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15/01/2009 11h14

A polêmica Maysa entra no "Barquinho" da Bossa Nova
Luiz Felipe Carneiro

A polêmica Maysa entra no

A história de Maysa é uma das mais conhecidas da história da Música Popular Brasileira. E a atual minissérie de Manoel Carlos está ajudando ainda mais o povo brasileiro a descobrir um de seus maiores talentos que, por uma fatalidade (entre tantas outras que envolvem a nossa música), foi calado na Ponte Rio-Niterói em 1977, com apenas 41 anos de idade.

Desde os anos 50, Maysa já era bem conhecida no país. Além de ser casada com um milionário que vivia nas colunas sociais, Maysa já fazia sucesso em cima do palco. Mas antes de encontrar o seu destino trágico, muita água rolou na carreira de Maysa. O seu primeiro álbum, "Convite Para Ouvir Maysa", foi lançado em 1956. Nele já era possível sacar o estilo da cantora, com as suas canções transbordando em fossa e dor-de-cotovelo, como "Resposta" e "Agonia".

As letras extremamente pessoais eram o diferencial de Maysa. Na Música Popular Brasileira, certamente apenas Dolores Duran conseguiu passar para as suas composições a sua atribulada vida, da mesma forma que Maysa fizera. Para as duas cantoras, a vida profissional se confundia com a vida pessoal. Ou, melhor dizendo, real...

Entre 1957 e 1960, Maysa gravou mais sete álbuns, se transformando em um dos maiores sucessos dos anos 50. Além de excelente cantora, a cantora lotava os seus shows e vendia muitos discos por conta de sua grande exposição na mídia. E vários clássicos foram lançados nesse álbuns (que incluíram mais três volumes de "Convite Para Ouvir Maysa"), como "Ouça" e "Meu Mundo Caiu".

Além de suas composições próprias, Maysa, desde seu segundo álbum, insistiu em um novo compositor. Seu nome: Antonio Carlos Jobim. Do Maestro Soberano, Maysa gravou "Caminhos Cruzados", "Eu Não Existo Sem Você", "As Praias Desertas", "Outra Vez", "Se Todos Fossem Iguais a Você", "A Felicidade", "Meditação", "Dindi", entre outras.

Apesar de ter gravado várias canções de Tom Jobim, Maysa não podia ser considerada uma adepta da Bossa Nova. Por sua vez, a sua "grande concorrente" da década de 50, Sylvia Telles, já havia gravado, em 1959, dois álbuns inteiramente dedicados a Tom Jobim, embarcando sem pudores na onda da Bossa Nova.

Contudo, em 1961, Maysa conheceu Ronaldo Bôscoli, e resolveu embarcar na moda da Bossa Nova. Na época, o compositor namorava Nara Leão havia quatro anos, e já eram praticamente casados. Mas Maysa não deu bola para esse detalhe. Sempre ao lado de Bôscoli, acabou surgindo a idéia de gravar um álbum inteiramente dedicado à Bossa Nova. Para a cantora seria bom, eis que daria um novo frescor a sua carreira, e para a Bossa Nova, melhor ainda. Afinal de contas, Maysa era uma das maiores vendedoras de disco no Brasil, além de ter uma grande projeção no exterior.

E foi exatamente no exterior, mais especificamente em uma viagem pela Argentina e pelo Chile que tudo começou. Em 1961, Maysa, Bôscoli, Roberto Menescal, Luis Carlos Vinhas e o recém-formado Tamba Trio pegaram o avião, e lá o repertório foi testado pela primeira vez, em alguns shows. Historicamente, naquele momento a Bossa Nova, pela primeira vez atravessava as fronteiras brasileiras.

