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25/10/2016 10h35

Leia a análise da ata do Copom
Redação SRZD

O Banco Central divulgou hoje pela manhã as notas de sua reunião da semana passada. Na ocasião, o comitê decidiu por unanimidade por um corte de 0,25 p.p. na taxa Selic, que recuou de 14,25% para 14% ao ano.

O documento divulgado hoje trouxe muitas alterações em relação ao seu anterior, em especial na sessão "Discussão sobre a condução da política monetária".

No comunicado da decisão, o COPOM mencionou desejar que "os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica retomem claramente uma trajetória de desinflação em velocidade adequada". Na ocasião, comentamos que o texto não era muito claro sobre quais são estes componentes, indicando que talvez ele se referisse aos preços de serviços, em especial à inflação subjacente neste grupo, excluindo itens com comportamento mais particular (cursos, empregado doméstico, comunicação e turismo), como apresentado no RTI do 3º trimestre deste ano.

As notas de hoje, como esperávamos, detalharam melhor este ponto e confirmaram que o foco está nos serviços. Destaca-se o progresso já observado na desinflação do grupo, de 8% para perto de 7%, mas ressalta-se que a queda recente pode estar influenciada por outros fatores: "os membros do Copom argumentaram que a queda recente se deve, em alguma medida, à reversão de movimento anterior em itens mais voláteis, e à evolução de componentes sensíveis à recente desinflação nos preços de alimentos".

O comitê, assim, buscou analisar diferentes medidas com itens mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária no grupo dos serviços e concluiu que "há sinais de uma pausa recente no processo de desinflação que vinha sendo observado nesses componentes, já considerados efeitos sazonais". Importante: caso tal pausa na desinflação dos serviços se mantenha, a trajetória de desinflação se daria em velocidade aquém da contemplada no cenário básico do Copom, o que justificaria, a nosso ver, a preocupação do COPOM com este grupo e teria levado, junto com outros fatores, a um corte de 0,25 p.p. neste encontro, e não em 0,50 p.p., como esperávamos.

Foto: Divulgação

Como o comunicado do COPOM já enfatizava, os esforços [para aprovação e implementação dos ajustes na economia, notadamente no que diz respeito a reformas fiscais] são fundamentais para a estabilização e o desenvolvimento da economia brasileira são fundamentais para os próximos passos da atual política monetária. As notas de hoje reforçam a surpresa positiva neste primeiro momento, o que sinalizaria posterior maior celeridade e probabilidade de aprovação das medidas. Mas o BCB reforça: o processo é longo e cheio de incertezas. Tudo o que reduzir incertezas, a nosso ver, já ajuda o BCB e sua missão ("a redução da incerteza potencializaria os efeitos da política monetária"). Hoje a Câmara pode votar em 2º turno a PEC do teto dos gastos.

O comitê acrescentou discussão sobre a trajetória dos preços administrados esperada, citando os fatores que podem influenciá-la: "(i) a mudança na política de preços de combustíveis anunciada recentemente; (ii) evidências de reduções de preços de energia elétrica mais fortes que o esperado em algumas regiões; (iii) possibilidade de adiamento de reajustes de preços de transporte urbano em algumas cidades; e (iv) risco de reajustes acima do esperado nos preços da energia elétrica ao longo de 2017, em decorrência, entre outros fatores, de mudança de bandeira tarifária". Alguns reduzem a inflação neste ano e outros aumentam sua expectativa para 2017.

As projeções de inflação apresentadas hoje estão em linha com o comunicado e Relatório Trimestral de Inflação apresentado há algumas semanas. Para este ano, as projeções estão em torno de 7,0%, tanto no cenário de referência, quanto no de mercado. Já no horizonte relevante, leia-se 2017 e 2018, as expectativas no cenário de referência estão em aproximadamente 4,3% para o próximo ano e torno de 3,9% em 2018. Já no cenário de mercado, os valores estão em 4,9% e 4,8%, com o BCB reforçando que são patamares superiores a meta de 4,5%.

Sobre o cenário econômico atual, destaque para a inclusão de um parágrafo sobre as oscilações no desempenho da economia brasileira, o que pode ser típico de seu atual estágio do ciclo econômico, como já indicado no comunicado da reunião. Reconhece-se que os indicadores de atividade em agosto vieram abaixo do esperado, mas que oscilações desta natureza podem fazer parte de um processo de saída de recessão, "é provável que o processo de estabilização envolva flutuações relevantes nesse estágio do ciclo econômico".  Há evidência de estabilização recente. Vale aqui lembrar que o PIB no terceiro trimestre deste ano será conhecido no dia 30 de novembro e deve ser levado à discussão no segundo dia da reunião do COPOM.

Em suma, as notas do COPOM divulgadas hoje mantiveram o tom hawkish do comunicado, detalhando melhor seu conteúdo, em especial no que tange a trajetória de desinflação observada e esperada nos preços de serviços mais sensíveis à política monetária. Reforço sobre a importância das reformas fiscais continua.

Dada a natureza dos argumentos do COPOM para adotar o ritmo de queda da Selic de 0,25 p.p., o calendário até sua próxima reunião não sugere grande mudança: os preços dos serviços não devem ter queda acelerada de modo relevante entre uma leitura e outra do IPCA e a expectativa é de que a votação da PEC do teto no Senado, em segundo turno, seja feita apenas após a reunião do comitê. Os argumentos, em tese, sustentam a manutenção do ritmo atual de queda, e o risco é para pior.

Nossa projeção é de corte adicional de 0,25 p.p. na taxa Selic no derradeiro encontro do COPOM do ano, entre os dias 29 e 30 de novembro.

* Esta análise foi realizada pelos técnicos do Banco Fator


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