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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

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20/10/2016 19h54

Opinião: 'Os Poderes da Portela'
Hélio Ricardo Rainho

Foto: SRZD

Desde a perda de seu presidente Marcos Falcon, a Portela passou a ser uma incógnita para muitas pessoas. Este colunista que vos escreve, por ser integrante da família portelense, pode testemunhar o quanto foi procurado de todas as formas possíveis para opinar sobre o assunto. Muita gente curiosa sobre a sucessão presidencial após a tragédia ocorrida com o patrono da escola de Oswaldo Cruz e Madureira. Muita gente querendo entender como se organizaria a Portela após a perda daquele que havia "levantado" a Majestade do Samba e que, para a grande maioria, era uma nova versão do lendário Natal da Portela.

Nem bem respondeu-se essa pergunta e veio, com a final de samba-enredo, um episódio polêmico e vexatório para a história da escola. Um confronto de torcedores e compositores dos sambas concorrentes na quadra, após o anúncio do hino vencedor, com cenas de violência e uma mancha na gloriosa agremiação. O fato redundou em exclusões, expulsões, declarações contundentes na mídia e nas redes sociais. Imediatamente as análises espontâneas associaram uma coisa (a morte do patrono) a outra (a baderna na final de samba-enredo).

Vamos por partes. Foi preciso analisar, estudar, ler e ouvir muitas coisas para, de alguma forma, tecer um parecer sobre os fatos. Não é a verdade absoluta, porque o colunista não é Deus. Mas é uma proposição analítica. Modestamente com alguma propriedade e conhecimento de causa.

Sobre a perda do patrono, é bom que se entenda: a Portela se ressentirá sempre e muito do carinho, da liderança e da ousadia de Marcos Falcon. Eu, como portelense, digo isso com lágrimas nos olhos! Simplesmente porque ele foi único e especial, o principal agente da retomada da Águia à sua grandeza. No entanto, sua liderança foi muito mais do que simplesmente um "pulso forte" dentro da Portela. Ele não foi uma "mão de ferro": Falcon foi uma 'alavanca". Não geriu as coisas da escola centradas nele e nas decisões dele, apenas. Ao contrário: embora tivesse presença forte em todos os setores da escola, assumindo para si todas as responsabilidades e sendo 100% participativo, Falcon empoderou as áreas de gestão, deu força e autoridade a seus comandados. Ele profissionalizou tudo!

Os departamentos da Portela são autônomos e responsáveis; seus gestores eram (são) capacitados para desenvolver - com profissionalismo, amor e conhecimento de causa - todos os rumos da escola. Falcon não detinha a palavra final sobre várias questões, é óbvio; era o cabeça de todos. Mas, com o empoderamento de seus comandados, ele fazia mais do que dar caminhos à escola: ele dava estrutura! Coisa que a Portela, hoje, tem de sobra. Dentro dessa estrutura, o recém-empossado presidente Luís Carlos Magalhães, que vinha de uma brilhante gestão do Departamento Cultural, ascendeu como vice-presidente nas eleições deste ano e, consequentemente, assumiu, com base no estatuto, a presidência da escola na morte de Falcon.

A meu ver, há um tríplice escopo na análise do que significa essa sucessão de poderes da Portela. Em primeiro plano, a questão histórica da própria Portela das últimas décadas ter sido gerida por líderes impositivos, combativos, atuantes. Sim, é verdade que a história recente da Portela teve homens fortes e decididos no rastro do lendário Natal. Mas, em segundo plano, devemos considerar que a estrutura de gestão montada recentemente, fundamentada no empoderamento dos setores, também capacita a uma mudança desse paradigma da "dependência do líder aguerrido".

Enfim, em terceiro plano, devemos lembrar aos portelenses que, já antes de Natal, havia um homem de versos refinados, jeito gentil e doce, líder chamado de "professor", que foi Paulo da Portela. E todos admitem que Paulo foi o grande gênio fundador da escola poderosa que a Portela jamais deixou de ser, mesmo em dias difíceis. Se olharmos para a postura intelectual, refinada e elegante de Luís Carlos Magalhães, decerto lembraremos que, se Natal foi reeditado na fibra e na gestão pungente de Marcos Falcon, é também possível que a liderança serena e sóbria de Luís Carlos remeta à sociabilidade proposta pelo "Príncipe Negro do Samba" - a saber, Paulo da Portela. Um e outro modelo, portanto, seriam possíveis. Ou os dois combinados, também.

Sobre o triste episódio do conflito na final de samba-enredo, tenho algo a dizer - não como portelense, mas como crítico profissional e como pesquisador de escolas de samba há mais de 20 anos. As disputas de samba-enredo, em quase todos os lugares, estão ficando cada vez mais deselegantes! Infelizmente muitas pessoas estão ficando chatas e convencidas demais!

