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Rio Encena

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TEATRO. Com conteúdo do site RioEncena.com.br, vamos trazer notícias, entrevistas e prestação de serviços sobre espetáculos dos mais variados estilos e gêneros em cartaz no Rio de Janeiro.

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19/10/2016 09h26

Marcos Caruso sobre primeiro monólogo da carreira: 'Foi um convite do público'

Marcos Caruso é do tipo que deixa a vida o levar. Pelo menos na profissão. O ator paulista, de 64 anos, está em cartaz no Teatro Maison de France, no Centro, com o espetáculo "O Escândalo Philippe Dussaert", o primeiro monólogo dos seus mais de 40 anos de carreira. Justamente por não ter o hábito de planejar os passos seguintes no trabalho, ele precisou esperar todo esse tempo para fazer seu primeiro solo no teatro, o que acabou acontecendo de maneira inusitada.

Marcos Caruso. Foto: Divulgação

Três senhoras - sendo duas donas de uma galeria de arte e outra, diplomata - assistiram à montagem original em Paris e decidiram comprar os direitos do texto do francês Jacques Mougenot. Na volta para o Brasil, chegaram à conclusão de que Caruso seria o ator ideal para interpretar um palestrante que fala sobre pequenas mentiras a partir da história de Philippe Dussaert, um exímio pintor copista francês que reproduzia obras de artistas como Leonardo Da Vinci, Édouard Manet e outros.

"Elas ficaram entusiasmadas, compraram o texto, vieram no avião pensando em quem poderia fazer e me escolheram", conta Caruso, em entrevista ao Rio Encena.

Outro ponto que foge do lugar comum nessa peça - que tem direção de Fernando Philbert - acontece antes mesmo de soar o terceiro sinal. Em vez de surgir já no palco, como acontece em quase 100% das peças, Marcos Caruso recepciona os espectadores na entrada do teatro. A ideia, como conta ele, é se aproximar mais dos espectadores fora da peça. Além disso, o ator falou um pouco mais sobre seu personagem e fez um balanço da temporada, em relação a público e crítica. Só não topou falar muito sobre o final surpreendente do espetáculo. Confira a entrevista abaixo.

Acha que o primeiro monólogo da sua carreira chegou em boa hora? Como surgiu essa oportunidade?

Eu não esperava. Na verdade, nunca pretendi fazer um monólogo. Não sou assim de desejar fazer um musical, uma peça de William Shakespeare... As coisas vão acontecendo conforme vou vivendo. Um monólogo não estava nos planos e aconteceu por acaso. Foi um convite do público, de certa maneira. Geralmente, o ator é convidado por autores, diretores... Mas, dessa vez, três senhoras, que não têm nada a ver com teatro, assistiram ao espetáculo em Paris, ficaram entusiasmadas, compraram o texto, vieram no avião pensando e me escolheram. Uma delas traduziu o texto para o português. Nós nem nos conhecíamos, foi uma escolha delas. Acharam que eu seria o ator ideal e entraram em contato. Mas chega um momento que, obviamente, é uma hora boa. Já são 43 anos de carreira, quando você já tem uma segurança maior para estar sozinho no palco. Mas eu não estou nem chamando de monólogo, mas sim de solo coletivo. Eu falo com a plateia porque a peça é uma palestra. Não é uma coisa totalmente solitária.

Qual é o seu maior desafio nesse espetáculo? É estar sozinho no palco pela primeira vez, é o texto em si de um autor estrangeiro...

Um pouco de tudo. O fato de estar sozinho, não no sentido da solidão, mas de não ter num outro ator um interlocutor. Em 1h15 de peça, é preciso estar presente e se vendo de fora, preocupado com o andamento, com o ritmo do espetáculo, com a memorização do texto, se não pulou alguma parte, ocupar o palco com a tua energia. Existe uma cobrança maior porque não tem com quem dividir. Não me preocupa ficar sozinho no palco, no camarim. Recebo as pessoas na porta, o que já é prazeroso, vou dividindo a solidão com a plateia... Por outro lado, não pelo texto ser estrangeiro, porque a temática é universal, mas acho que o desafio é fazer um espetáculo inteligente, investigativo, que leva à reflexão, com humor. É uma peça que diverte. Não é comédia, mas tem humor. E a plateia raciocina junto sobre um escândalo sem precedentes na arte contemporânea. É gostoso saber que a plateia vai da reflexão ao riso.