Na volta da viagem, Maysa convocou a imprensa no aeroporto (sem o conhecimento de Ronaldo Bôscoli) e anunciou que iria se casar com o seu compositor predileto. Nara Leão não entendeu nada e o namoro de quatro anos com Bôscoli foi desfeito. O mal-estar foi criado, o que acabou por criar um racha político na Bossa Nova. A partir do momento em que Maysa "roubou" Ronaldo Bôscoli de Nara Leão, a turma que acompanhava Maysa, como Menescal e Luis Carlos Vinhas, por motivos óbvios, não foram mais aos encontros que aconteciam no apartamento de Nara. O trauma foi tão grande, que Nara Leão só veio a gravar um disco dedicado à Bossa Nova em 1970. O álbum duplo "Dez Anos Depois" não tinha nenhuma música de Ronaldo Bôscoli no repertório. E o produtor Roberto Menescal, parceiro de Bôscoli em todas as composições, acabou ficando de fora do repertório também.

Apesar de toda a briga, Maysa entrou em estúdio para gravar "Barquinho". Conforme explicado por Ruy Castro, em seu livro "Chega de Saudade", Ronaldo Bôscoli achava o temperamento "dark" de Maysa não muito adequado para as canções solares da Bossa Nova. Entretanto, Maysa conseguiu encontrar o seu estilo próprio dentro do movimento. Com uma ridícula licença poética, podemos dizer que Maysa cantava uma "fossa nova" como ninguém. E Ronaldo Bôscoli acabou se tornando mestre nesse assunto, em canções como "Lágrima Primeira", "Depois do Amor" e "Melancolia", todas gravadas no álbum e que estavam bem distantes do amor, do sorriso e da flor que formavam a estética da Bossa Nova. Na contracapa do LP, Maysa explicava a sonoridade diferenciada do álbum: "Pensei preparar um disco new look, totalmente diferente dos muitos que fiz. Não abandonei minha característica romântica, mas procurei acrescentar a ela um toque absolutamente moderno."

Mas uma canção que em nada tinha a ver com o estilo "dark" de Maysa tinha que compor o repertório do álbum. "O Barquinho" havia sido composto por Bôscoli e Menescal (um especialista em pesca submarina) para Nara Leão. E talvez esse tenha sido o grande motivo de a cantora ter feito tanta questão de gravar a canção. Não bastou ter roubado o namorado de Nara Leão. Maysa queria também a música. Além de "O Barquinho", Maysa gravou outras canções mais no estilo da Bossa Nova tradicional, como "Você e Eu" (de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes), "Recado à Solidão" (Chico Feitosa) e "Errinho à Toa" (mais uma da dupla Menescal e Bôscoli). No total, das 12 faixas de "Barquinho", sete foram assinadas por Ronaldo Bôscoli.

No álbum, Maysa foi acompanhada pelo Tamba Trio (Luiz Eça, Bebeto e Hélcio Milito), Roberto Menescal e Luis Carlos Vinhas. Eça foi o responsável pelos arranjos. A clássica capa do álbum conta com todos eles, além de Maysa, em um barco na Enseada de Botafogo.

"Barquinho" foi extremamente bem recebido, e Maysa se tornou a primeira divulgadora internacional da Bossa Nova, com shows na França (no famoso Olympia), Estados Unidos e Portugal.

Como pode ser observado, até na hora de fazer Bossa Nova, Maysa criou polêmica. O poeta Manuel Bandeira escreveu que "os olhos de Maysa são dois oceanos não-pacíficos". E a Bossa Nova, para ela, foi isso: um "Barquinho" deslizando em "oceanos não-pacíficos". Por isso que Maysa nunca sai de moda.


Faixas:
1)    O Barquinho
2)    Você e Eu
3)    Dois Meninos
4)    Recado à Solidão
5)    Depois do Amor
6)    Só Você (Mais Nada)
7)    Maysa
8)    Errinho à Toa
9)    Lágrima Primeira
10)    Eu e o Meu Coração
11)    Cala Meu Amor
12)    Melancolia

Em seguida, um vídeo de Maysa interpretando "O Barquinho".


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Comentários
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    18/01/2009 21:47:48HelôAnônimo

    Caro Sydney O disco, além de maravilhoso, é raridade para colecionadores. Depois da minissérie deve estar ainda mais valorizado. Tenho um blog de capas de discos com imagens do Rio e as visitas triplicaram depois de Maysa. Quando tiver um tempinho e quiser visitá-lo, eis o endereço: http://rioemdisco.blogspot.com/ Grande abraço.

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