sambas de enredo e Silas não deixou sua escola em falta: compôs dezenas deles, como "Apoteose ao samba", "Meu drama" (que ficou conhecido como "Senhora Tentação"), "Amor aventureiro" e muitos outros. Sambas que ao longo dos anos, até hoje, são gravados pelos principais intérpretes e nunca perdem a atualidade.

No entanto, para mim, seu principal valor não é ter dado ao mundo tantas belezas: é, isto sim, haver fundado, em 1947, junto com um grupo de dissidentes do Prazer da Serrinha, a escola de samba a que se manteve fiel a vida inteira. Mesmo os desgostos que amargou na escola - quem não os tem? - não foram motivo para se afastar dela, apesar de inúmeros convites das coirmãs. Silas era do Império Serrano. Ou melhor: Silas é do Império Serrano. Seus filhos, seus netos, estão na quadra e no carnaval com o Império. Não se dão ares de importância, nem precisam. Têm nobreza de sobra, herdada de uma linhagem da melhor qualidade. Para Silas de Oliveira, hoje e sempre, quero erguer a minha taça. Com euforia.

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