Que fique claro: NÃO estou falando restritivamente da Portela! É um mal geral! Ainda tenho amigos inúmeros e conheço compositores da mais alta patente e ilibados. Mas a lógica de disputa está contaminando e poluindo as mentes. É como o efeito de uma droga letal: às vezes o usuário é vítima de um sistema. A poesia está perdendo protagonismo para a ganância!

As disputas não começam na quadra: começam nos inbox de redes sociais (recebo várias), nos grupos de "zap-zap", na fome de "curtidas & acessos". Virou uma tara! A rivalidade e a egolatria sobem nas mídias onde samba NENHUM ganha disputa, porque rede social não tem júri oficial - e não adianta ter 20 mil acessos no vídeo do samba, porque acesso não ganha samba na quadra. Mesmo assim, brigam com os sites, brigam com os jornalistas, brigam com papagaio e periquito por isso! E é só o começo! Imagina-se, portanto, o quanto os ânimos tendem a ficar acirrados na chamada "hora-do-vamu-vê"...

Pra quem não estava na quadra, é bom que se saiba que, antes de iniciar a disputa, o presidente da Portela chamou representantes da Velha Guarda e integrantes de cada parceria concorrente (não vou citar nomes, são todos preciosíssimos, prezo pela paz e unidade de cada um deles com todos nós na Portela). Ali, pediu que houvesse paz e respeito à bandeira da escola, qualquer que fosse o resultado. Infelizmente um tumulto generalizado com acusações de todos os lados expôs a agenda cultural da escola quase às páginas policiais.

As medidas da direção da escola vieram a galope. Foram duras, decisivas. Não posso julgar a consciência nem a propriedade com que os gestores agiram. A contenda envolveu compositores, baluartes (o júri de 50 pessoas tinha várias figuras históricas e notáveis da Portela, também). Me entristecem - não só como portelense, mas sobretudo como sambista - as ofensas e desagravos entre todos os envolvidos. Gente querida. Amigos. Família. E tenho certeza que - mais dia, menos dia - tudo ficará bem, novamente.

Conheço todos. Os vejo como pessoas de bem, provavelmente inflamados ou fora de si por coisas que ouviram, contendas que lhes semearam, palavras ao vento que viraram furacões.

O que eu acredito é que uma "torrente de montanha cuja força é tamanha" (versos de Candeia) como a Portela não vai parar por causa de um luto, nem por causa de uma briga. Por mais triste que seja o luto, por mais generalizado que tenha sido o tumulto. Não é isso que nos interessa, como críticos. Não é isso que interessa à Portela, como escola de samba. "A fila anda" (ou deveria andar) pra quem não tem nada com isso. Os problemas internos, caseiros, hão de se resolver nas esferas familiares do Ninho da Águia.

E que venham dias de paz e união, para que as águas do rio azul e branco possam correr tranquilas nos leitos de Oswaldo Cruz e Madureira...

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Portela. Foto: SRZD/ Nicolas Barbosa

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Comentários
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    23/10/2016 21:45:14Almir da Silva LimaMembro SRZD desde 11/10/2011

    Narrarei os diálogos que mantive, na eliminatória dia 23/09 c/o compositor-bamba Samir Trindade ?Candeia? e c/o intérprete Gilsinho, na final dia 14/10. Impulsionado pelo comando do inesquecível pres. Marcos Falcon, o mov. Portela Verdade encontra-se no caminho certo p/a conquista do tão sonhado 22º título de campeã da agremiação mais coirmã-madrinha e a mais carioca & vitoriosa do Carnaval da Cidade Maravilhosa. Apesar disso, sou opositor do sistema de apuração/leitura do resultado dos desfiles oficiais sem a transparência de não-passar simultaneamente à imprensa as justificativas das notas inclusas as notas 10, dadas pelo ´suspeito´ quadro de julgadores (QJ) da LIESA. Isto porque, filosófica e materialmente falando, embora nossa Portela esteja c/tudo em cima p/tal sonhada conquista, é preciso analisar o seguinte. Contando historicamente com as comunidades-bases dos bairros Oswaldo Cruz e Madureira assim como c/grande torcida no RJ, no Brasil e mundo afora, além de mais recentemente c/diversas torcidas organizadas, é público & notório que a Portela se estruturou de forma profissionalizada. Seja em termos de direção e de componentes, para realizar desfiles oficiais de 2014 pra cá, com o propósito de conquistar o 22º título. Entretanto, observemos, das quatro notas dadas pelo QJ da LIESA nos atuais nove quesitos avaliados, uma ou inferior à nota 10, é descartada. Assim, no Carnaval 2017 como garantia são necessários o total de 270 pontos ou três notas 10 nos nove quesitos avaliados. Não, as unânimes ou vergonhosíssimos 300 pontos conquistados pela ´tricampeã´ em 2001 nos 10 quesitos avaliados na mão-grande pelo QJ quando a LIESA era presidida pelo atual pres. da aludida coirmã. O qual é um dos atuais membros-vitalícios do clandestino & poderosíssimo Conselho de Grandes ´Beneméritos´. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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