Você falou que recebe o público na porta do teatro em vez de aparecer direto no palco. Essa ideia foi sua, da direção?

Essa ideia partiu de mim, da minha necessidade de ver quem está na plateia. A peça é uma palestra. Sou eu olhando para o público. Se eu desse uma palestra na minha casa, abriria a porta para receber as pessoas. Depois que todos estivessem acomodados, eu faria a palestra. A diferença é que acontece no teatro, que é minha segunda casa, muitas vezes a primeira. Então nada mais natural do que receber o público como se estivesse na minha casa. Vou olhar nos olhos das pessoas. E em vez de olhar todas juntas, olho uma por uma e as deixo muito felizes. É uma comunhão.

E que tipo de interpretação você procurou adotar para essa peça?

A montagem se utiliza de um mote, que é arte contemporânea, para falar dos pequenos escândalos que existem no cotidiano. Escândalos políticos, econômicos, policiais, sociais. Mentiras do tipo: "Será que essa obra vale essa fortuna?". "Será que isso é arte mesmo?". Ou então: "Por que o metro quadrado no Leblon é mais caro?". Falamos das pequenas mentiras. Nesse sentido, você ri, se diverte, mas não é uma comédia escrachada. É sofisticada e inteligente.

E o fim do espetáculo é surpreendente, não é? Teria como adiantar alguma coisa sobre esse desfecho?

É um golpe de teatro. É surpreendente nesse sentido. Não é um golpe que vem do nada, é algo dentro da própria peça. As peças que têm esse tipo de golpe são as que fazem com que uma pessoa diga a outra: "Gostei do espetáculo e ainda tem uma coisa no fim que não vou contar". Faz com que o boca a boca se torne uma progressão. Mas não posso falar mais.

Qual balanço você faz dessa temporada até agora em relação a público, crítica?

Sensacional. O teatro é longe de um chamado circuito do Leblon, da Zona Sul... É um dos melhores teatros do Rio de Janeiro, mas fica no Centro. Mas na porta, tem estacionamento Vallet, VLT, metrô. São facilidades que ajudam a levar público. Eu fico impressionado. E, inicialmente, parecia ser um título estranho. As pessoas podem errar a pronúncia, mas isso não é importante. E também, muitas vezes, o pessoal não gosta de monólogo, o que me levaria a crer que começaríamos com um público pequeno. Mas essa tese logo caiu por terra. Começamos bem, com sessões lotadas. Para um monólogo, acho muita coisa. Foi surpreendente, e eu fiquei muito feliz. A peça é um sucesso.

E planos a curto prazo?

Estamos estreando a segunda temporada da "Escolinha do Professor Raimundo" (TV Globo). Também na Globo, estou gravando uma minissérie  do Bruno Mazzeo que se chama "Filhos da Pátria", com estreia para novembro. E em abril começo a gravar uma novela das 7, chamada "Pega Ladrão". No teatro, fico com essa peça até março. Depois vou ter que parar por causa das gravações.

SERVIÇO

Local: Teatro Maison de France
Endereço: Avenida Presidente Antônio Carlos, Nº 58 - Centro.
Telefone: (21) 4003-2330
Sessões: Quinta e sexta às 20h; sábado às 21h; domingo às 18h
Período: 01/09  a 18/12
Elenco: Marcos Caruso
Direção: Fernando Philbert
Texto: Jacques Mougenot
Classificação: 12 anos
Entrada: R$ 25
Funcionamento da bilheteria: Terça e quarta entre 13h30 e 19h; Quinta a domingo a partir das 13h30
Gênero: Comédia
Duração: 80 minutos
Capacidade: 353 lugares


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