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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

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14/10/2016 16h21

Reflexão: Bob Dylan e o samba-enredo
Hélio Ricardo Rainho

Bob Dylan. Foto: Reprodução/Facebook

A entrega do Prêmio Nobel de Literatura 2016 ao compositor Bob Dylan ocupou todas as manchetes do dia e inspirou-me uma reflexão, dentro do universo das escolas de samba, sobre essa relação entre música e literatura. Não são poucos os compositores de diversos gêneros musicais que já declararam ter pretensões literárias em suas canções. Também é comum a análise das obras musicais fazer menção à "poesia" dos compositores. No caso do samba-enredo, há uma singela peculiaridade.

- Cantor Bob Dylan ganha prêmio Nobel de Literatura 2016

Se existe "música sem letra", a última delas que assim poderia ser dita seria justamente o samba-enredo. E por que se pode afirmar isso? Porque todo samba-enredo deverá ter por premissa corresponder ao sugerido em uma sinopse propositiva de um tema. Ou seja: grosso modo, jamais poderá sair algo "sem letra".

O samba-enredo não nasce da ideia fixa do artista: antes, ele testa a capacidade artística do compositor em destilar os meandros da sinopse de um enredo, absorver seu conteúdo apropriadamente e convertê-lo em linhas líricas e musicais, fazendo de um roteiro narrativo uma obra musicada poética. O samba-enredo é como uma redação, só que em notas musicais. O que se convém chamar de "licença poética", portanto, deverá estar ligado às soluções construídas pelo compositor dentro do universo do enredo, nunca recorrendo a sugestões externas ao que lhe fora proposto. É como se um artista tivesse um campo limitado de atuação: ele não pode infringir as linhas restritivas do enredo; e será exatamente de sua capacidade de, ainda assim, fazer poesia que se verá o valor de sua obra. O mais célebre de todos os "conversores" de sinopse em poesia será o bardo imperiano Silas de Oliveira, autor de pérolas como "Aquarela Brasileira" e "Heróis da Liberdade", obras-primas absolutas do gênero para o Império Serrano.

O livro "Escola de Samba - Árvore que Esqueceu a Raiz", de Candeia e Isnard Araujo, afirma que o primeiro samba-enredo foi apresentado pela Portela no ano de 1939, de autoria de Paulo da Portela, denominado "Teste ao Samba". Já Sérgio Cabral, em seu livro clássico "Escolas de Samba do Rio de Janeiro", acessou registros dos jornais Correio da Manhã e O Globo relatando que o samba cantado pela Unidos da Tijuca em 1933 "estava de acordo com o enredo", o que lhe sugeriu que este tenha sido o primeiro samba-enredo da história dos desfiles. A fonte de Candeia era afirmativa, a de Sérgio Cabral era dedutiva. As datas são distantes e não há, de fato, um consenso acerca do fato.

Como a origem dos enredos de escolas tinha sempre temáticas históricas ou literárias, a literatura e a narrativa sempre estiveram intimamente ligadas ao samba-enredo.

Consideremos, pois, que muita coisa se modificou nas escolas de samba do passado para cá. A correria impositiva dos desfiles regidos pela lógica cronométrica da televisão favoreceu a escolha de sambas acelerados e de letras curtas, com poesia e melodia muitas vezes de gosto duvidoso. A falta de espaço para as Velhas Guardas atuarem de forma influente na inspiração de novos compositores, sendo substituída nas feijoadas por grupos de "pagode modinha" sem nenhuma identidade com as quadras e a extinção do gênero "samba de terreiro" podem ser agravantes ameaçadores à grandeza do samba-enredo. Mas não nos enganemos: a arte de nossos compositores é imorredoura! Podem escolher nas quadras os sambas errados, podem as rádios silenciarem e não difundirem devidamente as joias musicais de nossas escolas...mas a poesia e a arte ainda existem na mente sã de nossos poetas do samba!

Assim como este dia 13 foi a consagração de Bob Dylan, e a afirmação do letrista como literato no cenário musical mundial, é justo que celebremos, nas nossas quadras, os nossos maravilhosos poetas crioulos de morro que tanto fizeram para engrandecer a nossa arte e a nossa paixão pelas escolas de samba.

Não são "Nobéis", mas são nobres! Viva o samba-enredo verdadeiro!

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Comentários
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    14/10/2016 23:45:17Marcelo GomesMembro SRZD desde 11/06/2009

    Nossa. Usei e uso até hoje sambas-enredo em sala de aula. Muito ludico, de muito fácil entendimento. Martinho da vila senpre presente nas minhas aulas.

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    14/10/2016 17:58:26Ladislau AlmeidaMembro SRZD desde 06/07/2016

    Bom texto Helio. De fato samba-enredo é história, é cultura e poesia. Existem sambas que me ensinaram mais de história do que os livros na sala de aula. No entanto a quanto tempo não temos um samba que se torne antológico. Os "mais antigos" podem dizer de como o samba era feito em rodas de samba e não em estúdios e YouTube. Mas são sinais dos tempos e temos que nos "modernizar". Com um pouco de utopia e ironia fico pensando um samba-enredo ganhando um Nobel: só pra chamar os "autores" demoraria uns 20 minutos...

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